Sessão nostalgia e o título perdido pela diplomacia

A temporada de 1958 da Fórmula 1 foi marcada por muitas fatalidades, a despedida histórica de Fangio, a primeira corrida de uma mulher, Maria Teresa de Filippis, e o que é considerado um dos resultados mais injustos da história. Mas o que talvez tenha sido a derrota mais dolorida da carreira de Stirling Moss teve muito a ver com seu próprio caráter, em um episódio que completa 60 anos nesta semana.

A curiosa história ocorreu naquele que foi o primeiro GP de Portugal de Fórmula 1, apesar do nome: VII Grande Prêmio de Portugal. Isso porque provas de carros esportivos eram realizadas desde 1950 no Porto e em Lisboa. E embora o GP de Portugal tenha permanecido no calendário até os anos 1990, o circuito da Boavista, nas ruas do Porto, só recebeu a categoria em 58 e em 60, e ficou famoso por ser uma pista de velocidades altas devido às longas retas, e de difícil ultrapassagem. Linhas de bonde, postes de iluminação e guias faziam parte do circuito.

Na luta pela pole, Stirling Moss, da Vanwall, bateu Mike Hawthorn, da Ferrari. E o primeiro piloto agenciado por Bernie Ecclestone, Stuart Lewis-Evans, completou a primeira fila no grid de largada. Em uma pista ainda molhada devido à chuva que caiu horas antes da largada, os 15 carros largaram e Moss manteve a ponta inicialmente, mas foi ultrapassado por Hawthorn ainda na primeira volta.

Moss recuperaria a ponta depois que a pista começou a secar, na oitava volta, e abriu, enquanto os freios da Ferrari de Hawthorn começavam a dar sinais de desgaste. Mas na décima volta os dois já tinham aberto quase 30s para o terceiro colocado.

Hawthorn, então, desistiu de perseguir o líder, que abriu um minuto com 25 das 50 voltas disputadas, diferença que passaria dos cinco minutos ao final da prova de pouco mais de 2h. O britânico chegou a ir aos boxes para tentar reparar sua Ferrari, mas sem sucesso. Com o tempo perdido, chegou a perder posições, mas os rivais acabaram tendo quebras.

Na volta final, Moss se preparava para dar uma volta em Hawthorn, enquanto a outra Vanwall, de Lewis-Evans, estava em terceiro lugar e a poucos segundos da Ferrari. A equipe mostrou uma placa a seu piloto que indicava 5s de vantagem a Lewis-Evans e Hawthorn entendeu que se tratava da Vanwall que ele via logo atrás. Mas o carro era do líder Moss.

O eterno rival de Fangio conta que estranhou o semblante de Hawthorn quando ele conseguiu a ultrapassagem. “O velho Mike deve estar bravo por eu ter dado uma volta nele”, pensou, e devolveu a posição.

Com isso, Hawthorn acabou não recebendo a bandeirada, pois ela foi dada ao vencedor logo atrás, e seguiu andando forte, até rodar sua Ferrari. Moss, então, parou para tentar ajudar Hawthorn, que tinha deixado o motor morrer e, na confusão, o carro acabou sendo empurrado na contra-mão.

Isso fez com que os observadores da época quisessem desclassificar Hawthorn, mas Moss defendeu o rival, colocando-se como testemunha ocular e argumentando que todos tinham tirado o pé (afinal, todos tinham levado uma volta), então não houve nenhum comprometimento de segurança. A prova acabou pouco depois das 18h, mas o resultado só saiu após as 23h, confirmando Moss em primeiro, Hawthorn em segundo e Lewis-Evans em terceiro.

O GP de Portugal seria a nona de 11 etapas no campeonato, e a terceira vitória de Moss – contra apenas uma do rival. Mas a Vanwall tinha dividido os pontos entre seus três pilotos – Tony Brooks também fazia parte do time – e Moss acabou chegando à etapa final, no Marrocos, precisando vencer e torcer para Hawthorn terminar em terceiro ou abaixo disso. Para tanto, precisava da ajuda dos companheiros, que seguraram a Ferrari até terem problemas de motor – que acabaram matando Lewis-Evans devido a queimaduras. Hawthorn foi segundo, ganhou o campeonato por um ponto e morreu semanas depois em um acidente de carro.

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