Estratégia do GP da Itália: Mercedes dá uma de Ferrari

Há muitas maneiras de analisar o GP da Itália. Dependendo do ponto de vista, pode-se pensar em como a Ferrari perdeu ou como a Mercedes ganhou: A Ferrari perdeu porque Kimi defendeu sua posição na largada? Por conta do toque de Vettel? Pela parada no box antecipada? Pelo acerto do carro? Pelas voltas em que Raikkonen teve de forçar o ritmo logo no começo do stint? Por ter ficado preso atrás de Bottas? E a Mercedes, ganhou porque deu o drible na Ferrari na parada? Porque usou Bottas como escudeiro? Porque cuidou melhor dos pneus? Ou porque Hamilton anda imbatível?

Provavelmente, a resposta está em um caldeirão com todos estes ingredientes. Mas existe um princípio que vem antes de tudo isso, antes mesmo da classificação: A Mercedes conseguiu bater a Ferrari quando a rival era favorita agindo exatamente como a Ferrari fez por várias vezes ano passado. Sabendo que dificilmente bateria os italianos na classificação, focou em um acerto – provavelmente mais de cambagem do que de qualquer outra coisa – voltado a fazer os pneus durarem na corrida. Retardou sua parada e se aproveitou do desgaste dos pneus de Kimi no final para vencer.

Na pista, as coisas começaram a dar errado para a Ferrari na classificação, quando ficou claro que Raikkonen não seria um escudeiro e provavelmente já tinha sido avisado de que dificilmente permanece ano que vem na Scuderia. Afinal, em um circuito no qual o vácuo é importantíssimo, a Ferrari fez um Q3 equilibrado: Vettel foi ajudado na primeira tentativa, e o finlandês, na segunda. Como a pista costuma estar melhor no final, a decisão foi estranha e o alemão disse que conversaria a portas fechadas, mas o resultado foi a pole de Kimi.

Pela agressividade de Vettel nos primeiros metros, ele não esperava que o companheiro abrisse a porta, e ainda por cima se colocou em posição muito vulnerável na curva 4. Na trajetória normal e ligeiramente à frente, não seria Hamilton quem iria aliviar, e o toque jogou Vettel para o fundo do pelotão.

Sua recuperação a partir dali já estava totalmente comprometida, pois ele tinha apenas um pneu macio novo, um carro com danos no assoalho, e acabou tendo sorte com a teimosia de Verstappen na parte final da prova para ganhar dois pontinhos a mais.

O prejuízo teria sido menor caso Raikkonen tivesse conseguido vencer, mas a disputa começou a se complicar quando Hamilton não deixava o finlandês escapar. É possível que Vettel, que geralmente tem um ritmo melhor, conseguisse, mas também é preciso frisar a inteligência do inglês de usar o vácuo para não deixar o rival escapar.

Por conta disso, assim que a janela de pit stops abriu, a Ferrari chamou Raikkonen aos boxes, uma vez que o undercut era uma possibilidade real. A parada não foi cedo demais: com o ritmo certo, era possível chegar tranquilamente ao final da corrida.

O problema é que os engenheiros pediram para Kimi forçar o ritmo mesmo depois que ele já tinha uma margem tranquila para se defender do que agora seria um overcut de Hamilton, que optou por ficar na pista por mais voltas, indicando que apostaria em ter um pneu melhor no final para atacar.

Sabe-se que forçar muito no início do stint é ruim para o pneu Pirelli. Isso faz com que a temperatura suba internamente, algo que gera bolhas. A princípio isso não é um problema em termos de performance – mesmo aparentando estar em péssimo estado, o pneu não perde desempenho inicialmente por conta de blistering – mas a chance de uma quebra brusca no final do stint aumenta consideravelmente.

O resultado foi uma margem de 5 a 6s maior do que o necessário quando Hamilton fez sua parada, algo que seria inevitavelmente dizimado pela presença de Bottas na pista, com os pneus longa-vida que a Mercedes calçava por ter focado mais na corrida. O finlandês cumpriu seu papel muito bem, fazendo a Mercedes parecer um caminhão, posicionando-se no meio das freadas, e fazendo seus pneus durarem quase 40 voltas.

Quando o finlandês fez sua parada, o cenário estava pronto para Hamilton “finalizar’ Raikkonen. Como ele mesmo disse depois, é como se o piloto fosse o último elo da engrenagem, que estava perfeita até aquele momento. E ele cumpriu seu papel, manteve a engrenagem funcionando, passou um Raikkonen fragilizado devido ao estado dos pneus e conquistou – mais uma – vitória improvável nesta temporada.

26 comentários sobre “Estratégia do GP da Itália: Mercedes dá uma de Ferrari

  1. Julianne, meio fora do assunto, você viu o onbord da câmera do Raikkonen quando ultrapassa o Lewis na chicane? Ele usa o dedo indicador esquerdo para mexer numa alavanca atrás do volante. Isso pode ter relação com mudar o escapamento de gases quentes de um tubo para outro gerando o o dito difusor soprado? Afinal a velocidade do Kimi neste momento foi impressionante, parecia que o Lewis freou uns 500 metros antes…

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  2. Depois dessa. Se eu sou a Arrivabene. Kimi estaria fora já em Cingapura (Singapura?)
    Já assisti a largada até o acidente umas 20 vezes. Não havia pra onde Vettel se meter, ou o que fazer. Kimi praticamente jogou ele no colo do Hamilton. Nem abriu distância, nem abriu pro Alemão passar.
    A única maneira de Vettel evitar o acidente, seria ter deixado Hamilton passar e ter tentado ultrapassar depois. Mas eu duvido que qualquer piloto no mundo teria feito isso.
    Parabéns pro Kimi, ganhou o troféu babaca do ano, porque nem a corrida conseguiu ganhar.
    Tivesse deixado Vettel passar, sairia de Monza com o mesmo segundo lugar e uma dobradinha do time. Foi um perfeito idiota.
    Hamilton agiu certo, foi pro tudo ou nada. se os dois rodassem também estava bom pra ele, quem tinha que descontar era Vettel.
    Da mesma forma parabéns ao Bottas. Fez a corrida particular dele contra Verstappen e ainda deu 80% da vitória do Hamilton. Chegou onde chegaria de qualquer forma.

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    1. Isso mesmo Alfredo, concordo 110% contigo.
      Se mantiverem o Kimi, Vettel pode dar adeus ao título.
      O Bottas, que não tem chance nenhuma, fez o que lhe cabe, “deu” a vitória pro Lewis, afinal, a Mercedes soube muito bem lidar com seu “segundo” piloto, já a Ferrari…
      Quando o Kimi faz a volta mais rápida da história da F1, o que lhe disseram no rádio? “Kimi, P1” e o Vettel? “Conversamos mais tarde”. Pô jogaram o Kimi no lixo.
      Raikkonen não ajudará em nada, já mostrou isso nas duas freadas da primeira volta em Monza, além de atrapalhar (dando de ombros para as ordens) no que puder. E sinceramente, creio que eu mesmo não ajudaria alguém nestas condições.

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    2. Eu penso que o Vettel deveria sim ter se protegido na primeira volta.
      Tinha melhor carro.
      Em Spa o Hamilton ciente que não teria condições pensou no campeonato e “recolheu” na primeira volta.
      Em Monza quando o Raikkonen devolveu a ultrapassagem pós SC ele novamente entendeu que ali não era a hora.
      O Alonso teria feito isso.
      O Button também.
      Quanto ao Kimi eu penso que o unico erro dele foi não ter ido pro tudo ou nada na disputa com o Bottas.
      Infelizmente (a muitos anos) lhe falta aquela pegada que viamos na época da Mclaren.

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    3. Na minha opinião, o Kimi apenas confirmou que é um piloto de verdade, e, ao contrário de outros no passado, não se coloca em uma posição inferior ao outro piloto da Ferrari. Talvez por isso ele é campeão do mundo, enquanto que recentemente alguns ficaram no “quase”.
      Nunca é demais ver os italianos se acusando mutuamente e batendo cabeça, enquanto que nós desfilamos em dupla na volta de desaceleração…. Silverstone está vingado!

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  3. Bacana! Mercedes com o foco totalmente voltado para a corrida. Ferrari, pole position! Kimi depois da parada “prematura” fez volta mais rápida e mesmo assim não ameaçou em momento algum o Bottas (pneus macios da largada). Está claro para mim: o que decidiu a corrida foram os pneus…e, claro, a ousadia e braço de Lewis!

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  4. Ju, Vettel declarou que corre contra 3 carros, incluso o próprio companheiro. Kimi chegou a fazer algum comentario sobre as declarações de Vettel? Acha que com a saida cada vez mais certa, Kimi vai correr mais “tranquilo” e dificultar as coisas para o alemão?

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    1. Eu duvido muito que ele tenha dito isso. Saiu em um site obscuro italiano dizendo qie a declaração tinha sido para os holandeses. Conhecendo o processo das entrevistas, só poderia ter sido para a TV da Holanda no cercadinho, mas é um áudio que a assessora dele manda para todos. Como seria possível ninguém mais ter destacado essa frase?

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      1. Tem razão. O que saiu em outros sites foi que ele não quer que a Ferrari interfira na disputa com o Kimi através de ordens de equipes. O que faz mais sentido, considerando que não me lembro de criticas publicas entre ambos, mesmo na temporada de 2016, quando Vettel por mais de uma vez bateu na Ferrari de Kimi.

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  5. Boa Tarde,
    Sempre que falo mal de Vettel, seus defensores fazem alusão a temporada com a Toro Rosso, onde inclusive obteve uma vitória.
    Na época, a Red Bull usava motores Renaut e a Toro Rosso, utilizava o engenho Ferrari, que na temporada mostrou-se muito forte , tanto que o triunfo de Sebastian foi em Monza, pista onde o motor fala muito. Temporada onde Kimi e Massa dirigindo pela equipe italiana, obtiveram ótimos resultados.
    Vettel sempre está no lugar certo na hora certa, até quando dirigiu pela Toro Rosso.

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  6. Pode a Ferrari estar tão confiante a ponto de achar que, independente da fechada de porta do Kimi, poderia levar o 1-2 e deixar seus pilotos felizes?
    Afinal, Vettel sempre anda melhor na corrida. Kimi não entregaria a posição e a Ferrari propositalmente faz um setup que deixaria ele vulneravel para Vettel fazer o que Hamiltom fez?

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  7. Julianne, antes de tudo, meus parabéns pelo excelente blog. Sabemos que cada um tem seu piloto favorito, e assim não é diferente com você. Mas você, de maneira brilhante, tenta ao máximo abandonar o seu lado emoção para fazer suas postagens usando a razão, isto é, tentando passar as informações de forma mais técnica e imparcial possível. BRILHANTE, VOCÊ!

    Quanto a corrida, não sei se vai concordar comigo, mas eu entendi da seguinte forma: Todos nós sabemos que o GP mais importante para FERRARI é o de MONZA. Sabemos também que Vettel sempre lutou para que Kimi ficasse na Ferrari, tendo em vista que, na sua concepção, o Finlandês não é páreo para ele, e isso facilitaria a vida do Alemão. Essas coisas vão mexendo com a cabeça de qualquer piloto e Kimi sentiu que esse era o momento par mostrar para a Ferrari e para o mundo que as coisas não são bem assim.

    No sábado, com todos os méritos, Kimi foi o mais rápido. Para melhorar sua situação, Vettel ficou a frente de Hamilton, o que significa que o Finlandês poderia fazer sua corrida, ganhar dentro do lugar mais importante para ele, e mesmo assim não interferir na luta do título, haja vista que era só o Vettel fazer o seu papel, que no caso seria se manter na frente de Lewis.

    Caso acontecesse isso, Vettel teria um grande aliado até o final do campeonato, pois Kimi, mesmo sabendo que não iria ficar na FERRARI no próximo ano, se aposentaria de forma digna, com CHAVE DE OURO, tendo com currículo sua última vitória da carreira MONZA. Essa seria aposentadoria dos sonhos para o Finlandês.

    Mas, o Alemão é egoísta e ganancioso, tentou logo no início jogar água no chopp do companheiro de equipe, que simplesmente estava tentando parar de correr de form honrosa, e se deu mal. Kimi fez seu papel e Vettel esqueceu que não estava disputando o campeonato com Kimi, muito menos com Mark Webber(VETERANO), mas sim como uns dos maiores pilotos de todos os tempos, Lewis Carl Davidson Hamilon, e com com esse Inglês não se vacila.

    Em suma, Julianne, quero saber de você, que está no dentro do mundo da F1, se o egoísmo do Alemão, aliado com o desejo de Kimi em terminar sua carreira de uma forma honrosa, bem como o talento inquestionável de Lewis pode ter sido o fator que decidiu o GP de monza, e talvez, o próprio campeonato, tendo em vista que, caso o Finlandês queira, com o equipamento que tem, ele possa ser uma a maior ameça para Vettel do que o próprio Inglês, que tem um equipamento sabidamente inferior ao da escuderia Italiana?

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    1. Bom, vamos lá. Nestes mais de oito anos de blog, sempre me diverti com as teorias dos leitores sobre para quem eu torceria. Muitas vezes já vi conclusões totalmente opostas como resposta a um mesmo post! A verdade é que a F1 pode ser uma paixão para vocês, e por isso remete à torcida, mas para mim é meu trabalho acima de tudo. É impressionante como, quanto mais perto você está, mais você se distancia. Torço, e torço muito, para ter histórias deliciosas de contar e analisar, como na última corrida. Basta ver a quantidade de comentários nos últimos dias e em corridas monótonas como Canadá, por exemplo. Com uma história boa, eu ganho, e não tem como não torcer para isso!

      Sobre Vettel, não sei se eu chamaria de egoísmo. Existe uma informação faltando aí: é dado quase como certo no paddock que Raikkonen tem uma cláusula no seu contrato pela qual não pode haver ordens de equipe se ele larga na pole. Isso explicaria a afobação de Vettel nos primeiros metros da prova: o plano dele era pular na frente e tirar 10 pontos da vantagem de Lewis – chegando em segundo, tiraria só três. De qualquer forma, vejo mais outra demonstração de que o racecraft não é a grande qualidade do alemão, longe disso, do que qualquer outra coisa.

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  8. Ótima análise como sempre Julianne!
    Creio que seja realmente um caldeirão com tudo isso, todos os elementos da engrenagem funcionaram bem, inclusive o piloto, e tudo deu certo para o Luís Amilton! Belíssima vitória na estratégia e braço do conjunto Mercedes/Hamilton.
    Ao conjunto Ferrari/Vettel faltou o que lhes falta desde o meio da temporada passada:
    Paciência para lidar com a situação, bastava ao Sebastião Vettel ter se mantido atrás de Kimi, protegendo a sua posição, e mesmo que as ordens de equipe não fossem possíveis pela pole de Raikkonen, a Ferrari provavelmente daria a melhor estratégia ao Vettel. Pelo menos é o que acho.
    Então você se diverte com os leitores do Blog tentando descobrir seu piloto favorito? Saiba que me divirto tentando descobrir seu piloto favorito. Acompanho seu trabalho a bastante tempo e até hoje não tenho nenhum palpite!
    Mesmo sendo seu trabalho você deve ter um favorito, conta pra nós e mate essa curiosidade!
    Rs
    Pensei em algo curioso, Vettel lê muito bem o mercado de pilotos e equipes, tanto que deixou de aceitar duas ou três propostas da Ferrari na época do tetra na Red Bull, mas lê mal as corridas, como isso é possível?
    E uma pergunta, entre Lewis e Vettel, qual dos dois tem o melhor racecraft?
    Grande abraço a todos do Blog!

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    1. Não acho que ele leia mal as corridas, mas sim que o racecraft dele não é seu ponto forte. Ele por exemplo julgou que podia dividir a chicane com Lewis em Monza, mas naquela trajetória seria muito difícil não escorregar para cima do rival.

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