Sessão nostalgia e os 10 anos do Cingapuragate (em versão estendida)

O momento em que o carro de Alonso quebra na classificação

A sessão Nostalgia dessa semana nem vai tão longe assim: há 10 anos, uma armação da equipe Renault alterava a história do GP de Cingapura e, por que não, do campeonato. Nelsinho Piquet bateu de propósito logo após a parada de seu então companheiro, Fernando Alonso, nos boxes, causando um Safety Car e permitindo que o espanhol ganhasse todas as posições daqueles que ainda não tinham ido aos boxes.

Alonso venceu a prova, que ficou marcada ainda por um pit stop péssimo da Ferrari, tirando qualquer chance de pódio de Felipe Massa. Com o resultado, o brasileiro, que vinha liderando até a batida proposital e tinha a chance de sair de Cingapura um ponto na frente de seu então rival Lewis Hamilton, que vinha em segundo, acabou ficando sete pontos atrás com três corridas para o fim. O campeonato foi decidido por um ponto.

Ainda na volta de apresentação, Nelsinho rodou na curva 23. Seria um ensaio? Enquanto isso, na ponta, Felipe Massa mantinha a primeira posição, conquistada com uma vantagem de mais de meio segundo na classificação, com Lewis Hamilton em segundo. Nas primeiras voltas, o brasileiro abriu do inglês, dando a impressão de que venceria fácil.

Na volta 12, Alonso, único que tinha largado com pneus macios, tendo pulado de 15º para 11º nas voltas iniciais, foi o primeiro piloto a entrar nos pits e voltou em último. Duas voltas depois, Nelsinho bateu na curva 17, culpando a falta de aquecimento de seus pneus. Em tática semelhante à de Alonso em termos de peso, Robert Kubica e Nico Rosberg (quarto e oitavo colocados no grid) já estavam no limite do combustível e foram obrigados a parar mesmo com o pitlane ainda fechado.

Aqui cabe o parênteses: a regra da época previa o fechamento do pitlane assim que o SC entrava na pista, fazendo da situação uma loteria pois, se o piloto tivesse sorte de ter entrado antes ou de estar perto da entrada do box, ganharia muita vantagem. No caso de quem tinha que entrar para não ficar sem combustível, a solução, como foi o caso de Rosberg e Kubica, foi aceitar o stop and go de 10s.

Mesmo assim, no caso de Rosberg, isso foi uma grande vantagem, e ele foi alçado ao segundo lugar após todas as paradas. Isso porque Nico voltou em primeiro e pilotos que estavam mais pesados, como Trulli e Fisichella, seguraram o pelotão. A demora para a confirmação da punição também ajudou e o piloto da Williams conseguiu abrir 15s na liderança antes de cumprir sua punição. Rosberg, então, voltou em quarto, atrás de Trulli, Fisichella e Alonso. Quando os dois primeiros pararam, o espanhol foi para a ponta, onde se manteve mesmo depois da segunda rodada de pit stops.

Parando assim que o pitlane abriu no período de SC, Massa sairia na frente de Hamilton, não fosse o erro do mecânico encarregado de liberar o carro do brasileiro antes da hora. O sistema de luzes da Ferrari, que foi uma das primeiras equipes a aposentar o chamado pirulito nos pitstops, funcionava automaticamente assim que a mangueira de combustível era desacoplada do carro. Porém, naquela parada em Cingapura, o sistema foi revertido para o manual. A Ferrari retornaria para o sistema de pirulito nas três etapas finais de 2008, e depois voltaria a usar o sistema de luzes, hoje comum, no ano seguinte.

Massa ainda sofreria um drive through por ter sido liberado em cima do carro de Adrian Sutil e não conseguiria se recuperar, ficando fora da zona de pontos. Enquanto isso, Hamilton se colocava em terceiro, posição que seria a de Massa sem a confusão no pitstop.

Felipe, contudo, sempre argumentou que a mudança no procedimento ferrarista só aconteceu porque a parada fora causada pelo SC e, por conta disso, não considera que o resultado do campeonato tenha sido totalmente justo. Porém, como as apelações só são aceitas até o final do ano e todo o esquema da Renault só foi desvendado em setembro de 2009, não coube apelação por parte do brasileiro.

 

Um pouco de contexto

Antes de todo o imbróglio, Alonso tinha sido o mais rápido na segunda e terceira sessões de treinos livres e surgia como um candidato inesperado à pole position em Cingapura. Inesperado porque a Renault não vinha bem naquele ano, apesar de ter demonstrado evolução nas corridas anteriores – o espanhol vinha de quatro quartos lugares seguidos e Nelsinho fora segundo no GP da Alemanha. Na decisão do grid, contudo, um quebra fez com que o bicampeão não passasse do Q1.

Foi isso provavelmente que iniciou o plano. Na época, falava-se muito da pressão que a equipe Renault vinha sofrendo para justificar o investimento da montadora, cujo presidente, Carlos Ghosn, sempre deixou claro que só manteria a equipe na F-1 caso isso fosse financeiramente vantajoso. “Quando não for mais um bom investimento, vamos embora”, disse o brasileiro ainda em 2006.

Curiosamente, o atual chefe da equipe Renault Cyril Abiteboul, culpou justamente a queda de investimentos entre 2007 e 2009 pelo atraso que o time, que fora bicampeão em 2005 e 2006, tem até hoje em relação aos rivais.

Politicamente, a F-1 vivia uma época bastante delicada: a temporada de 2008 foi disputada sem que houvesse um Pacto da Concórdia em vigor, e só com Ferrari, Red Bull, Midland e Williams sob contrato. Os demais tinham assinado apenas um memorando para garantir o campeonato daquele ano, em uma briga que se estendeu até o ano seguinte.

A chefia da Renault não estava contente com o aumento dos gastos da equipe devido ao regulamento, que seria alterado para 2009, e não queriam se comprometer a longo prazo em um novo Pacto da Concórdia.

Neste contexto, com o aval do chefe do time Flavio Briatore, o diretor-técnico Pat Symonds teria criado um plano detalhado para “eliminar” o resultado ruim de Alonso na classificação, instruindo Nelsinho, que tinha uma posição bastante frágil na equipe devido a uma série de resultados ruins em sua temporada de estreia, a bater exatamente em uma curva na qual não havia nenhum trator de remoção próximo, obrigando a direção de prova a chamar o SC. E garantir o resultado de que a Renault precisava.

Ironicamente, duas semanas depois, em um final de semana recheado de erros dos favoritos Hamilton e Massa, Alonso voltaria a vencer. Desta vez, de forma limpa.

O julgamento

Como por várias vezes aconteceu especialmente na era Ecclestone-Mosley, a maneira como o assunto foi tratado foi bastante política. Bernie teria sido avisado do que aconteceu por Nelson Piquet ainda em 2008, mas teria pedido silêncio. Quando foi demitido da Renault em meados de 2009, Nelsinho decidiu falar, em uma espécie de delação premiada, uma vez que escapou de qualquer punição.

Afinal, o alvo, especialmente para Mosley, era Briatore, que acabou banido por toda a vida de competições automobilísticas. A pena, contudo, foi aliviada em 2010, justamente depois da saída de Mosley do comando da FIA. Identificado como mentor do processo no julgamento do Conselho Mundial, Symonds sofreu inicialmente pena de cinco anos fora das competições, mas isso também foi revogado. Ele voltou trabalhando pela Marussia, passou pela Williams e hoje faz parte do grupo técnico chefiado por Ross Brawn, na FOM.

Chamado a depor, Alonso disse não ter qualquer conhecimento da armação e o documento oficial diz que “em relação a Alonso e outros engenheiros, os comissários não encontraram qualquer evidência que sugerisse que eles sabiam dos planos”. O piloto escapou de qualquer pena.

Outro ponto curioso do processo foi o poder decisivo de uma única testemunha que sabia do plano, mas não participou dele. Foi a chamada “testemunha X” que confirmou a história de Nelsinho, pois ele estava “presente em uma reunião feita após a classificação em que Symonds mencionou a possibilidade de um acidente a Briatore”. Há quem diga que a tal testemunha era Alan Permane, atual diretor de operações de pista da Renault, ou mesmo o próprio Alonso.

10 comentários sobre “Sessão nostalgia e os 10 anos do Cingapuragate (em versão estendida)

  1. Tenho por mim que o Kimi teria conquistado o segundo lugar, garantindo uma dobradinha por parte da Ferrari, o que ampliaria a vantagem do Massa. Lembro que estava bem rápido antes do trágico incidente e colado no inglês da McLaren.

    Curiosamente, o que mais me marcou nessa corrida foi o acidente do Kimi ao fim da corrida, quando disputava o quarto com o Glock, na extinta chicane. Aquele erro o limou de qualquer chance de bicampeonato, ainda que matematicamente ainda fosse possível.

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  2. O que mais me incomoda em relação a Cingapura 2008 é que a armação do Alonso e da Renault servem como desculpa para que digam que Massa foi garfado na temporada. E esquecem que Hamilton passou o ano todo perseguido pelos comissários, teve uma vitória roubada na Bélgica e sofreu batida grosseira do próprio Massa no Japão. Ufanismo é isso.

    Quanto ao Alonso, é necessário muito cinismo para crer que ele sabia de nada sobre Crashgate. Nunca foi do perfil dele ser do tipo de piloto que não possui voz ativa ou sequer interesse em saber do preparo da equipe e da estratégia para a prova. O fato da revelação de Crashgate não ter causado qualquer abalo em sua relação com Briatore é incriminador o suficiente.

    Quanto á Cingapura, para mim o GP é incrível e sempre o aguardo com maior ansiedade. O GP é uma encarnação moderna e distinta dos circuitos de rua e seus desafios; pista travada e com ondulações que premia a pilotagem agressiva e precisa, mas cujos muros próximos não perdoam erros. Como em qualquer outra prova, é impossível vencer sem carro bom, mas Cingapura é um dos poucos legítimos ‘driver’s circuits’ que restam e é possível ver bem e diferença entre a boa pilotagem e a pilotagem genial. Acho que é meu GP preferido entre todos que entraram no calendário nos anos dois mil.

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  3. Se o próprio Alonso disse que não sabia de nada, ele não pode ser o testemunha X pq essa testemunha sabia e não participou. Como Alonso ganhou a corrida então ele teria sido participante do esquema. Em relação à Nelsinho Piquet e seu pai, interessante notar que isso pode ter funcionado meio como uma chantagem para manter o Jr. na equipe. E aparentemente Briatore não considerou, tempos depois que, demitindo Nelsinho, estaria basicamente tornando o fato público. Atestou que realmente não conhecia bem a família Piquet.

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  4. Peço desculpas, principalmente a Julianne e aos demais leitores das excelentes matérias, aqui, publicadas, pois minha postagem foge completamente do tema em pauta.
    Um freqüentador deste Blog, certa ocasião, externou, entusiasmado, sua admiração pelo ex-piloto Jean Alesi, a quem chamou de “Crasy Jean”. Não poderia furtar-me de narrar esta incrível história, para nosso amigo.
    Isto, já bastaria para o correto apelido de louco!!……………
    Após breve reunião, Berger e Alesi, deixam o escritório da fábrica e vão caminhando até o estacionamento, um Lancia Delta Integrale foi colocado a disposição, para levá-los até Fiorano, pista particular da Ferrari. No local, dois carros iguais, ambos, com as chaves no contato, um deles, a versão esportiva, potente, baseada no modelo de Rally.
    Fácil concluir, a escolha recai sobre o veículo mais bravo, Alesi toma o volante e sai rasgando, primeira no limite de giros, engata segunda, pisa fundo, terceira marcha, pé em baixo, ultrapassa o portão, á frente uma ruazinha estreita, entra com tudo, escapa de traseira, bate na guia, capota uma, duas vezes, o automóvel finalmente para, estatelado de pernas pro ar.
    Tinham acabado de destruir o carro do patrão, Jean Todt, naquele tempo, comandante da equipe Ferrari. Berger realizou os testes em Fiorano, pelo resto do dia, Alesi com algumas escoriações foi para casa.

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  5. Ju, excelente narrativa.

    O que mais me entristece no Alonso, é que ele é um piloto muito bom, que poderia estar fazendo frente ao Hamilton hoje, se não fosse tão encrenqueiro. Se envolveu “indiretamente” na confusão envolvendo Mclaren e Ferrari em 2007, e nessa em 2008 é óbvio que ele ao menos tinha uma “menção” do que poderia acontecer.

    Eu não gosto do Alonso por isso. Acho ele um excelente piloto, tem uma pilotagem muito precisa, porém não gostei dele na conduta geral na fórmula 1 por esses casos, fora o inferno que ele causa dentro da equipe. É um piloto bom, porém sujo nos bastidores. É diferente de um Magnussem, de um Verstappen, que jogam duro, mas são caras que “aparentemente” não trapaceiam.

    Isso que o Alonso fez é sujo pra o esporte, por isso, e só por isso eu fico feliz de ele sair da F1 ao fim dessa temporada.

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  6. Duas postagens com detalhes a mais do que se lê na mídia em geral são ótimas Julianne!
    Muito se fala na falta de caráter do Alonso nesse esquema, mas se esquecem da falta de caráter do Nelson Piquet Júnior nesse acontecimento. Somente topar participar do esquema, para garantir a vaga na Renault, já denota isso. Delatar o esquema posteriormente “com raivinha” por se demitido, denota mais falta de caráter ainda. Ele aprendeu direitinho com o Alonso, que no ano anterior (2007) havia delatado a McLaren. Ambos (Nelsinho e Alonso) acham que os fins justificam os meios e tomam atitudes no mínimo duvidosas no meio esportivo.
    Olá Denis!
    Muito bem observado, a testemunha X não pode ser o Alonso, mas é curioso que alguém que tenha ouvido “apenas menções” tenha tido um poder decisório tão grande no caso.
    Olá Érico!
    É incrível como um título mundial faz falta a um piloto, os brasileiros adoram massacrar o cara, mas se ele tivesse sido campeão em 2008 seria herói nacional.
    E não é questão de ser desculpa, a manipulação do resultado alterou sim o resultado do campeonato. Com uma ajudinha da própria Ferrari, mas foi alterado. Negar isso é negar fatos.
    Grande abraço a todos do Blog!

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  7. Se o Safety Car causou uma rodada de pit stops prematura e todos tiveram que parar, mas só a Ferrari fez besteira, não dá pra fazer nada.
    Se a Ferrari quisesse estar em posição pra brigar por algo, mesmo que o caso tivesse vindo à tona ainda em 2008, não deveria ter errado aquele pit.

    Lembrando que a Ferrari já havia cometido erros parecidos em corridas tumultuadas como Canadá 2007 e 2008 com Massa. Era típico deles se embananar.

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