Energia

Sem querer dar de mãe Dinah, mas não vou resistir a contar duas conversas que tive com colegas em Suzuka: quando as duas Ferraris estavam alinhadas para sair dos pits no Q3 com os pneus intermediários e Vettel apareceu no rádio dizendo que não estava molhado o suficiente, disse “vocês sabem o que vai acontecer, na hora em que eles voltarem e colocarem os pneus de seco, a chuva vai apertar.” Não deu outra.

Já no sábado à noite, um jornalista finlandês me perguntava se eu estava “preparada para a dobradinha finlandesa, porque o Max vai tirar o Lewis na largada”. E eu pensei “a gente fica querendo que algo aconteça com o Lewis para abrir o campeonato, mas com certeza quem vai se enroscar com alguém será o Sebastian.”

Há quem tenha explicações que levam em conta a energia – e não estou falando daquela que deixou de alimentar as baterias gêmeas da Ferrari – mas o fato é que nada vem dando certo para a Ferrari e Vettel e, cada vez que eles tentam arriscar, como na escolha dos pneus ou na tentativa otimista de ultrapassagem, o feitiço acaba traindo o feiticeiro.

“Mas Sebastian tinha que arriscar”, dizem uns. É claro que ele está em uma posição de franco-atirador, mas não há nada como um risco calculado. E mergulhar naquele ponto da pista, de tão longe e especialmente em cima de Max Verstappen, que sempre fecha a porta, não foi a melhor das estratégias. Mesmo tendo percebido que o rival tinha usado toda a sua bateria naquela volta.

E olha que Verstappen já tinha dado o recado no sábado, dizendo que não aliviaria para Vettel pensando no campeonato porque não se trata de uma briga dele.

Lá na frente, as Mercedes passearam de forma tão tranquila, economizando ao máximo o motor, que Max Verstappen conseguiu chegar na cola de Valtteri Bottas mesmo com o assoalho de sua Red Bull danificado. Em que pese o erro da Ferrari na classificação e a empurrada de Verstappen em cima de Kimi Raikkonen, que também danificou o carro do finlandês, a Red Bull foi mesmo a equipe mais próxima da Mercedes em Suzuka.

Isso nos leva a outra questão: antes do GP do Japão, os pilotos da Mercedes estavam dizendo que não sabiam se eles tinham melhorado ou se a Ferrari tinha ido para trás. Perguntei para Hamilton se, agora, as coisas estava mais claras. E a resposta foi ótima: “Não trouxemos nada de novo no carro para cá e levamos muita pouca coisa para a Rússia – coisa de meio décimo de vantagem. Achávamos que tinha alguma coisa acontecendo e estávamos certos.” Do outro lado? “Sim.”

Depois de perder a vantagem que tinha em seu motor, a Ferrari reclamou do vazamento das informações, o que não deixa de mostrar a bagunça em que o time se encontra. Afinal, foram os dois engenheiros que o time de Maranello deixou escapar e que se juntaram à Mercedes que levaram os segredos consigo. Levaram também a chance do primeiro título em dez anos.

14 comentários sobre “Energia

  1. A energia não costuma favorecer quem erra tanto. Vettel começou errando com uma volta feia no Q3 e de lá surgiu o desespero. Foi ladeira a baixo o fim de semana dele.

    De repente o universo está equilibrando toda sorte que ele teve na Red Bull. Certamente ele não parece mais aquele talento precoce e explosivo destinado a quebrar recordes.

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  2. É incrível a incapacidade da Renault, Ferrari e Honda em não conseguir fabricar uma unidade de potência que chegue perto das Mercedes, os engenheiros recebem uma quantia extraordinária em dinheiro e nem assim chegam perto devem perder em média 1 segundo entre chassi e motor.
    Só não entendo porque não buscam engenheiros na Mercedes.

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    1. Isso tem muito a ver com uma bandeira que eu defendo.
      A F-1 como um esporte deveria ser acima de tudo simples.
      Ter um motor absurdamente forte como os antigos V10 3.0 aspirados.
      Ou sei lá…um 2.2 turbo.
      Sem essas traquitanas.
      Que só fazem os custos subirem lá na alta atmosfera.
      Um motor que qualquer um soubesse montar.
      Esses motores atuais tanto na F-1 quanto no WEC só servem pra assustar investidores ($$$) e criar abismos entre quem tem muita grana e quem tem de passar aperto.

      Tenho alguma esperança que os americanos da Liberty com a visão de bussiness tão deles simplifiquem as coisas.

      Os Hot Wheels de 2021 na F-1 e os GTP’s do WEC talvez sejam um luz no fim do tunel.

      Que também pode ser uma esquálida e moribunda vela perto da parede.

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  3. A Ferrari do Vettel poderia ser o carro mais próximo da Mercedes, mas infelizmente sofreu mais uma pane mental.
    Vettel está no mesmo lugar em que Alonso estava nas últimas etapas de 2010.

    Correndo pra estar em terceiro e rezando por problemas da equipe mais forte.
    A diferença é que Alonso liderava o campeonato àquela altura. Vettel já deixou a peteca cair há muito tempo.

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  4. Sou torcedor inveterado do Vettel, desde a Toro Rosso que gostava dele e entendo que por um lado, tudo o que pode dar de errado, tem dado pra ele. Mas ele não tem ajudado em nada. Hoje foi a cereja do bolo. Querer passar naquele lugar e ainda Verstappen, foi muito amadorismo. Acredito que toda essa história de baterias ilegais deu um baque na equipe como um todo. Parece certo que de um lado da garagem, kimi usou a sapiência sobre o ocorrido para conseguir uma boa sobre vida na categoria com um belo salário e sem pressão. Do outro lado Vettel ficou totalmente desnorteado. A Ferrari mudou por conta da FIA ou foi a ausência de Marchione? Quem entrou no lugar dele preferiu não arriscar a carreira por um campeonato? A Ferrari corre como 2 times separados enquanto a Mercedes vem somando. Boa parte dos pontos de Hamilton foram dados pelo Bottas. Fora os erros grotescos do pit wall da Ferrari. É muita pressão para um piloto só. Vettel tem carregado a Ferrari nas costas, Um time que parece usar um pajé pra ver se vai chover, não merece sequer o 2nd lugar na tabela. Se a Ferrari não mudar, MUITO, no próximo ano, vai ser engolida pela Red Bull também.
    Ótima matéria, como de costume.

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    1. “boa parte” rsrs no máximo os pontos da Rússia e de uma briga que a equipe evitou na Alemanha, que ninguém nem garante se ele passaria ou não.

      Não invente. E de qualquer modo se o problema é Kimi não fazer o mesmo por Vettel, quem pede a renovação dele entra ano sai ano é o próprio Vettel.

      Obviamente a equipe se cansou e parou de ouvir o alemão.

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  5. Ju,

    Grande trabalho como sempre, agora que as TV’s já não mandam mais ninguém para os Gp’s exceto o de Interlagos, você é nossa representante mor nos paddock’s junto com o repórter da Globo (que é itinerante, tem vez que é a Mariana, tem vez que é o Caparica) mas a participação do enviado Global sempre é muito restrita, só algumas pontinhas na classificação e na corrida, normalmente atropeladas pelo Galvão Bueno, já você significa muito mais conteúdo não só nas participações faladas mas em suas redes sociais, que são infinitamente mais ricas, sobretudo de opinião e de visão de dentro do box que só você tem (O Ico tinha isso também). Bom, mas deixando os elogios de lado, como você está sempre circulando junto aos pilotos e assessores, e colhendo a palavra deles, seria interessante você tentar perguntar ao Lewis qual a visão dele sobre ter o melhor carro e ser o melhor piloto da atualidade contra uma Fórmula 1 discrepante – talvez uma das mais da história – onde os outros competidores dele exceto o companheiro de equipe os pilotos da Ferrari, simplesmente não têm equipamento competitivo nas mãos e andam tão atrás dele, poderia perguntar se ele Lewis pudesse escolher num passe de mágica, continuar do jeito que está ou de uma hora para outra disputar com os todos os outros pilotos tendo condições bem próximas às dele (leia-se carros vencedores), se ele se sentiria melhor ganhando o título assim, com os demais em pé de igualdade, ou se do jeito que está ele sente o mesmo sabor de vencer correndo contra apenas 3 carros.

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  6. Olá Charles!
    Essa F1 é a mais discrepante? E a McLaren MP4/4 de Ayrton/Prost que deu uma volta no terceiro colocado e ganhou 15 de 16 provas? Isso não era discrepante?
    Os domínios na F1 se repetem de tempos em tempos, mas sinceramente, nenhum como essa MP4/4 e em questão de tempo, nenhum como a era Schumacher.
    A Ferrari só não está fazendo frente maior à Mercedes devido aos próprios erros, tá certo que eles perderam o melhor carro já tem aalgumas etapas, mas os carros vermelhos são próximos, muito mais próximos da Mercedes do que a Ferrari era próxima da Red Bull dos 4 títulos, bem próximos, das flechas de prata.
    Olá Alfredo!
    Acredito que Vettel esteja sentindo a mesma pressão que Alonso sentiu, mas diferente do espanhol, não está conseguindo lidar bem com isso, Fernando foi “uma pedra de gelo” nesse quesito em sua luta com Sebastian durante o domínio da Red Bull, mas Vettel parece estar cedendo à pressão.
    Falando em pressão Julianne, o que você sente em Vettel nesse quesito quando faz perguntas ou está com ele? As declarações dele dizendo que “A Ferrari não tem nada a temer” nunca me convenceram de que a situação era essa.
    E quando tiver um tempo do trabalho, joga umas cartas de tarô pra galera do Blog, Julainne “Dinah” Cerasoli. Dá pra conseguir um troco por fora!
    Rs
    Grande abraço a todos do Blog!

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    1. Não era raro a Mclaren MP4/4 rodar em corrida, mais rápido que os concorrentes andavam em classificação.
      Alguém devia ter perguntado pro Senna em 1988 o que ele achava de ser campeão em uma F1 tão discrepante. Mas ninguém fez isso, pois ele não é culpado de estar em uma posição para vencer. E é o mesmo caso do Hamilton hoje.

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  7. Acho que uma das mostras da inteligência do Hamilton é ele nunca ter mostrado vontade de guiar pela Ferrari. Tenho pensado que, se fosse o Hamilton nos vermelhos e Vettel nos prateados, talvez estivéssemos aqui comentando a “era Vettel” e a instabilidade do Hamilton. Acho que a Mercedes criou para o Hamilton um ambiente ideal, de certa forma semelhante ao que o Schumacher teve extraordinariamente na Ferrari. O Vettel, por sua vez, pegou aquela velha rossa que tem seus lampejos, mas desliza muito facilmente pra bagunça e politicagem autodestrutiva. Faz muito tempo que eu vejo isso se repetir. A Ferrari sempre conseguiu sabotar seus campeonatos e desestabilizar seus pilotos. E muito poucos pilotos são um Lauda, talvez o único campeão pela Ferrari (no segundo título, em 77) que conseguiu não tropeçar na puxada de tapete que o próprio time lhe deu.

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  8. É … Ju, uma curiosidade:

    É notório realmente que o carro da ferrari perdeu essa energia extra da 2° bateria agora q a fia também está monitorando ?

    pergunto isso porque pelo que parece, o carro andou pra trás em todos os apectos, mas principalmente em questão do gerenciamento de pneus. É como se o jogo tivesse invertido, e agora a mercedes lida melhor com os pneus que a ferrari. As duas coisas tem ligação, claro, mas o que você pode dizer sobre isso vendo ai do paddock ?

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    1. Estive aqui pensando com meus botões: e se essa configuração com uma “bateria alternativa” não adicionasse ‘energia extra’ (muita gente comentou que a diferença gritante da Ferrari não era em termos de potência e velocidade final, mas de reaceleração nas saídas de curva) mas permitisse ‘modular’ a saída de energia para o MGU-K?
      Imagine uma bateria alternativa, com alguns sensores embutidos (acelerômetro, por exemplo) e que modula a saída de energia conforme os dados desses sensores… não seria possível usar, então, o MGU-K como um… controle de tração?
      Com o sensor original, provavelmente a FIA só pegaria o total de energia entregue pelas baterias a cada volta.
      Talvez, a suspeita que tenha motivado a instalação de um segundo sensor seja a de que a bateria “alternativa” não estaria entregando a energia linearmente em função “do pé” dos pilotos, mas estaria controlando parte da potência da MGU-K, combinando as informações da ECU com os dados de um acelerômetro interno.
      E se essa energia estiver sendo controlada por PWM, um sensor que estivesse configurado para medir a saída apenas em termos de tensão x corrente (contínua) ao longo do tempo não detectaria o truque.

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    2. Gustavo… acho que, talvez, as coisas estivessem um pouco mais conectadas ainda.
      ***Se***, como eu imagino, o que essa bateria “alternativa” entregava não era “energia extra”, mas energia controlada em PWM, combinando os dados da ECU com um acelerômetro interno, isso transformaria a MGU-K da Ferrari em uma forma de controle de tração.
      Isso permitiria, ao mesmo tempo, acelerar mais rápido nas saídas de curva e preservar melhor os pneus.
      O sensor original da FIA, talvez só medisse tensão x corrente (contínua) ao longo de cada volta, como um medidor residencial.
      Modulando em PWM, eles conseguiriam controlar a potência entregue à MGU-K, sem aparentar nenhuma variação “não linear” (em função do acelerador) dessa potência, “tapeando” o sensor.
      Com um segundo sensor que medisse tensão x corrente x frequência ao longo de toda a volta, não seria possível que a saída da bateria não correspondesse à resposta “normal”, linear, da ECU ao acelerador, sem que a FIA percebesse.
      Novamente… ***SE*** fosse isso, seria muito engenhoso e explicaria a vantagem da Ferrari: não cavalos a mais, mas cavalos “mais espertos’. Potencialmente ilegal, no entanto.

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  9. O Vettel está mostrando quem ele é de verdade.
    É um grande piloto.
    Não desmereço seus quatro titulos e as mais de quarenta vitórias.
    Mas ele na hora da pressão não reage de maneira tão germânica quanto deveria.
    – Tentou uma manobra estabanada contra o Verstappen em Suzuka.
    – Praticamente chamou Hamilton pra cima na primeira volta em Monza e deu no que deu.
    – Bateu sozinho na chuva em Hockenheim.
    – Se enroscou com o Bottas em Paul Ricard na largada.
    – Passou reto na relargada em Baku.
    – Bateu sem querer querendo no Hamilton ano passado no México.
    – Briga de trânsito em Baku com o Hamilton ano passado.

    Ou seja, em que pese a carreira vencedora dele…na hora da pressão ele tem uma leve tendência a espanar.

    Como diria o Mestre Edgar de Mello Filho:
    “Ele escorrega na própria baba”.

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