Categoria 100% feminina como experimento

Acho que dá para ver bem a diferença física em relação aos colegas de trabalho…

A inclusão de mulheres no automobilismo ganhou mais um capítulo na última semana, com a divulgação da W Series, categoria exclusiva para mulheres, com carros de F-3 e financiamento próprio, ou seja, as pilotos não terão de pagar para participar. O calendário inicial tem seis etapas, todas na Europa. Uma oportunidade ou uma segregação?

Ainda é cedo para saber como a categoria de fato vai funcionar. Afinal, nenhuma piloto foi confirmada até o momento e sabemos que a divisão de opiniões é muito grande entre as que acreditam que qualquer espaço é bem vindo e a grande maioria que quer competir contra homens – como, aliás, fizeram desde o kart. Portanto, é possível que a W Series não consigam atrair de 18 a 20 mulheres de alto nível, não porque elas não existem, mas porque elas não estão interessadas em competir apenas entre si.

Mas o ponto que considero mais importante é outro. Recentemente fiz uma entrevista muito legal com Tatiana Calderón, que está na GP3, tentando dar o passo para a F-2, além de ser piloto de desenvolvimento da Sauber. A colombiana levanta os pontos que deveriam estar sendo discutidos, ao invés do debate superficial que o tema costuma gerar.

Calderón nunca teve problemas para correr no kart ou para começar sua carreira nos carros de fórmula. As dificuldades começaram na GP3. É um carro bem físico no momento, potente e sem as ajudas eletrônicas da F-1. Além disso, como trata-se de apenas um carro homologado, a caminhada da colombiana tem sido difícil para conseguir fazer as adaptações que, ao longo do tempo, percebeu que necessita.

Explico: as mulheres têm, naturalmente menos potência muscular que os homens com o mesmo nível de treinamento. Isso, porque têm 10 vezes menos testosterona. Logo, além de terem de estar muito mais bem treinadas, é muito mais importante para elas estarem precisamente posicionadas no carro para poder aplicar toda sua força da melhor forma possível.

Calderón foi descobrindo ao longo das provas da GP3 que o ângulo em que seu pé chegava no volante não era o ideal (ela basicamente freava com a ponta do pé), e por isso não conseguia aplicar pressão suficiente. Isso foi resolvido com uma extensão, mas causou outro problema: sua perna passou a esbarrar na barra de direção, e isso está homologado e não pode ser mudado. Já a grossura do volante fazia a colombiana terminar as corridas com as mãos travadas e muita dor, algo que também foi adaptado pela sua equipe. Mas outro problema de posicionamento não tem solução simples: a distância entre o cockpit e o volante é grande demais para ela, que acaba se inclinando e tendo dores no pescoço e ombros por conta disso.

São problemas que afetam as pilotos nessa faixa de GP3, F-3 e F-2, e é nesse nível que vemos talentos do kart ficando pelo caminho. Na F-1, até por ser um campeonato de construtores, o nível de customização para as necessidades de cada piloto é bem maior e inclusive mais livre em termos de regulamento.

Notem que as “descobertas” de Calderón começam por uma necessidade feminina de estar 100% ergonomicamente posicionada para poder aplicar toda a sua força, mas passam por uma noção de inclusão muito maior. Tanto, que ela hoje trabalha junto à FIA para “que os regulamentos sejam pensados para acomodar quem tem de 1,60m a 1,90m.”

É nesse sentido que acredito que a W Series possa ser muito interessante: como um campo de estudos para entender as necessidades das mulheres do ponto de vista físico. Isso é algo que acontece em várias áreas da sociedade. Não faz tanto tempo assim que as pesquisas científicas não levavam em consideração diferenças de gênero e novos medicamentos sequer eram testados em mulheres, por exemplo. Ter, ao invés de duas ou três, pelo menos 20 mulheres andando com um carro de F-3 é a chance de começar a deixar o achismo de lado.

10 comentários sobre “Categoria 100% feminina como experimento

    1. O mundo dos carros de fórmulas, até hoje, foi projetado com base corpo masculino. Apenas focados nos homens, mas já está mesmo na hora de desenvolverem este universo pensando nas mulheres também.
      O esporte só tem a ganhar, acredito.

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  1. Eu vejo como necessidade, porque não há uma categoria própria para as mulheres e segregação, por questões físicas e biológicas, ambos positivas; pois, em todos os esportes, há esta separação, justamente pela grande diferença física. No atletismo, nos esportes coletivos há esta separação, por causa da diferença que tiraria a competitividade. Não é porque o esporte é a motor, que será diferente, pelos motivos que você mesmo mencionou.

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  2. Ju, entendi 101% todos os dados apresentados nessa sua matéria.
    Reconheço que nunca havia pensado nesses pontos.
    Mas me surgiu uma duvida.
    E os pilotos homens de baixa estatura.
    Digamos um Felipe Massa ou Takuma Sato.
    Na verdade nunca os vi ao vivo mas sempre tive a impressão de que eles são bem menores que um Nico Hulkenberg ou o Lance Stroll só pra citar dois atuais.
    Eu sempre vi com bons olhos a presença das mulheres no automobilismo.
    Mas de forma competitiva.
    Como uma Danica Patrick na Indy, nossa Bia Figueiredo em várias categorias ou a Rahel Frei no DTM que chegou a marcar pontos.
    Diferente da Sussie Stordartt (atual Wolff) que era só um rostinho bonito no meio da macacada.

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  3. A principal proposta da W Series, é financeira, porque existe por toda uma cultura histórica os principais patrocinadores, sempre patrocinam pilotos homens e principalmente pelo que a Calderón mulheres tem muito mais dificuldades de entregar os resultados.

    Existe também “sabotagem” de pilotos homens para mulheres, porque “perdeu para uma mulher”.

    E eu acredito, que se uma mulher puder chegar a F1 competitivamente ela terá muito mais capacidade de gerenciar o carro do que os homens, pois é de conhecimento de todos que mulheres tem mais capacidades para executar varias tarefas simultâneas.

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    1. Eu reconheço isso tambem Henrique.
      Dai me surgiu uma nova questão abordando essa capacidade, porque não vemos mulheres dominando o mundo dos games? Ou no caso especifico os simuladores da f1? Seria perfeito e menos físico nao é Julianne?

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      1. Games de corrida não são vistos como “brincadeira de menina”, não há estímulo. Teria que começar a mudar daí. E também já ouvi que as meninas que jogam não costumam entrar em competições porque muitas vezes são assediadas por meio de mensagens e não se sentem à vontade.

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