O pós-Verstappen

Lá em 2014…

“Na minha época, estava na moda pular do kart para a F-3, mas hoje eu vejo que foi um salto muito grande.” Sim, Sergio Sette Camara, do alto de seus 20 anos, já acredita que seu planejamento de carreira esteja ultrapassado. E tem seus motivos para pensar assim. Há três anos, vários pilotos tentaram o tal salto do kart direto para a F-3, movidos pelo desenvolvimento de carreira de Max Verstappen. Mas hoje o caminho já é outro.

Esse é um exemplo que mostra como é difícil apostar em um projeto de carreira vencedor para um piloto chegar – e bem – na F-1. Mas é isso que a FIA vem tentando organizar, fechando os buracos e os “desvios” da F-Renault, World Series e mais recentemente GP3, que acaba para o ano que vem.

Tudo começou, na verdade, com o próprio Verstappen: ele foi contratado pela Red Bull e, consequentemente, pela Toro Rosso, quando estava apenas em sua primeira temporada em carros de fórmula. Como abordou o kart sempre de maneira muito profissional, tirando o máximo desta importante escola, era considerado mais pronto do que os demais. Com 16 anos, era confirmado como piloto de F-1 e, aos 17, fazia sua estreia. Aos 18, já estava na Red Bull.

Mas ao mesmo tempo que Verstappen inspirou alguns contemporâneos a pular etapas, acendeu o sinal amarelo para a FIA, que logo tomou duas medidas que mudariam o planejamento de carreira a partir de 2015. Antes do caso Verstappen, um piloto que tivesse completado 300km em testes com um carro de F-1 poderia ter a superlicença. Depois dele, passaram a ser necessários pelo menos 40 pontos ao longo de três anos para poder competir na F-1 e ao menos 25 pontos ou terem feito seis corridas na F-2 para participar de sessões de treinos livres. É admitido que os times contratem pilotos de testes sem estes requisitos, mas eles só podem fazer testes de pneus e destinados a jovens. Além disso, foi estabelecida a idade mínima de 18 anos para estrear na F-1.

As mudanças estão sendo completadas com a organização de um caminho claro para os pilotos, indo do kart para as F-4 locais, passando para a F-3, F-2 e F-1. Ainda em 2019, a F-3 terá outros campeonatos além do “mundial”, que corre junto com a F-1, mas a tendência é isso desaparecer.

O efeito já é claro. O último piloto que estreou na F-1 sem ter passado pela F-2 foi Lance Stroll, com uma mãozinha da FIA, que alterou apenas durante o ano em que o canadense precisava, o total de pontos dados ao campeão da F-3 Europeia, que vinha sendo o trampolim usado especialmente pelo programa de jovens da Red Bull – numa maneira de escapar dos gastos maiores na F-2. Aliás, o fato do campeão da F-3 não garantir, apenas por isso, a superlicença, é um dos motivos que levaram o programa à situação atual: a Red Bull acabou gerando toda essa mudança quando garantiu a Verstappen, ao contrário do que a Mercedes tentava nas negociações com o holandês, uma vaga imediata na F-1, e hoje sofre com as consequências disso, enquanto os demais foram mais rápidos a entender tais mudanças.

Por conta de toda essa história, devemos voltar a uma certa normalidade em termos de idades dos estreantes na F-1, depois de Max com 17 e Stroll com 18. É até curioso ouvir de Esteban Ocon que ele sempre teve muitas dificuldades na carreira. E que chegou à F-1 mais tarde do que deveria, sendo que estreou com 19!

Ano que vem, teremos pelo menos três estreantes no grid, já com as “novas carreiras”. Lando Norris vai estrear com 19, mas é um piloto que teve ascensão meteórica no kart, tornando-se o campeão mundial de kart mais jovem da história, aos 14. Portanto, mesmo com a pouca idade, passou por F-Renault, F-3 Europeia e F-2.

George Russell chega aos 20 com ainda mais experiência: corre com carros de fórmula há cinco anos, passando por F-Renault, F-4, F-3 Europeia, GP3 e F-2. E o “avô” da turma é Antonio Giovinazzi, de 24 anos e uma carreira cheia de indas e vindas, desde 2012 correndo em carros de fórmula 1 também tendo ido para a DTM e Le Mans asiática.

Essa nova ordem tem tudo para ser positiva, contando que novos casos em que o dinheiro fale mais alto não voltem a acontecer. Dinheiro, aliás, que deve ser o próximo alvo da FIA, na tentativa de controlar os gastos na gestão de carreiras. Mas essa já é outra história.

5 comentários sobre “O pós-Verstappen

  1. Muito interessante o post Julianne!
    Curioso pensar que o Giovinazzi está estreando com a mesma idade de Ayrton Senna, algo impensável a três anos atrás como o próprio post deixa claro.
    Agora uma pergunta:
    Edsa regras não enfraquecem o mundial de Kart? Afinal, como o próprio post diz, George Russel corre em carros de fórmula desde os 15 anos então é possível que escapar do Kart para os carros de fórmula por volta dos 15 anos se torne a nova tendência (eu deveria ser empresário! Hahahaha)
    E outra pergunta, há perspectiva de melhora no programa da Red Bull? Afinal, pouco mais de 25% do grid é de pilotos do programa deles, mas já faz um bom tempo que nenhum nome é revelado pela Red Bull.
    Grande abraço a todos do Blog!

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    1. Sobre o mundial de kart, acho que não. Justamente o caso Verstappen indica que o melhor é fazer uma carreira sólida no kart, não importa se o piloto amadurecer mais rápido ou mais lentamente.
      E sobre o programa da Red Bull, eles vão ter que abrir o caixa e partir para a F2

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  2. Boa tarde Ju. Com certeza você viu o acidente da Sophia Flörsch no GP de Macau de F-3.
    Lembrei no ato da sua matéria sobre a dificuldade das mulheres em se ajustar aos monopostos inclusive citando a Tata Calderón.
    O que você pode nos falar desse triste ocorrido em Macau?

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