Sessão nostalgia e o fim prematuro de um talento

Quem não cresceu ouvindo – ou lembra – que a primeira vitória de Senna deveria ter sido no GP de Mônaco de 1984, sob forte chuva, quando o então estreante vinha muito mais rápido que o líder Alain Prost até que a prova foi dada como encerrada por Jacky Ickx? Pois, bem. Muita gente que foi mais afundo naquela história aposta que o vencedor daquela seria um jovem muito talentoso, uma zebra. Mas com um outro nome: Stefan Bellof, a bordo da Tyrrell, único carro com motor aspirado daquele grid, com cerca de 100 cavalos a menos. Isso porque Senna tinha avarias em sua Toleman e dificilmente chegaria ao final da prova, enquanto o alemão, que largara em último, vinha muito rápido em terceiro lugar.

Aos 26 anos, Bellof, assim como Senna, com 24, fazia apenas sua sexta corrida na F-1 naquela ocasião e carregava consigo a expectativa de ser o primeiro campeão alemão da história da categoria. Tal expectativa vinha de uma performance impressionante no Mundial de Endurance do ano anterior quando, sem experiência, foi campeão pela Porsche, ao lado do pentacampeão de Le Mans, Derek Bell.

O estilo brincalhão fora das pistas e de muitos riscos assumidos dentro dela fizeram com que Bellof gerasse também outra expectativa: o surgimento de um novo Villeneuve, dois anos após sua morte. E há quem diga que uma transferência para a Ferrari era uma questão de tempo, pois o alemão, em pouco tempo, caiu nas graças de Enzo Ferrari.

Na F-1, contudo, Bellof não teve tempo para colecionar resultados tão expressivos. Foram 20 largadas, com destaque para o quarto lugar no GP de Detroit de 1985, uma das duas provas em que pontuou – a outra foi o sexto posto do GP de Portugal do mesmo ano, assim como em Mônaco, debaixo de muita chuva.

Mas o feito que ficou para a história do automobilismo foi um recorde que jamais seria quebrado. Andando com o Porsche 956 nos 1000km de Nurburgring de 1985, disputado no traçado de 22.180m, Bellof fez sua volta de qualificação em 6min11s130, sendo mais de cinco segundos mais veloz que seu companheiro, com o mesmo carro. E quem era esse piloto? Um tal de Jacky Ickx, aquele mesmo que decidiu encerrar o GP de Mônaco de 1984 antes do fim.

Mas foi em outro circuito clássico, em Spa-Francorchamps, também no endurance e contra o mesmo Ickx que a trajetória de Bellof seria interrompida de forma drástica, quando o alemão de apenas 27 anos tentaria uma manobra considerada suicida na época: uma ultrapassagem por fora em uma Eau Rouge que ainda não tinha área de escape. Sua roda dianteira direita bateu na traseira esquerda do belga e ambos os carros foram parar no muro. O de Bellof, de forma frontal, matando-o quase na hora, ainda no hospital da pista. O acidente acabou marcando uma era, pois fez com que as equipes de F-1 passassem a proibir seus pilotos de participarem de outros eventos.

Não é à toa que Bellof ficou com a fama de um grande talento, sendo citado até como Michael Schumacher como sua grande referência no início de carreira, mas sem qualquer tipo de filtro. Não é à toa, também, que ele ainda é lembrado, mais de 30 anos depois de sua morte, como um dos maiores talentos da história que não tiveram tempo de serem campeões do mundo de F-1.

5 comentários sobre “Sessão nostalgia e o fim prematuro de um talento

  1. Que lembrança Julianne, que lembrança!
    Nasci um tanto depois de Bellof passar pela F1, mas pelo o que vi nos videos do Youtube, ele realmente era um grande talento. Uma pena que em uma época em que se perdia muitos pilotos na pista.
    Grande abraço a todos do Blog!

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  2. Alguém saberia dizer porque o Bellof, terceiro colocado em Mônaco 84, jamais aparece nas imagens do “pódio” naquela corrida? Vemos apenas Prost e um Senna carrancudo. Tudo bem que a Tyrrel foi considerada irregular no peso e desclassificada, mais isso foi mais para o final da temporada.

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  3. Uma outra Era do esporte a motor.

    Tenho muito respeito pelos pilotos atuais.
    Até porque hoje se atinge velocidades muito maiores em todos sentidos.

    Mas essa época de caras como o Bellof a coisa era muito mais bruta.
    Radical.
    Muito torque, entrega não linear de potência, quebras.
    Esses caras eram verdadeiros gladiadores.

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  4. Maravilhosa história Julianne, acompanhava com interesse o alemãozinho talentoso que seria sem dúvida campeão.
    Dou algumas sugestões para pesquisa: o azarado francês Chris Amon talvez o maior da história, o atrapalhado italiano Vittorio Brambilla, o rápido Patrick Tambay, o galã francês François Cevert, o voador Jean Pierre Beltoise numa BRM indefectível, um suiço que tinha estilo parecido com o incrível Mansell, rápido com a sua vermelha Ferrari, claro que falo de Clay Regazzoni, companheiro eterno do ícone e ídolo tri-campeão Nikki Lauda.
    Espero que nos conte algumas dessas histórias entre outras maravilhosas desse mundo espetacular e mágico da F1.
    Beijão do seu fã n°1.
    Arlindo Almeida Nunes

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  5. Ju, a Porsche aproveito que o seu programa LMP1 no WEC foi encerrado e preparou o 919 Hybrid para bater recordes mundo afora. Em Nurburgring Nordschleife ele colocou quase um minuto de vantagem sobre esse recorde histórico do Bellof. Dito isso, acho que é seguro afirmar que o recorde do alemão (e da Porsche) em competições oficiais jamais será batido, pois o traçado norte de Nurburgring provavelmente nunca mais receberá uma etapa do WEC ou de outra categoria com desempenho elevado. Questões de segurança, claro, mas fica uma ponta de lamento por não podermos assistir uma briga de carros velozes como os LMP1 (ou os futuros Hypercars) por lá

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