Estratégia do GP de Abu Dhabi e as duas moedas de uma mesma aposta

Foi o VSC causado por Raikkonen que fez Leclerc abandonar a briga entre os grandes

Todas as corridas têm um vencedor, claro, mas muitas vezes não existe uma estratégia vencedora. E tivemos um exemplo claro disso em Abu Dhabi, onde Lewis Hamilton venceu mesmo parando na sétima volta, usando um período de Safety Car virtual, e pilotos como Charles Leclerc, que fizeram a mesma manobra, saíram perdendo.

A tática, em si, não era ruim: o pneu supermacio, com o qual Hamilton e Leclerc teriam que terminar a corrida, tinha um nível de degradação baixo (de 0s08 por volta), enquanto o hipermacio, por exemplo, perdia 0s57 por volta, e parar sob VSC economiza cerca de 10s na corrida em geral. A diferença entre o piloto da Mercedes e o da Sauber é que o primeiro não pegou carros que o fariam perder estes 10s economizados, e o segundo sim.

Leclerc tinha tudo para igualar seu melhor resultado na carreira. Ele vinha lutando com Ricciardo quando o acidente de Hulkenberg neutralizou a corrida e, se tivesse feito uma estratégia mais conservadora, apenas respondendo às tentativas de undercut de quem vinha atrás, teria chegado em sexto. O problema é que ele era o “líder” do pelotão intermediário quando o VSC começou e, se não parasse, correria o risco de ver todos os outros rivais o fazerem, e economizarem os tais 10s.

Foi o mesmo que Hamilton fez, mas a diferença é que o inglês voltou em quinto, sem perder tempo com carros que parariam logo depois ou estavam longe demais para atrapalhar, como Ricciardo, enquanto Leclerc voltou em 14º, com oito carros a sua frente andando em um ritmo pior. No final das contas, a prova acabou tendo vários abandonos e ele chegou em sétimo, mas não conseguia esconder sua frustração. O mesmo aconteceu com o terceiro piloto que parou sob VSC, Romain Grosjean, que era sétimo naquele momento e terminou em nono.

Lá na frente, há quem possa questionar por que só Hamilton entrou no VSC. O motivo é simples: só ele tinha os 11s necessários para entrar e voltar na frente dos carros mais lentos, à exceção, claro, de Leclerc. Mas mesmo para Bottas, que vinha em segundo, parar naquele momento seria correr o risco de voltar atrás de Ocon, Perez e Sainz.

Com a Mercedes dando a primeira cartada, restou aos demais buscar um caminho totalmente inverso: estender ao máximo o primeiro stint para tentar usar a maior aderência para pressionar no final. No entanto, o rendimento do supermacio foi consistente demais para que isso tivesse algum efeito decisivo, e mesmo a tentativa mais ousada de Daniel Ricciardo – cuja briga era pelo pódio, e não com Hamilton – de parar apenas na volta 33, com 22 para o final, não deu grandes frutos.

Antes disso, percebendo que ficar na pista e esperar que os supermacios de Hamilton perdessem rendimento seria otimista demais, a Ferrari tentou um undercut bem improvável em Bottas, quando a diferença entre os dois era de pouco mais de 2s5 e o gap para o “líder do resto” Ocon era bem apertado para fazer a parada e voltar na frente da Force India. Resultado? Um pitstop mais lento que o normal por um problema com uma das pistolas e Vettel não só não consegue o undercut, como também perde tempo atrás do francês.

A sorte do alemão foi que Bottas teve problemas com os freios na parte final da corrida, passou a travar as rodas, e permitiu a ultrapassagem não apenas dele, como também das duas Red Bull que, em uma tarde de pneus longa-vida, acabou não conseguindo usar o fato de seu carro ser mais leve com a borracha e terminou com o terceiro e quarto lugares.

No final das contas, tivemos um pódio com três pilotos de equipes diferentes, para nos lembrar que a temporada foi mais competitiva do que os impressionantes 88 pontos de vantagem de Hamilton – que se tornou o primeiro a superar os 400 pontos – na ponta fariam crer.

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9 Comments

  1. Oi Ju, muito legal a análise! Obrigado! Não tinha me atentado pelo fato da janela de 11s em relação aos demais pilotos mais lentos…

    Sobre a questão da competitividade do campeonato, com certeza foi a mais competitiva (tirando a luta entre Rosberg e Hamilton quando Rosberg foi campeão), mas considerando a performance da Mercedes no terço final da temporada, não tenho certeza se a Ferrari e o Vettel teriam sidos campeões se fossem desconsiderados os erros. Por alguma acaso você já viu alguma simulação caso eles não tivessem errado? Porque além da perda natural dos pontos, Hamilton e Mercedes também pontuaram mais em função dos erros…

    Thanks!

    1. É impossível fazer essa simulação, já que eles tiraram o pé consideravelmente em termos de desenvolvimento, focando em 2019.

  2. Queria assistir transmissões com essa qualidade de analise.

    Muito superior do que temos de oferta por ai.

    Obrigado pelo texto Ju.

  3. Bela análise, na hora do VSC fiquei indignado da Sauber chamar Leclerc e colocá-lo no fundo do pelotão, acabou com uma corrida que parecia promissora.

    Fazendo um rescaldo do campeonato, na minha opinião claro; Achei que foi um campeonato perdido por Vettel e maravilhosamente vencido por Hamilton.
    Melhor piloto venceu o melhor carro!
    Se tivéssemos Alonso sentado na Ferrari tenho a impressão que o campeonato seria rosso.
    E olha que eu sempre fui fã de Vettel, mas essa temporada me deixou com uma interrogação sobre o alemão, maior que a de 2014.
    Mas Hamilton fez uma temporada perfeita , não cometeu um erro sequer, e mesmo quando não esteve bem venceu, vide Baku.
    Penso que quando não se tem o melhor equipamento a diferença de categoria entre os pilotos da mesma equipe fica mais evidente, não acho Bottas um piloto ruim longe disso , ele é um piloto ok , mas neste ano pareceu um amador , graças avassaladora habilidade do Britânico.
    Acredito que quando compararmos a temporada Mercedes x Ferrari temos que olhar mais para Bottas X Raikkonen (pilotos equivalentes) que Hamilton x Vettel
    Outro dado que mostra como o carro da Ferrari era melhor , foi a temporada de Räikkönen e seu vários pódios, temporada muito melhor que as outras que ele vinha fazendo é uma diferença muito menor entre ele e Vettel, que evidencia duas coisas Ferrari bem , Vettel mal!

    Minha esperança para 2019 está toda em Leclerc, ele vai dar trabalho!

    Bom e minha opinião que discordar , que me malhe aí nos comentários!kkkk
    Nessa abstinência que começa agora quanto mais comentários melhor.

    1. Hermes Leandro disse:

      e digo mais amigo , Bottas sempre demonstrou um pouco de superioridade em relaçao a Massa ,coisa que Kimi nunca fez , ele e Massa tinham ritmos parecidos ate com uma pequena superioridade do brasileiro nas classificaçoes

  4. Thiago Brasil disse:

    A temporada do Lewis foi fabulosa.

    Em termos de desempenho individual destacado, os mais impressionantes de me recordo são os de Schumacher – em vários anos – e o de Alonso em 2012 (com 3º carro em desempenho do grid, merecia o título). O campeonato do Lewis em 2018 foi desses.

    E também acho que Alonso teria sido campeão com a Ferrari nesse ano. Eles têm razão em dizer que foi o melhor carro produzido na década, certamente o melhor desde o de 2008. Apesar disso, acredito que ele teria disputado pra valer em 2017 e quiçá em 2015. Mas a draga de 2014 certamente não passou a mínima confiança de que a equipe reagiria nos anos seguintes, fora o troca de comando interna e tal.

    1. Perfeito!

      Lembro de duas temporadas que um piloto em um carro não dominante me impressionou.
      Senna 1993
      Alonso 2012 ( um crime o título não ficar com ele! Ele deve querer matar o Grosjean até hoje)

      As o Schumacher foram igualmente impressionantes ,mas em um carro totalmente dominante

      A de Hamilton foi perfeita, o carro não era dominante , mas estava muito próximo da Ferrari, mas ele destruiu mentalmente o Vettel.
      O único ponto negativo foi ele não ter devolvido à posição para o Bottas em Sochi, ele não precisava disso.

  5. Ju,

    O que dá para perceber é que o VSC implementa uma inverdade na corrida, desfazendo o que havia sido conquistado por méritos na pista ou na classificação baseado na posição de sorte em que o piloto se encontra no momento da neutralização, F1 não tem que ser por sorte, tem que ser por mérito, não acha que devia ser adotado o pit fechado durante todos os VSC?

    1. O VSC apimenta mais a corrida, só isso.

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