Bastidores da cobertura e os truques dos campeões

Uma introdução para quem não está acostumado com o termo: cercadinho em português, curralito para os espanhóis, pen ou scrum para os ingleses é a área por onde os pilotos passam logo depois de saírem do carro aos sábados e domingos – a não ser os do top 3, que vão primeiro à coletiva de imprensa “normal” – e também às quintas-feiras. Lá, TVs e rádios (ou seja, quem paga os direitos de transmissão) têm acesso privilegiado aos pilotos. Privilegiado porque é em primeira mão, pega aquela reação mais crua, e também porque muitas vezes é possível ficar sozinho/a com o piloto, numa exclusiva que seria muito mais penosa de conseguir pelos meios oficiais, ainda que seja mais curta.

Parece um paraíso mas está longe de ser um mar de rosas. Vários interesses definem quem tem mais espaço, quem tem preferência, quem sempre vai conseguir fazer 3, 4, 5 perguntas.

Mas também é um espaço em que se aprende muito sobre o lado humano da Fórmula 1. E sinto que minha percepção sobre os pilotos está muito mais apurada depois de dois anos chuva e sol no cercadinho, desde que comecei a trabalhar na Rádio Bandeirantes.

Notei, por exemplo, como Vettel tenta interagir com os repórteres principalmente quando não está afim de responder perguntas. Chega fazendo graça, com um papinho de elevador, e muitas vezes insiste na brincadeira a não deixa o repórter fazer a pergunta. É uma artimanha muito esperta, pois ele sabe que são pelo menos 20 TVs e rádios e ele tem 30min para terminar o cercadinho.

No México, ele perguntou à Lee McKenzie, do Channel 4: “É sua última corrida?”. Ao ouvir que ela iria a Abu Dhabi também, respondeu. “Tá vendo? Eu lembrei! Mas você me disse que era a última aqui, eu tenho certeza.” E só sossegou quando Lee explicou que os produtores tinham chamado-a a Abu Dhabi e blá, blá, blá. Só aí já ‘ganhou’ uns três minutos.

Falando em Lee, lembrei do cercadinho da Hungria, quando o sol batia forte nos olhos da repórter e Hamilton comentou. “Nossa, seus olhos estão lindos com essa luz!”. Ela me pareceu desconfortável com o comentário, fez a entrevista e depois me perguntou. “Tem alguma coisa na minha cara? Para ele falar isso fiquei achando que tinha maquiagem borrada ou algo do tipo, porque ele me odeia!” E eram os olhos verdes mesmo que estavam iluminados. Disse a ela que Lewis tinha razão.

Porque o cercadinho tem dessas mesmo. Você fala com o piloto ou muito cansado depois da corrida e da coletiva de imprensa, ou ainda com os nervos à flor da pele porque acabou de sair do carro. Ele está cara a cara com você, que tem segundos para encaixar uma boa pergunta sem ter tido tempo de processar o que acabou de acontecer na classificação ou na corrida, e as coisas podem sair muito bem, ou muito mal. E você vai ficar com aquela impressão de que ele não vai muito com a sua cara.

No México, fui fazer uma pergunta para o vencedor Max e fiz mil confusões com nomes de pilotos e até de qual era a corrida seguinte – também conhecida como o GP do Brasil :). Ele ficou me olhando com aquela cara de “o que essa nega está fazendo aqui?” e respondeu com uma ou duas frases. Ok, ele sempre olha com essa cara para todo mundo e não costuma desenvolver muito, parece sempre na defensiva, mas sei que vai demorar um tempo para eu voltar a ganhar crédito com Max.

Com outros, ninguém nem faz muita questão. Hulkenberg é famoso por não ser dos mais atenciosos nas entrevistas – ainda que eu particularmente não tenha queixas. E é claro que, quando a corrida é ruim, a não ser que o piloto tenha outro em quem jogar a culpa, pode esquecer (a não ser Kimi Raikkonen, que dava entrevista até de lado, morrendo de vontade de ir embora, até o GP dos EUA deste ano. Daí em diante, não parava mais de falar!).

Nesse quesito (de fazer birra quando as coisas não vão bem, não de não parar de falar), quem melhorou muito foi Hamilton. Até pouco tempo atrás, após um treino ou corrida ruim, ele era muito difícil de entrevistar, monossilábico. Agora não me lembro da última vez que ele “deu trabalho”. Ele responde para impressionar, olhando no olho de cada um dos repórteres. Às vezes me dá a impressão de que está nos usando para treinar a carreira de ator!

Na nova geração, de Leclerc, Gasly, Ocon (e não a de Stroll, o tédio em pessoa), vejo a atenção no olhar de quem quer dar a melhor resposta possível. Será que é só porque eles ainda não chegaram lá e já já vão começar com seus truques de cercadinho?

8 comentários sobre “Bastidores da cobertura e os truques dos campeões

  1. Ler essa matéria me fez sorrir e me alegrar por ver alguém que se encontrou na profissão e a exerce de maneira bastante firme, profissional e brilhante. Te desejo uma temporada de F1 em 2019 muito melhor do que você possa imaginar e continue nos trazendo esses bastidores da F1 ao qual nenhum outro repórter nos oferece, apenas você, Ju.

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  2. Adoro essas colunas trazendo mais de perto os pilotos e como tudo funciona Julianne, são as melhores e sempre fico cheio de curiosidades!
    Quem é o piloto “mais falante”?
    Quais as táticas de outros pilotos pra dar um “dibre” nos repórteres?
    Quem é o piloto mais engraçado?
    Pq o Stroll é o tédio em pessoa?
    Qual o piloto mais legal de entrevistar independente do dia?
    Teria muitas outras ainda, mas essa por hora bastam.
    Hahaha
    Grande abraço a todos do blog!

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  3. É quase redundante escrever isto, mas este blog e a sua autora são mesmo muito bons no que fazem.
    É sempre um prazer ler, perceber e pensar no que se leu por aqui.
    Mesmo muito, muito acima da média.
    Pela possibilidade que oferece de ler e acompanhar, deixo-lhe um muito obrigado do fundo do coração.
    Votos de tudo de bom para si.

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  4. Seu texto e percepção são excelentes. Desejo muito sucesso e longa carreira nos brindando com informações preciosas e certeiras sobre o apaixonante mundo da f1.

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