700 dias de Liberty e a F1 segue sem futuro após 2020

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Sábado de manhã em Abu Dhabi. Os comissários da FIA tinham sido chamados, dois dias antes, a julgar um protesto da Haas contra a Force India. Por conta do processo de falência pelo qual o time passou em julho, os norte-americanos julgavam que o novo time formado a partir da compra por parte de Lawrence Stroll não poderia usar propriedade intelectual do antigo dono, ou seja, todo o conhecimento aplicado na construção do carro em si.

A FIA não faz parte dos contratos firmados entre as equipes e a detentora dos direitos comerciais que regem suas obrigações enquanto construtores. Mas é quem regula o esporte. No final das contas, chegou-se à conclusão que tudo era legal – para complicar mais a história, a FIA tinha feito, sim, parte das negociações para a troca de bastão na Force India e estava enfiada até o pescoço na solução cheia de acordos para lá e para cá (que inclusive precisaram do aval das equipes) para manter o time no grid.

Pois bem. As regras da F-1 são ditadas por três contratos principais. O mais importante é Acordo dos 100 Anos, que garante o controle dividido entre FOM e FIA, sendo que a federação não pode entrar nas questões comerciais por determinação da União Europeia.

E o Pacto da Concórdia? O único acordo da Concórdia atualmente vigente é entre a FOM e a FIA e regulamenta basicamente os papéis de ambos. Desde 2013, não existe um Pacto da Concórdia entre a FOM e as equipes, uma vez que a solução que Bernie Ecclestone encontrou para resolver vários impasses na época foi fazer contratos bilaterais com cada time, puxando o acordo feito com um para convencer o outro a assinar. Todos estes contratos, a não ser com a Renault – que é mais extenso – vão até o final de 2020.

Em meio a tudo isso, há várias queixas na parte comercial (promotores dos GPs tentando rever contratos impraticáveis e o foco tardio na internet, preparando a categoria para a queda que já se observa no consumo de TVs e a preferência ao OTT) e na parte esportiva (queda nas ultrapassagens, diferença gritante entre o top 3 e o resto, que tipo de motor usar).

Dá para entender a confusão em que a Liberty Media se meteu?

Ainda que a situação seja complexa, a lentidão em encontrar soluções para problemas que estão, na verdade, interligados já incomoda as equipes. Ora, se a ideia central é distribuir melhor o dinheiro ao mesmo tempo em que as regras garantem uma diminuição de custos a ponto do esporte funcionar com um teto de gastos, o pior que pode acontecer é essas novas regras (especialmente incluindo motores) atrasarem tanto. Já estamos a cerca de 14 meses até que as equipes comecem a executar os projetos de 2021 e nada de regras.

Nesse quesito, a maior insatisfação das equipes é com Ross Brawn, que não vem fazendo seu papel de ponte técnica entre os interesses dos times e as decisões acerca do regulamento. Era esperado pulso mais firme por parte do ex-chefe de equipe, ainda que ele esteja no meio de outra encruzilhada: quem define o regulamento não é a FOM, para quem ele trabalha, mas sim a FIA… Se as novas regras precisam estar alinhadas com a distribuição de lucros para que se corte gastos e se tenha mais equilíbrio entre as equipes, as duas entidades precisam se entender, e se entender com as equipes grandes também. Bom, boa sorte!

Não que do lado comercial os problemas sejam mais simples. Por um lado a Liberty vem gastando muito mais que Ecclestone, aumentando consideravelmente a estrutura da FOM, especialmente do lado digital, negligenciado pelo antigo dono. Esse investimento visa lucrar lá na frente com diversos produtos on demand, tirando a F-1 da TV. O problema é que muita gente ainda não enxerga isso como o futuro, embora os números gerais de audiência venham caindo no mundo.

Por outro lado, a partir do momento em que os norte-americanos acenaram para a entrada de Miami sem o pagamento das taxas milionárias da era Ecclestone, é claro que os demais promotores quiseram renegociar seus contratos, ameaçando o outro – além dos contratos de TV – grande pilar de receita da F-1. Então como a categoria pode pensar no orçamento que estará disponível se há toda essa incerteza em relação à receita mesmo a médio prazo?

É nesse caldeirão que a Liberty finaliza 700 dias no comando da F-1 no final deste mês, com a missão de virar o esporte de ponta-cabeça nos próximos 700.

3 comentários Adicione o seu

  1. Charles disse:

    Ju,
    Seu comentário é muito apropriado, todo mundo vê que a F1 caminha para um buraco negro. Equipes que atualmente andam disparadas na frente não aceitam alterar a essência do regulamento que permite botar na pista um carro que desempenhe até 3 segundos melhor que os outros (não há um mecanismos que impeça a discrepância, mas sem tirar a liberdade construtiva de peças, projeto e aerodinâmica), regulamento errado que faz com que pilotos não acelerem a fundo o tempo todo por pura economia de componentes como pneus e combustível, asa móvel que traz ultrapassagens artificiais, pit stops também forçados que decidem as corridas impedindo que as coisas sejam decididas na pista, treinos classificatórios ruins, cobrança de taxas imorais das pistas que sediam as corridas – coisa que a curto prazo não se sustentará mais -,divisão toda errada e distorcida do dinheiro das premiações, enfim, do jeito que está o Liberty e a F1 não levarão essa brincadeira muito longe.

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  2. Nato Velloso disse:

    O titio Bernie é uma figura polêmica, mas uma coisa é certa, havia certa coerência em suas atitudes. Ele sempre disse que o seu papel era fazer a F1 dar lucro para os seus empregadores e que na F1 não havia espaço para democracia devido aos diversos conflitos de interesses das equipes.
    A Liberty está descobrindo como o é complicado fazer a F1 dar o tal lucro e também como a democracia não funciona tão bem nesse meio.
    Fosse como fosse, está ficando provado que o jeito polêmico e autoritário do Bernie era o melhor pra tocar a F1.
    Uma observação, está difícil a Liberty dar uma bola dentro anunciando GPs que não saíram do papel, reduzindo os lucros das equipes e querendo aumentar o calendário, uma coisa contra a qual todos que trabalham na F1 são contra.
    Sobre as ultrapassagens, vou colocar algo que já escrevi pelo blog, é inconcebível que ninguém perceba que a ultrapassagem é uma consequência da disputa por posição de dois carros. Logo o que deve ser estudado e proporcionado aos pilotos, é a disputa pela posição. Por isso a F1 era emocionante nos anos 80 e 90 havia disputa de posições, pilotos freando juntos dentro da curva, etc…
    Grande análise (como sempre) Julianne!
    Grande abraço a todos do Blog!

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  3. Felipe Fugazi disse:

    Sou muito fã de história e aqui eu faço uma comparação entre a F-1 e um dos maiores impérios da humanidade, o império romano.

    Porque Roma ruiu?

    Porque entre outras coisas, se tornou grande demais.
    E inadministrável.
    Ai ele rachou nos pedaços que hoje nós conhecemos.

    Com a F-1e seus jogos de interesse, sua politica a coisa pode estar indo no mesmo caminho.
    Ainda é a maior e mais avançada.

    Mas fica sempre a impressão de que a coisa não deslancha.
    E que poderia ser melhor.

    Curtido por 1 pessoa

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