Kubica vai ou racha?

Se ele não tivesse disputado a Ronda de Andorra teria ido para a Ferrari, equipe com a qual tinha um pré-contrato assinado, e seria companheiro de seu amigo Fernando Alonso. Será que eles sairiam da Ferrari amigos? O que teria sido da passagem do espanhol pela Scuderia com Kubica a seu lado? Seria ele o campeão que a Scuderia não teve na última década? Nunca saberemos. Um guard rail partiu a frente do carro do polonês ao meio, quase decepou seu braço direito, e o resto é história.

História que ganhou capítulos completamente inesperados nos últimos 18 meses. Demorou mais de seis anos para Kubica se sentir apto a pilotar um F-1, ainda que ele tenha tido essa chance anos atrás. Após as inúmeras cirurgias, ele voltou a correr primeiro de rali, decisão questionada por muitos: `afinal, o que ele quer, se matar?` Dentro da cabeça dura do polonês, era apenas um teste. “Rali é a disciplina mais completa que existe. Conseguir voltar ao rali mostrou para mim que eu podia correr de qualquer coisa.”

Mas seria o suficiente para voltar em alto nível na F-1? Primeiro Kubica teria que reaprender a pilotar, como um cego que tem os demais sentidos muito mais apurados. O polonês sempre foi agressivo nas manobras mas ao mesmo tempo suave na tocada, muito sensível. É quase como se as lesões no braço tivessem acontecido com o cara certo: ele nunca precisou de todos os dedos grudados no volante para ser rápido.

Convencido de que estava tecnicamente pronto, ele se preparou fisicamente e conseguiu seu primeiro teste com os amigos da Renault, e depois convenceu a Williams a lhe dar uma chance. Foi bem com carros mais antigos, mas escorregou quando andou com a geração atual, saindo do teste decisivo de Abu Dhabi no final do ano passado culpando os pneus Pirelli por não ter conseguido andar o que poderia.

Mais lento e sem dinheiro, Kubica teve de se contentar com a função de piloto de testes, o que talvez tenha sido a melhor coisa que poderia ter acontecido. Afinal, nos testes de Barcelona e depois nos treinos livres no mesmo circuito ele já era consideravelmente mais rápido que Stroll, já tinha entendido mais do funcionamento do carro e dos pneus e, mais importante, começou a convencer a Williams de que era, de fato, uma opção, até porque, além da pilotagem em si, Kubica traz uma competitividade quase irracional da qual Claire Williams avaliou que a equipe estava precisando – mesmo que isso signifique algumas reuniões bastante tensas e cheias de cobrança nos próximos meses… “Ele já me abordou às 2h da manhã num aeroporto para falar de ideias para melhorar a equipe”, revelou a chefe.

Do lado dele, precisou se certificar que a Williams não usaria seu braço como muleta para resultados ruins – o mesmo ele não pode garantir do próprio mundo da F-1 no primeiro acidente em que se envolver, mesmo que não tenha culpa alguma, e ele sabe bem disso.

Ouvindo Kubica falar em público da confiança de que pode voltar em alto nível, até parece que foi uma decisão fácil. Mas o fato é que ele estava dividido até pouco antes de assinar o contrato. Afinal, ele é muito forte no simulador – quando andou na Red Bull, foi mais rápido que os titulares, e o mesmo acontecia na Williams – e a Ferrari foi, sim, uma opção considerada seriamente por ele. Até mesmo amigos próximos o aconselharam a não arriscar tornar-se titular. Mas ele não teria enfrentado tudo o que enfrentou em vão. Robert não é esse tipo de pessoa.

Há quem acha que ele, andando na lanterna do grid, só pode fazer mal a sua reputação. Mas há quem veja o próprio retorno em si como uma vitória maior do que ele jamais conseguiria caso tivesse desistido daquele rali.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Alexandre disse:

    Ótima análise, como sempre. Gosto muito Kubica e você tem sempre trazido muitas informações dele. Acho que ele vai andar muito bem, vai ficar limitado pelo carro. E vai ter um companheiro de equipe rápido. Então veremos qual Kubica está de volta.
    Desejo um ótimo Natal a vou e aos leitores deste blog.

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  2. Nato Velloso disse:

    Grande texto como sempre Julianne!
    Alonso e Kubica sem dúvidas seria a dupla mais forte do grid, e provavelmente com muita dor de cabeça para o então chefe Montezemolo. Pena que nunc saberemos o final dessa história.
    O retorno de Kubica é realmente arriscado para ele, se andar mais que o Russel estará “apenas” cumprindo com sua obrigação, se andar menos será vergonhoso para a sua trajetória. É um mato sem cachorro como se diz.
    O fato dele andar mais que Stroll e Sirotkin diz muito sobre os dois, e como a política da Williams de priorizar grana dá maus resultados na pista. Maldonado deveria ter sido uma lição, mas não foi o caso, tomara que essa política mude daqui pra frente.
    “Nunca precisou dos dedos colados no volante para ser rápido”
    Poderia explanar melhor essa frase Julianne? Uma tocada suave necessita de menos dedos no volante, seria isso?
    Grande abraço a todos do Blog!

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  3. Nelson Eugenio da Silva disse:

    Excelente texto!! Torço muito por ele e é bom ter acesso a visão de quem pode acompanhar um pouco mais de perto os detalhes desse retorno, ao invés de apenas materias buscando cliques. Parabéns pela matéria, Juliana! E um excelente Natal para você e para quem vc se importa!

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