Drops do GP da Austrália: de Charlie ao curry

Você pode gravar rapidinho aqui dando seu palpite? Diz um membro da organização para uma torcedora na entrada do circuito de Albert Park no domingo. “De qual, V8 ou F1?” A pergunta dá bem a dimensão de como Melbourne é uma cidade ligada aos esportes, e de por que o circuito enche cedo para ver uma das corridas de suporte. Até mesmo um já lendário repórter de rádio local costuma ir embora logo depois da corrida de V8 Sports.

 

Lendário pelos piores motivos, diga-se de passagem. Ele fala alto, diz várias abobrinhas e, entra ano, sai ano, não aprende os nomes dos pilotos. A não ser de Ricciardo, que tem de conviver com uma expectativa completamente irreal quando chega a Melbourne.

 

Tanto, que a decepção com a Renault foi desproporcional. No elevador, antes mesmo da corrida, estava ao lado de três torcedores. Dois com a camiseta de Hamilton, e um todo de amarelo. “Vocês estão parecendo idiotas vestidos iguais”, disse o torcedor de Daniel. “E você, então, com esse amarelo ridículo que não vai dar em nada.” É, o cara teve que abaixar a cabeça.

Aliás, misturando os assuntos rádio e Ricciardo, ele tentava responder à TV holandesa após o abandono no domingo, enquanto a colega da BBC estava ao vivo, atrás dele. Ela falava tão alto que ele não conseguia focar na própria resposta e mandou um cala a boca que ela só percebeu quando a TV publicou o vídeo nas mídias sociais. Todo mundo achou graça porque era Daniel, talvez a reação não fosse a mesma com outro piloto. Mas de qualquer jeito ela sabe bem que ali não é lugar de entrar ao vivo.

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Voltando um pouco no tempo, a quinta-feira começou com um clima total de choque no paddock. Cheguei, desejei bom dia ao colega do The Guardian, e ele disse secamente. “Charlie morreu”. Achei que fosse força de expressão, e ele disse “veja seu telefone”. E lá estava a mensagem.

Dizem que ninguém é insubstituível, mas Charlie é daquelas figuras cujo papel tinha se expandido tanto ao longo dos anos que ele só pode dar lugar a um mais de uma pessoa. Como Bernie, mas de um jeito mais benéfico. Ele não era só o cara da bandeirada, ou da sala dos comissários, ou aquele para quem os pilotos choravam quando levavam punição. Era basicamente o primeiro a chegar e o último a sair, aquele que vistoriava potenciais novas pistas pelo mundo, o elo de ligação entre os chefões e os pilotos, um cara sem educação formal para um cargo tão grande até porque provavelmente não há nada que possa formar alguém para tanto a não ser altas doses de diplomacia e amor ao automobilismo.

(Aliás, a reunião de pilotos, que era comandada por Charlie às sextas-feiras, teve menos de um minuto na Austrália, para vocês terem uma ideia da falta de clima sem ele)

A FIA não tem vivido o melhor dos momentos. A maneira obsoleta como ela é organizada e o excesso de politicagem têm causado tensões internas e tem gente abandonando o barco. A organização sai de Melbourne sem um chefe de comunicação e sem uma solução a longo prazo para a direção de provas. Steve Nielsen, ex-Williams, foi chamado às pressas para ajudar na sala dos comissários e provavelmente a FIA precisa de alguém com esse tipo de habilidade: um ex-team manager, que saiba o regulamento de cor.

 

Na verdade, havia um plano de sucessão, tanto para Whiting, quanto para Jo Bauer, delegado técnico. Seriam Laurent Mekies, que foi para a Ferrari, e Marcin Budkowski, que está na Renault. Ambos ganhando muito mais do que a FIA poderia oferecer.

 

Entre os pilotos, havia alguns mal humorados ao longo do final de semana. Na quarta, no lançamento oficial no centro de Melbourne, Hamilton claramente estava só de corpo presente. Até mandou um “obviamente você está muito mais empolgada do que eu” para a apresentadora, pouco elegante. E, na quinta-feira, abandonou a zona de entrevistas no meio, sem dar explicações, e sem falar com parte da mídia inglesa.

 

Depois que subiu no carro, contudo, o humor do inglês melhorou. E foi a vez de Robert Kubica começar a distribuir algumas “patadas” na imprensa, que vocês devem ver na segunda temporada do Netflix. Isso porque o polonês estava o tempo todo usando um microfone – que ele às vezes desligava, fingindo que havia algum problema, quando falava com pessoas próximas. Aposto que segui-lo será interessante neste ano difícil para a Williams, pois é um caráter único no paddock.

 

Enquanto uns e outros estavam estressados ao longo do final de semana, contudo, um piloto estava em sua melhor forma: Kimi Raikkonen. Nas entrevistas à TV após a classificação, o colega argentino perguntou sobre o treino e ele falou por mais ou menos um minuto. Tanto, que Juan ficou sem reação e falou “obrigado, acho que você já explicou tudo”. Kim riu e disse “agora mande a gravação para todos os outros”.

 

Por fim, fiquei sabendo de um fato curioso: os mecânicos da Mercedes inventaram uma relação entre o quão fortes eles estão em um final de semana e o quão bom é o curry que eles encontram para comer. Na Austrália, eles têm várias opções, pois há imigração indiana é forte, e sempre são rápidos. No México, por exemplo, é mais difícil achar, e o resultado disso é “claramente” visto nas corridas! A má notícia para os rivais, contudo, é que eles já estão com esse jogo há tanto tempo que encontraram currys muito bons na grande maioria das provas…

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1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Seus textos são sempre muito bons, mas este do Charlie é emocionante! Eu o ligava muito ao Bernie e então fazia ideia de que fosse um ranzinza tb. Por tudo o que li sobre, eu estava equivocado. Obrigado querida pelo seu jeito simples de transmitir muito em tudo…

    Curtir

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