Estratégia do GP do Bahrein e as ordens de equipe da Ferrari

Muita gente entorta o nariz para ordens de equipe como se elas fossem pura e simplesmente uma forma de beneficiar um piloto e sacanear o outro, como se fossem coisa de equipe que tem primeiro e segundo pilotos definidos. Então a análise da estratégia do GP do Bahrein é um bom momento para observar como a Ferrari tem jogado o jogo.

A Scuderia tem, sim, um histórico de decisões polêmicas sobre o tema, mas ano passado já acenou com uma postura diferente, não invertendo posições pensando no mundial de pilotos em algumas situações. O time até mesmo deu chance maior a Kimi Raikkonen do que a Sebastian Vettel de tentar a pole na Itália, em momento chave do campeonato.

Pois, bem. Austrália: depois de andar atrás de Vettel por todo o fim de semana, Leclerc está melhor com o segundo jogo de pneus e chega fácil no alemão. Provavelmente, passaria. Mas o que a equipe ganha com isso? Verstappen estava longe e tinha um ritmo melhor que Charles, então a Scuderia continuaria com o quarto e quinto lugares. A opção foi por evitar uma briga que poderia colocar em risco o resultado do time.

Duas semanas depois, no Bahrein. Novamente, Leclerc tem mais ritmo e avisa isso via rádio. A equipe pede para esperar. Provavelmente, perguntaria a Vettel se ele poderia apertar o ritmo, pois está segurando o companheiro, e não dá para adivinhar qual seria o resultado dessa conversa. De maneira inteligente, Leclerc viu a oportunidade de passar e foi para cima, dando o recado para o time de que os dois podem, sim, lutar por posição de maneira madura.

Volta 12: Leclerc lidera, com 3s3 para Vettel e 4s2 para Hamilton. A Mercedes está em posição de colocar a Ferrari sob imensa pressão, podendo fazer o undercut nos dois pilotos caso a Scuderia optasse por parar Vettel antes. E a Scuderia Ferrari reage protegendo primeiro a posição de quem? De Leclerc. Se eles tivessem primeiro tentado defender com Vettel, e depois com Leclerc, corriam o risco de perder ambas as posições.

A moral da história é que mesmo a Ferrari, com todo seu histórico, vem usando ordens de equipe para atender aos interesses do time, e não de um piloto em particular. Não se espera outra coisa, inclusive, em um início de campeonato, ao mesmo tempo em que cabe a Leclerc aproveitar esse momento para se firmar.

Isso me faz voltar a 2010, quando Fernando Alonso estava chegando na Ferrari. Logo na quarta corrida, na China, ele ultrapassa o companheiro Felipe Massa na entrada do pit e ganha a prioridade em uma daquelas paradas duplas em Safety Car, ganhando segundos preciosos com isso. Massa cobra Domenicalli na época, mas nada acontece. As posições de Leclerc e de Alonso são bem diferentes, mas retomei a história porque foi uma forma do espanhol testar o tanto de poder que tinha. E ganhar mais e mais a partir daí.

Voltando a 2019 e ao Bahrein, o desgaste dos pneus traseiros devido à grande quantidade de zonas de tração no circuito de Sakhir, combinado com a temperatura mais alta no início da prova, tornavam a tarefa de fazer apenas um pit stop difícil, especialmente para os carros mais rápidos. Sem ninguém escapando na ponta e conseguindo administrar os pneus macios no início, a tarefa era impossível.

Mesmo assim, quando a Mercedes chegou na volta 12 e viu o caminho aberto para o undercut primeiro de Vettel e, potencialmente, até de Leclerc, teve de reagir a outro fator: a Red Bull viu uma perda de pressão em um dos pneus de Verstappen e o chamou dos boxes. Logo, a Mercedes teve que chamar Bottas para protegê-lo do undercut do holandês. A Ferrari, então, viu a brecha e chamou primeiro Leclerc, protegendo a liderança, e depois Vettel, que parou uma volta depois de Hamilton.

Seria o suficiente para manter o segundo lugar na primeira bateria de paradas, talvez pela sorte de ver Hamilton não se dar bem com os pneus macios. Na segunda, a Mercedes parou Hamilton antes para ajudá-lo a chegar mais perto – já que a distância era de mais de 3s, grande demais para um undercut, e ele aproveitou a dificuldade do rival aquecer os pneus. Antes mesmo da rodada, pela qual assumiu 100% da culpa, dizendo-se surpreendido pelo vento,  Vettel simplesmente não estava se entendendo com o carro, perdendo a traseira o tempo todo. Como vimos algumas vezes em sua carreira, ele tem um estilo de pilotagem muito específico, e isso faz com que o acerto com o qual se dá bem também seja igualmente específico. E certamente não era o que ele tinha domingo.

Certamente, também, do outro lado da garagem, foi dado o recado. Leclerc vai cometer seus erros, como o fez na Austrália – na classificação e dando uma escapada na corrida. Mas a diferença entre os dois parece ser que o mais experiente deles costuma repeti-los com uma frequência que não condiz com seus números invejáveis.

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2 comentários Adicione o seu

  1. nato Velloso disse:

    Muita gente fala das ordens da Ferrari, mas à exceção da McLaren dividida por Senna e Prost, ordens de equipe sempre existiram em todos os times.
    Também vale lembrar que nos anos de 2007 e 2008, o combinado era:
    O piloto que chegar na frente na segunda metade do campeonato disputa o título. Pelo menos é isso o que contam por aí.
    Ordens de equipe daria um ótimo post!
    Grande abraço a todos do blog!

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  2. Observador disse:

    Ju, o Lecrerc até agora enfrentou o melhor Vettel na Ferrari ou o alemão ainda não se encontrou com o carro?

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