Drops do GP da China, o rolê aleatório da corrida 1000 e o poder dos Todt

A China não é para os fracos, é o que eu posso dizer. Por mais que seja fascinante estar em um lugar tão diferente, basicamente tudo dá mais trabalho do que deveria. E no domingo a grande maioria está contando as horas para se mandar de lá. Como basicamente tudo o que usamos em termos de aplicativos é bloqueado, você depende de VPNs que ficam caindo toda hora, e o Google Maps não funciona muito bem. Tanto, que mandei mensagem para a jornalista Kate Walker depois do primeiro treino livre para saber se estava tudo bem porque ela não tinha aparecido. “Coloquei o endereço de onde ia pegar minha carona no app e o taxista me largou num prédio em construção do outro lado da cidade!”.

Isso sem contar no jet lag. Vi pelo menos dois jornalistas completamente apagados no sofá na sala de imprensa.

Talvez por isso eu até procurei o Ronaldinho Gaúcho no grid porque esse tal rolê do GP 1000 estava tão aleatório que achei que ele pudesse aparecer. A impressão era de que tinham percebido duas semanas antes que a data aconteceria. Alguns poucos carros bem aleatórios estavam em exposição no paddock, como a Stewart de 97 e a Lotus de 2013, e só um carro histórico foi para a pista – a Lotus com a qual Graham Hill foi campeão, pilotada pelo filho Damon. Nem para ter um carro de cada década, uma reunião decente de memorabília ou a presença de campeões. Só estavam lá o que sempre estão porque seguem envolvidos no esporte, e a foto oficial do GP 1000 acabou com acredito que só três campeões do mundo além dos que estão no atual grid. Faltou mesmo o Ronaldinho.

Tem sido interessante, contudo, observar o crescimento da Fórmula 1 na China. Os fãs não são muitos, mesmo com a pista sendo de fácil acesso e os ingressos, baratos. Mas eles têm um grande conhecimento, se não do esporte em si, pelo menos das pessoas que trabalham nele. Tanto, que até a fisio de Lewis, Angela, é parada para fotos e o fotógrafo James Moy ganhou uma caricatura de uma fã.

Hamilton e Raikkonen são os pilotos mais populares, e não parecem gostar muito do tipo de abordagem chinesa. Kimi andava no paddock quase no meio dos pneus para evitar os fãs que tinham acesso ao paddock e Lewis se incomoda com o fato deles quererem tocá-lo. O inglês acredita muito em manter sua energia forte e por isso não gosta de ser tocado por estranhos.

Falando nisso, tive um papo de mais de uma hora com o fisio de Ayrton Senna, Josef Leberer, em que ele citou que o brasileiro também se incomodava em ser tocado, o que Josef credita a sua timidez. Ele contou algumas curiosidades, como o fato de cozinhar com produtos orgânicos para Senna e Prost mesmo no final dos anos 80. Mas o papo era sobre Ayrton como pessoa, que estou fazendo para o especial que vai ser publicado no UOL dia 1º de maio.

Outra entrevista exclusiva no fim de semana foi com George Russell, que me impressionou negativamente. Ele está completamente diferente do menino simpático com quem conversei em outubro do ano passado, agindo como se tivesse uns três títulos mundiais, pelo menos. E também deixou claro que não vai muito com a cara de Lance Stroll, cujo único amigo no paddock parece ser Esteban Ocon – o que é até engraçado, porque eles não poderiam vir de origens mais distintas!

Voltando a Russell, parece que ele até já deu piti por não conseguir um upgrade da business para a primeira classe voltando do Bahrein. Pelo menos teve a humildade de admitir, na entrevista, que aprende muito nas reuniões com Kubica, que não apenas relata as sensações no carro, como também indica aos engenheiros o que fazer. “Tenho que lembrar que engenheiros não pilotam.”

Em compensação, Charles chegou na quinta-feira com a atenção de todos centrada nele, e continuou com o mesmo de sempre. Tenho percebido que Binotto está grudado nele o tempo todo – eles voaram juntos após a corrida do Bahrein e na China ele estava nas entrevistas, algo muito incomum. Perguntei a ele por que a atenção tão centrada em Charles, e Mattia disse que está tentando se certificar que ele aprenda rápido e que seja um grande campeão.

Ao mesmo tempo, chamou a minha atenção uma declaração de Vettel, ainda na quinta-feira. Ele falava de sua sequência de erros e de ter sido defendido por Hamilton. “Parece que ele é o único aqui que não sofre de memória curta”. E depois disse que só quem está dentro da equipe para entender por que as coisas são como são. Sabe-se lá o que estava tentando dizer.

E aí chega o domingo e dá no que dá. Com o rendimento dos dois pilotos tão próximo e o time já saindo no prejuízo com só três etapas disputadas, está claro que ainda vamos ver muitos capítulos dessa briga interna. E o que se diz no paddock é que o poder dos Todt na Ferrari, uma vez que Nicolas é empresário de Charles, será testado.

Anúncios

6 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Olá Jú, obrigado pelos textos sempre muito bons. Tem falado com o Ricciardo? Tem sentido-o? E o Lauda? Faz alguma falta?
    Quatro das 876 perguntas que tenho pra vc consegui enviar…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Felipe Fugazi disse:

    Ju, bom dia.
    Esses detalhes citados por você sobre a carência de atrativos do miléssimo Grande Prêmio só comprovam que ele aconteceu no palco errado.
    Deveria ter ocorrido em um palco mais tradicional.
    Aqui no Brasil por exemplo.
    Abril teoricamente (teoricamente…) não tem problemas com chuva.
    Ou até uma simples inversão de China com o Bahrein.
    Tenho certeza que os barenitas teriam colocado mais carros históricos e grandes pilotos na pista como uma forma de enobrecer o evento.

    E pra finalizar, por favor explique um pouco mais essa coisa da “energia” do Hamilton.
    Fiquei curioso.

    Curtir

  3. Wagner Almeida disse:

    Estou torcendo muito pelo Lec Lec(apelido que os brasileiros estão dando ao Leclerc), pelo talento e humildade. Ju, você acha que ele saiu muito chateado da prova? Vc acha que ele, na estratégia de Vettel, também chegaria em 3o., ou ele estava realmente com menos ritmo?

    Curtido por 1 pessoa

  4. Filipe disse:

    Oi, Julianne! Pode-se dizer que a Ferrari ter “perdido a mão” na aerodinâmica desse novo carro é consequência da demissão do desenhista Simone Resta (que foi para a Sauber)?

    Curtido por 1 pessoa

  5. Luiz Onofri disse:

    Oi Julianne,
    Se não me engano foi você quem comentou sobre o pedantismo dos pilotos. Mesmo daqueles de “fim de grid”.
    Seria o excesso de atenção aos “meninos?”
    Aliás, temos alguns bem sem noção. Veja o Eddie Irvine e suas entrevistas.
    Abraços

    Curtir

    1. nato Velloso disse:

      Peço licença para fazer propaganda de outro site, mas sempre gosto de relembrar o rolê mais aleatório do Gaúcho:
      http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2011/04/na-abl-ronaldinho-rejeita-o-rotulo-de-doutor-e-manda-sua-letra.html
      Grande abraço a todos do Blog!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.