Sessão nostalgia e a primeira vitória do pioneiro australiano

A Austrália teve um piloto, Tony Gaze, disputando três corridas em 1953, mas a história do país na categoria começa mesmo com um tal de Jack Brabham, que viria a ser tricampeão mundial e, até hoje, o único piloto a vencer um campeonato com sua própria equipe.

A história de Brabham é fascinante: aos 18 anos, ele entrou para o exército australiano, em pleno 1944. Queria ser piloto de avião, mas havia uma demanda grande por mecânicos por conta da guerra, e foi lá que ele aprendeu muito do que usaria nas pistas após começar a correr no final da década de 1940.

Logo ficou claro que a Austrália era pequena demais para ele, que inclusive foi o primeiro piloto a atrair um patrocinador – mas viu o adesivo do parceiro ser retirado de seu carro pelos organizadores. Em 1955, ele foi para a Inglaterra tentar a sorte, conheceu a família Cooper e, no mesmo ano, estreou na F-1, mas sem saber que estaria na equipe que mudaria o curso da história. Afinal, a Cooper foi  a primeira a colocar o motor na parte traseira do carro, iniciando uma tendência que dura até hoje.

Não seria o australiano o primeiro a vencer com a novidade – foi Juan Manuel Fangio em 1958 – mas Brabham chegou a sua primeira vitória na F-1 com estilo, em Mônaco, no ano seguinte, aquele que também seria o campeonato de seu primeiro título mundial.

A 17ª edição do GP de Mônaco completa 60 anos nesta semana e teve 100 voltas (se os pilotos reclamam das 78 de hoje em dia, em que andam 260km, imagine chegar a quase 320 km de corrida como na época…). Era a primeira etapa do campeonato porque, depois da aposentadoria de Fangio, o GP da Argentina, que tradicionalmente abria a temporada, não foi realizado. O grid tinha 16 vagas, mas 24 pilotos se inscreveram para a prova – inclusive a pioneira Maria Teresa de Filippis, que não conseguiu se classificar com o Porsche. Entre o primeiro – Stirling Moss – e o último que alinharam no domingo, a diferença na classificação fora de 5s, sendo que os três últimos eram carros de F-2! Brabham era o terceiro no grid.

Na largada, Jean Behra passou Moss e foi para a ponta. O primeiro, o segundo e Brabham logo escaparam do resto e faziam uma corrida particular quando a Ferrari começou a ter problemas de motor e perdeu rendimento, dando a liderança a Moss na volta 22. Logo, ambos começaram a poupar equipamento, e o ritmo caiu em três segundos – com Brabham ainda mais lento, permitindo que Moss abrisse confortáveis 16s na liderança enquanto, mais atrás, aconteciam coisas que só mesmo nos anos 1950, como Graham Hill parando na beirada da pista para apagar fogo de seu cotovelo (!).

Com metade da prova disputada, Moss já tinha 40s de vantagem para Brabham, que estava outros 30s na frente do terceiro colocado Tony Brooks (emocionante, não?). O britânico parecia imbatível até menos de 20 voltas para o fim, quando parou nos boxes por sentir vibrações, que eram sinal de um problema de câmbio. Fim de prova para ele.

Brooks chegou a tentar ameaçar Brabham, mas o australiano logo fez uma volta em 1min40, dois segundos abaixo da então volta mais rápida da prova, para mostrar que estava apenas administrando e, após quase três horas de prova, recebeu pela primeira vez a bandeirada como vencedor de uma corrida de F-1, o que também foi a primeira vitória da Austrália na categoria.

Seria a primeira das 14 vitórias de Brabham na F-1 em 16 temporadas – longevidade impressionante para a época, ainda mais lembrando que ele estreou com 29 anos e conquistou seu último título aos 40. Até hoje, ele é o australiano com mais vitórias e títulos na F-1. Quem chegou mais perto foi Alan Jones, que foi campeão em 1980 e conquistou 12 vitórias na carreira. Mas ele foi o único dos quatro australianos que nunca venceu em Mônaco, ao contrário de Brabham, Mark Webber e Daniel Ricciardo, que tem metade das vitórias que o maior australiano da história da F-1.

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3 comentários Adicione o seu

  1. nato Velloso disse:

    E a galera reclamando do domínio das Mercedes, esse tipo de coisa sempre foi comum na F-1.
    É triste pensar que dificilmente um piloto será campeão com sua própria equipe nas regras atuais, as montadoras dominam e equipes como McLaren e Williams terão menos espaço a cada ano.
    Grande abraço a todos do Blog!

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  2. João Carlos Cavalcante disse:

    Parabéns Ju por mais post valeu pela história bjs

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  3. Fernando do Amaral disse:

    Olá Julianne – muito bacana esse artigo contando o início das vitórias desse campeão singular – o primeiro tri-campeão na F1 depois do dominante Fangio; mas é preciso corrigir uma informação (se eu entendi correto): “Não seria o australiano o primeiro a vencer com a novidade – foi Juan Manuel Fangio em 1958…” – se “a novidade” se refere ao motor central-traseiro nos carros, não foi Fangio mas Stirling Moss o primeiro a vencer em tal configuração de carro, num Cooper-Climax o GP da Argentina’58. Já Fangio pilotou carros com motor na dianteira em toda sua carreira na F1.
    Numa entrevista na Motorsport inglesa uns 15 anos atrás, comentando sobre sua última temporada na F1, a de 1970, ele não titubeou em afirmar “…you know, I should have won that championship” – tinha criado novamente um carro muito bom, o BT33, e iniciou vencendo a primeira da temporada em Kyalami, mas depois perdeu duas vitórias certas, em Mônaco e em Brands Hatch, e também o ‘momentum’ inicial, enquanto Rindt emendou 4 vitórias seguidas com a Lotus 72.

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