Sessão nostalgia e os 15 anos da última vitória italiana em Mônaco. Que a Itália esqueceu

Eu tinha uma sina nos meus dois primeiros anos de Fórmula 1: sempre que eu tinha uma exclusiva com um piloto, ele logo era demitido ou se aposentava. Um dos “premiados” foi Jarno Trulli, logo antes de deixar a categoria em 2011.

Trulli tinha virado um personagem um tanto amargo, dividindo a equipe com Heikki Kovalainen na Caterham no final da carreira e parecia nutrir um certo ressentimento em relação à Ferrari, que mais tirou espaço dele do que o abraçou. E também sentia que havia certo preconceito por ele vir de uma parte pobre da Itália – a mesma onde até hoje está a família Cerasoli, Abruzzo.

Todavia, houve um dia em que Trulli deixou tudo isso para trás. E, curiosamente, em uma mesma corrida que os ferraristas preferiam esquecer. A jovem promessa italiana, piloto marcado por grandes voltas de classificação, vencia pela primeira – e última vez – na Fórmula 1, há 15 anos. E logo em Mônaco.

A temporada de 2004 foi marcada por um dos domínios mais amplos que a categoria já viu: Michael Schumacher estava em busca da sexta vitória consecutiva. Mas as sinuosas ruas de Mônaco, que não eram o forte dos carros da Ferrari, igualaram os rendimentos. Mais do que isso: fizeram a Renault de Trulli e Fernando Alonso, com pneus Michelin, que tinham melhor aquecimento, parecerem estar mais rápidas que os carros vermelhos.

Schumacher não passou de quarto no grid, atrás das Renault e de Jenson Button, então na BAR. Na largada, ainda perdeu posições e passou quase toda a prova entre a quarta e quinta colocações, enquanto as Renault rapidamente deixaram Button para trás e escaparam na frente, com Trulli, pole position, em primeiro.

Parecia uma dobradinha certeira, mas Alonso tentou dar uma volta em Ralf Schumacher por fora no túnel, perdeu o controle do carro nos restos de pneus fora da trajetória, e bateu, provocando o Safety Car que seria o fim para Schumacher.

Aquela Ferrari com Ross Brawn no comando era conhecida pelas boas estratégias, mas o time tomou uma decisão no mínimo estranha ao não chamar seus pilotos para os boxes com 35 voltas para o fim – e sem combustível para ir até o final. Isso colocou Schumacher em primeiro, mas com as paradas levando cerca de 30s e 35 voltas para o fim, ele precisaria abrir mais de 1s por volta antes de ficar sem gasolina. E não tinha essa vantagem naquele fim de semana.

Ninguém sabe, contudo, como acabaria essa história, já que, atrás do Safety Car, Schumi começou a aquecer seus freios e pneus de forma agressiva, como sempre, e acabou sendo acertado por Montoya na saída do túnel.

“Pode não ser legal, pode não ser justo, mas quando a Ferrari de Michael Schumacher surgiu do túnel de Monte Carlo tendo sido socado no nariz com força, a sala de imprensa vibrou espontaneamente, sinal talvez de que a Ferrari tenha feito tudo certo na F-1 nos últimos anos, a não ser ganhar corações e mentes”, narra um dos relatos da época.

Consigo imaginar se o mesmo acontecer com as Mercedes neste fim de semana.

Voltando a 2004, Schumacher não assumiu a culpa pelo incidente e disse que “o que vimos foi que o líder da prova foi atingido por um retardatário”.

Mas a corrida ainda teria emoção até o final, pois Button ganhara as posições de Schumacher e Alonso e vinha forte nas últimas voltas, embora Trulli tenha dito que estava só administrando O fato é que o italiano cruzou a linha de chegada apenas um segundo à frente do rival.

Rubens Barrichello completou o pódio em um top 6 que teve ainda dois brasileiros: Felipe Massa aguentou a forte pressão de Cristiano da Mata para levar a Sauber ao quinto lugar, em prova na qual nove cruzaram a linha de chegada.

Foi assim que Jarno Trulli colocou seu nome entre os vencedores na F-1. E o circo, como se fosse uma maldição, acabou ouvindo mais uma vez o hino da Itália no pódio.

1 comentário Adicione o seu

  1. Eudes Honesto disse:

    Ótima história. Não sabia dessa situação do Trulli.

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