Premonições

Eu confesso que tinha um mau pressentimento antes desse GP da França por uma série de motivos. Primeiro, pelas conversas que ouvia dando conta de que as vendas de ingressos tinham caído em 70%. Todo aquele clima de empolgação por um país tão tradicional ter voltado ao campeonato teria acabado nos enormes engarrafamentos. E isso sem confirmou: o clima não era dos mais entusiasmantes.

Outra impressão que tinha era de que seria uma daquelas corridas decididas na classificação. Paul Ricard é uma pista de testes não para a Fórmula 1, mas para tantas outras formas de automobilismo justamente por mostrar aos engenheiros os pontos fortes e fracos dos carros e, por conseguinte, escancaria que a Mercedes é simplesmente um carro melhor e o breve ressurgimento da Ferrari no Canadá foi apenas uma questão de layout – em um tipo de pista que está longe de ser o mais comum do campeonato.

E o terceiro temor tinha a ver com a polêmica levantada pela punição de Sebastian Vettel. O paddock entrou de acordo que os comissários apenas aplicaram uma regra que não é aplicável a todas as situações do tipo – algo que eu já tinha levantado no domingo em Montreal. Na França, as regras voltariam a ter sentido, com as áreas de escape asfaltadas que tanto fizeram pela segurança nos últimos anos, mas igualmente prejudicaram as disputas e ajudam a nivelar por baixo a pilotagem.

Explico: regras como a que pune pilotos que obtêm vantagem ao retornar à pista só existem porque há a possibilidade de pilotos terem essa vantagem, e isso acontece quando as áreas de escape são asfaltadas. Por isso, havia o risco de acontecer exatamente o mesmo de Montreal, mas ser diferente. E, infelizmente, o lance mais emocionante da prova, quando Lando Norris tinha problemas e era ultrapassado por Kimi Raikkonen, Daniel Ricciardo e Nico Hulkenberg, acabou em mais uma punição mesmo sendo diferente justamente porque os pilotos sabiam que poderiam ir para fora da pista e continuar com o pé embaixo.

Não por acaso, acabou sendo um domingo estranho, em que o pentacampeão do mundo e líder do campeonato com folgas, ao invés de comemorar uma corrida em que estava tão dominante que disse até ter testado o comportamento dos pneus, tentava explicar o que está errado com o esporte.

A Fórmula 1 está em um momento muito delicado e vou falar mais sobre isso no drops na terça-feira. O que vimos nos últimos regulamentos foi que mudar só por mudar apenas agrava a situação e é preciso estudar muito bem as consequências de todas as ideias. Porém, ao mesmo tempo, a Liberty talvez tenha dado voz a gente demais e seja difícil chegar a um denominador comum dessa maneira.

Pelo menos os pilotos, pelo que ouvi neste fim de semana, sabem o que querem: eles estão dispostos a mudar o DNA da F-1 e padronizar mais os carros se isso tornar a categoria mais competitiva. Afinal, como escutei uma vez do médico da F1 sobre o halo, DNA é algo que evolui.

10 comentários Adicione o seu

  1. Wesley Andrade disse:

    Esse GP de Paul Ricard chamou muito mais atenção pelos defeitos da categoria do que qualquer outra coisa. É inacreditável.

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  2. Claudio disse:

    Já encheu a paciência. A era híbrida é de longe a mais chata de toda a história da categoria. A quantidade de corridas péssimas nesse período é surreal. Essa se Paul Ricard foi a tempestade perfeita. Pista horrível, equipe imbatível e piloto dominante. Pqp. Foi duro de assistir. Ross Brawn é um piadista. Mudar asinhas não vai tornar as corridas melhores, nem proporcionar mais ultrapassagens. Os pneus Pirelli são péssimos. As regras são ridículas. Muita coisa mesmo precisa mudar.

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    1. Max disse:

      Ora ora , temos alguém aqui que não assistiu às corridas dos anos 2000

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      1. Claudio disse:

        Hahahaha, acho que você não tomou o Ginkgo Biloba na época certa. Comparar qualquer período dos anos 2000 com 5 anos e meio de era híbrida e achar que está melhor é só para os desmemoriados.

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  3. João disse:

    Culpam o regulamento e os pneus. Em mais de seis anos de desenvolvimento da unidade de potência e mais de três da base do carro atual, a Ferrari não consegue ultrapassar a Mercedes. Por que? A Mercedes é imbatível é porque possui o melhor piloto e o melhor time de pessoas. O problema não está nas regras, pois elas são iguais para todos. A F1 está num lindo nível de Engenharia e não dá pra voltar atrás sem acabar com a competição. Talvez alterar o teto orçamentário seria uma maneira de limitar o investimento das equipes, e talvez diminuiria ou anularia a vantagem da Mercedes.

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  4. Salla disse:

    Quanta choradeira! Já virou moda esse discurso de corridas chatas e equipe dominante. F1 sempre foi grana, quem tem mais tem mais em tudo, carro, piloto, etc. Ataquem a Ferrari, é a equipe com mais dinheiro da categoria e a que mais porcamente trabalha, tá aí o resultado. Mercedes e Hamilton não tem nada a ver com isso e seguem fazendo o seu, porém, com tanta choradeira estão ficando até sem graça. Parabéns ao Hamilton pelo discurso em prol da equipe e dizendo que com esse início de campeonato surreal ele está aproveitando e fazendo o dele. Certíssimo.

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  5. FERNANDO DO AMARAL disse:

    Bem, não acompanhei esse GP, nem mesmo por transmissão da rádio – a minha preferida, e estou sem TV em casa, mas é impressionante o tamanho da reação ao ‘tédio exacerbado’ da corrida em Paul Ricard. reação em rede social e na imprensa mesmo.
    Sobre o lance das regras me parece certeira sua constatação de um excesso de mudanças nelas e suas aplicações – quando da celeuma da punição no GP canadense li uma noticia antiga, de 1 ou 2 temporadas atrás, em Hockenheim foi estipulada ‘nova medida’ relacionada à saída do traçado em determinada curva, tinha sido decidido tolerar 3 saídas de pista por piloto, na quarta vez o cara tomaria punição… pelo amor, não tem cabimento um controle com tal ‘preciosismo’ (na falta de termo melhor).
    Interessante o que disse o Claudio acima aqui nos comments, que a F1 de propulsão híbrida tá sendo, de longe, a mais chata já realizada. Imagino se não chegaran a isso por se ter aumentado muito a comlexidade justamente da engenharia total dos carros com a ‘triplagem’ das fontes de propulsão – se isso não teria anulado quase totalmente a efetividade das restrições aerodinâmicas seguidamente introduzidas de uns 3 anos até agora.
    (a bem da verdade houve outras ‘épocas’ muito tediosas na F1, uma há não tanto tempo, que foi o domínio Schumacher/Ferrari nos anos 2000, aquela dominação pneumático-estratégica era aviltante do ponto de vista competitivo mesmo.)
    Ainda tenho crença que não seja o traçado dessa pista francesa que cause a monotonia do espetáculo, mas isso mantenho só porque pretendo ir alguma vez assistir lá um GP da F1 – por acaso minha companheira tem amigos na região e queremos fazer turismo por lá. Por isso gostei da notícia que o público presente diminuiu um bocado este ano. Mas ficou claro pela sua explicação que a pista é boa mesmo para funções de testes – embora há que se considerar, se houvesse ao menos uma equipe em condições de confrontar a dominante de agora, o espetáculo poderia ser interessante.

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  6. Hemerson disse:

    A F1 ficou essa bosta depois que as fabricantes começaram a mandar na categoria com esse nojo de motor híbrido. O que adianta ter um nível de engenharia “lindo” se não há competição. Ninguém aguenta mais assistir uma campeonato com um número escroto de corridas quase sem nenhuma disputa, com carros quase inquebraveis, com gerenciamento de desgaste de pneus, com circuitos capados, sem tradição, com esse excesso de áreas de escapes e com um regulamento filho da p*ta! A Era V10 tinhas suas corridas chatas, a dominância da Ferrari durante alguns anos, mas tinha o que atraía os fãs: a simplicidade nas regras e o som motores! A corrida podia ser uma merda, mas quem curte automobilismo puro só de ver os onboards ao som dos v10, já valia muito a pena. E o que temos hoje? Uma F1 morta que precisa ser explodida pra recomeçar de novo.

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  7. Leandro A. disse:

    Essa realidade só vai mudar quando a F1 sentir impacto financeiro decorrente da perda de audiência e patrocinadores. Esses dirigentes só querem grana, pois mesmo com a pasmaceira na pista, eles estão com os bolsos cheios.
    Outro ponto é a essência: ser uma categoria de vanguarda sempre implicará em ser uma categoria desigual, pois inovações sempre destoam algum time. Penso que deveriam buscar a essência esportiva e procurar mitigar o ritmo das inovações com o limite orçamentário, buscando padronizar o carro o máximo possível para que a competitividade volte. As máquinas estão complexas ao ponto das próprias equipes nem conseguirem entenderem os seus comportamentos (vide o depoimento da Hass sobre esse final de semana).

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  8. Marcos Paulo disse:

    A F1 SEMPRE teve equipe dominante (não importa se era anos 70/80/90/00). Nos anos 80 o 1º colocado dava volta no quarto. Não importa se era caso asa, motor turbo, V12, V10, V8 Híbrido, sempre foi assim.
    A diferença é que o carro quebrava, gasolina acabava etc etc. Reflexos do amadorismo que deixou de existir e da tecnologia que avançou.

    A Mercedes tem o melhor corpo técnico, um piloto acima da média, uma liderança competente e MUITA grana.

    Se querem deixar a competição mais parelha, da uma olhada com os americanos tocam suas ligas esportivas, mas o que precisa ser feito, ninguém quer aceitar.

    Nem quem já está la nadando na grana e mesmo perdendo, o status quo é bom (Ferrari, Mercedes e RBR), nem os torcedores chatos, velhos e nostálgicos.

    É torcer para alguma coisa de fato acontecer em 2021 pq a WEC já está se movimentando e a FE tb.

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