Por dentro da F-1 e da ressurreição da bandeira preta e branca

Montreal, junho de 2019. Acredito que todos lembram bem, mas não custa contextualizar: Vettel cruza a linha de chegada em primeiro, mas termina em segundo porque tem 5s adicionados a seu tempo devido a uma punição por ter voltado à pista de maneira insegura após uma escapada numa briga com Lewis Hamilton, que vence a prova. Os torcedores vaiam; Vettel, inconformado, coloca a placa de primeiro colocado diante de seu carro; o pódio é um anticlímax total. Porém, embora parecessem totalmente antagonistas naquele momento, Vettel e Hamilton concordam: o texto das regras é rígido demais e não dá muita alternativa para os comissários.

Paul Ricard, duas semanas depois. Ricciardo é punido por exceder os limites da pista numa ultrapassagem sob Kimi Raikkonen em uma pista cujos tais limites são, na grande maioria dos casos, definidos só por uma linha branca. Sem asfalto mais abrasivo, sem grama, sem zebras altas, sem brita. E todos somos lembrados do porquê da necessidade das regras serem tão restritivas.

Da França em diante, nas reuniões de sexta-feira, alguns pilotos, como Max Verstappen e Kimi Raikkonen, pediram que apenas batidas fossem punidas. E todos, como sempre, cobraram consistência.

No meio de tudo isso está Michael Masi, australiano que foi alçado à condição de diretor de provas depois da morte repentina de Charlie Whiting às vésperas da etapa de abertura do campeonato, na Austrália. A primeira reação de Masi é admitir que “o melhor a fazer é acabar com todas essas regras e começar do zero”, mas ele se propõe a encontrar uma solução. Ou pelo menos uma tentativa. E ela estava lá mesmo dentro do regulamento e fez parte da vida dos pilotos desde o kart: a bandeira preto e branca, uma advertência ao piloto.

Em outras palavras: Masi encontrou, dentro do regulamento, uma maneira de atender aos pedidos dos pilotos.

Antes de chegar na tal bandeira, vale um parênteses importante: como é o processo do tal VAR da Fórmula 1 (e porque ele é muito mais demorado)?

Primeiro é preciso entender que as punições e as regras de driving code não estão interligadas, ou seja, não é sempre que voltar de forma perigosa à pista (no caso de Vettel no Canadá) vai gerar 5s. Primeiro, os comissários (lembrando que o comissário convidado, o ex-piloto, não tem peso maior no julgamento) verificam se o piloto violou algum dos artigos citados no artigo 27 do regulamento esportivo, que dita as regras sobre pilotagem. E depois podem escolher dentre uma gama de níveis de punição dependendo da gravidade. Nos últimos anos, Whiting se dedicou a criar um sistema informatizado que possibilita a consulta de decisões anteriores para lances parecidos e é possível pesquisar, por exemplo, todos os incidentes de um circuito, todos os que violam o artigo X, todos os incidentes do mesmo piloto, etc. O fato de não ser algo simples como ver se a bola entrou ou não, verificar um impedimento ou se a falta foi dentro da área explica por que o processo é mais demorado.

Mas o que está, de fato, escrito na regra?

Além das regras que falam em não andar exageradamente lento e pilotar sem ajudas, a parte mais importante é a seguinte: “Os pilotos têm de fazer todo esforço razoável para usar a pista em todos os momentos e não podem sair dela sem um motivo justificável. […] Se um carro sair da pista, o piloto pode voltar, mas isso só pode ser feito quando for seguro e sem ganhar vantagem duradoura.”

E há, no driving code, a regra que diz que, quando um rival tiver parte significativa (pode ser uma asa, não precisa estar lado a lado) em paralelo ao carro, ambos têm de deixar a distância de pelo menos um carro entre ele e a linha – algo que Leclerc descumpriu em Monza na briga com Hamilton.

Outro ponto importante vem mais à frente, no artigo 38: “A não ser que esteja claro para os comissários que um piloto teve culpa total ou predominante, não será aplicada nenhuma pena.”

Ou seja, a regra deixa aberta a interpretação do que é ganhar vantagem, até porque em algumas pistas, como em Monza, as zebras são tão altas que é difícil passar por elas e, ainda assim, ganhar a tal vantagem. Mas digamos que eles considerem que houve exagero de um piloto. Ele é culpado, como Leclerc. Aí seguimos para o passo seguinte:

Até antes do GP da Bélgica deste ano, os comissários entendiam que podiam escolher as penas desde a soma de 5s até o stop and go de 10s (que faz o piloto perder uma eternidade, já que tem de ser cumprido em 3 voltas e a equipe não pode fazer um pit stop, ao contrário do que acontece com a pena de tempo de 5 ou 10s). 

Voltando ao Canadá, o que aconteceu foi o seguinte: os comissários entenderam que Vettel não tinha retornado à pista de maneira segura na leitura nua e crua das regras. Mesmo sabendo que ele não tinha o controle do carro – algo atestado até pelos rivais – não tinham saída. O texto estava lá e tinha de ser cumprido. Não por acaso, contudo, escolheram a menor pena possível. 

Mas será que era mesmo a menor pena possível? Masi fuçou no regulamento e viu que não. A bandeira preta e branca vem para preencher a lacuna que o diretor de provas e os próprios pilotos viam entre os lances que seriam punidos pelo texto da regra, mas que podem ser vistos como lance de corrida. Passou a ser adotada a partir da Bélgica e explica por que os comissários consideraram Leclerc culpado, mas não deram punição efetiva.

“Faz uns 100 anos que existe essa bandeira, então vamos usá-la! É para isso que ela existe, acho que só agora acordaram para o fato que já temos isso”, reagiu Kimi Raikkonen. “Acho positivo porque em vários lances acho que é loucura dar uma pena logo de cara, porque é o que eles têm que fazer por causa das regras. Mas também temos as bandeiras que dão uma acordada no pessoal.”

Então agora quer dizer que o piloto sabe que tem um curinga nas mãos, e que pode jogar alguém para fora da pista uma vez e escapar de punição? Lembro que Raikkonen foi questionado logo em seguida sobre isso. Ele abriu os braços, deu um suspiro, e desenhou: “Depende do que você fizer. Se você fizer uma coisa completamente estúpida é claro que não vão dar só uma bandeira. Para coisas menores, ela está lá.”

Trocando em miúdos, não será toda vez que um piloto vai receber primeiro uma bandeira preta e branca – e os casos de Vettel e Stroll em Monza estão aí para provar. Seu uso foi apenas uma resposta pós-Canadá e dá mais um degrau de punição para os comissários usarem. É algo que legaliza o “segue o jogo” – que já tinha pautado a decisão que manteve a vitória de Verstappen na Áustria – e que os pilotos tanto vinham pedindo.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Bela explicação.
    Significa que teremos mais ação na pista e menos mimimi.

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