Combinado sem comando

A Mercedes e Lewis Hamilton voltaram a ganhar depois de uma sequência de três conquistas consecutivas da Ferrari, e logo de quebra com uma dobradinha. Se eles tinham ou não ritmo para fazer isso em condições normais, é algo que vou detalhar ao longo da semana no post de estratégia. Até porque nem ganhando os líderes disparados do mundial são o assunto do momento. Desde que a Scuderia encaixou as peças de seu carro, que se tornou não apenas um “leão de reta”, mas também um carro mais equilibrado e que responde melhor a diferentes acertos, as decisões internas do time têm roubado a cena. E levado o time ao que parece ser o começo de uma guerra civil entre Vettel e Leclerc.

Voltemos à Bélgica: Leclerc foi o melhor por todo o fim de semana, mas precisou que Vettel segurasse Hamilton para vencer pela primeira vez. Certamente, o alemão não esqueceu disso.

No final de semana seguinte, o jogo estava mais equilibrado e a equipe deu a Leclerc o primeiro vácuo da classificação (e foi atendida) e a Vettel o segundo e decisivo. Todos lembram a confusão causada pelo fato de ninguém querer liderar o pelotão e ser o único a não ter o último vácuo, Leclerc disse que não seguiu a instrução porque Sainz e Hulkenberg atrapalhavam na frente, a Ferrari não aceitou muito bem a explicação, mas a vitória do monegasco fez “tudo ser perdoado”, como disse Mattia Binotto logo após a bandeirada. Aparentemente, Vettel não concordou com isso.

Mais duas semanas depois e Binotto novamente tem de colocar panos quentes na relação entre seus pilotos, desta vez porque Leclerc seguiu uma tática de segurar o pelotão para se defender do undercut dos rivais e acabou sofrendo o golpe do próprio companheiro. Desta vez, é a equipe que tem de se defender, dizendo que não esperava que a diferença entre Leclerc, de pneus usados, e Vettel, de novos, seria tão grande como os 3s9 que eles viram no final das contas. Sabe-se lá se Leclerc engoliu essa.

Chegamos à Rússia e a Ferrari insiste em seus combinados. Desta vez, para se protegerem do vácuo das Mercedes na crucial largada em Sochi – como a diferença entre dois carros precisa ser muito grande para ultrapassagens acontecerem por aqui e pelo fato deles largarem com pneus macios, contra os médios da Mercedes, era fundamental que terminassem a primeira volta com o 1-2 – a ideia era que Leclerc desse o vácuo a Vettel e não oferecesse resistência caso o alemão passasse. Até porque, caso isso acontecesse, as posições seriam invertidas.

Pois, bem. Vettel acreditou que não pegou a liderança na segunda curva só porque teve o vácuo, mas porque também fez uma largada melhor. Acreditou que estava conseguindo se manter na frente do companheiro porque tinha ritmo melhor. Ou acreditou em tudo isso e decidiu que era a hora de dar uma de “João sem braço”, como entendeu que Leclerc fez em Monza, e esperou pelo “tudo está perdoado” de Binotto na bandeirada.

Seja como for, Vettel decidiu que não devolveria a posição. E disse depois que sentia que tinha cumprido, mesmo assim, sua parte no trato.

Pela segunda corrida seguida, Leclerc não entendia o que estava acontecendo. Ele tentou seguir Vettel de perto nas três primeiras voltas esperando a troca, mas percebeu que era muito difícil fazer isso por causa da turbulência (o que, no final das contas, tinha sido o motivo pela qual a Ferrari fez o tal trato) e detonou seus pneus traseiros devido à falta de aderência. A equipe lhe dizia, a cada volta, que a troca aconteceria na próxima, enquanto tentava de tudo com Vettel, dizendo, por exemplo, que “Charles é o piloto mais rápido da pista”, quando na verdade não era. Depois de algumas voltas, Leclerc foi avisado de que a troca aconteceria depois. Ele, portanto, não precisava demonstrar mais ritmo para provocar o companheiro.

Seus pneus, claro, acabaram antes dos de Vettel, e a Ferrari antecipou sua parada, segundo Binotto, por conta disso. Ainda de acordo com o chefe, que não apareceu em nenhum momento no rádio para se certificar que seus pilotos mantivessem o combinado, a Ferrari decidiu deixar Vettel na pista não para que ele voltasse da parada atrás de Leclerc, mas para evitar que o time ficasse sujeito a um SC.

Essa é difícil de engolir uma vez que, se essa realmente fosse uma preocupação, pelo menos um dos carros teria largado com os médios, mas essa também é uma história para o post de estratégia. 

Seja como for, Vettel acabou voltando atrás de Leclerc e as posições foram restabelecidas após as paradas, mas ficamos sem saber quais seriam as cenas dos próximos capítulos: o alemão teve uma falha de MGU-H, uma fuga de energia, e isso explica por que ele parou na pista e não 900m depois, nos boxes, o que teria mantido Leclerc na frente. O Safety Car que a Ferrari temia acabou sendo causado por ela mesma, as Mercedes aproveitaram para parar, e o resto é história.

Ninguém duvida que a Ferrari melhorou muito nos últimos meses. Mas as táticas que eles têm usado mostram que eles não têm a confiança de que podem ganhar por puro ritmo. Nada que nunca tenha sido feito na história da Fórmula 1 mas o que Binotto vem descobrindo amargamente é que não faz sentido ter combinado se não há comando. E até um piloto com 37 GPs nas costas já percebeu isso. Imagine um tetracampeão do mundo.

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14 comentários Adicione o seu

  1. Plow king disse:

    Di Montezemolo/Niki Lauda e Jean Napoleon/Brawn/Schummy. As unicas fases de ordem na zona italiana. Mesmo com Alonso era muito passional…

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  2. Carlos disse:

    Obrigado por todos detalhes! Não entendo a motivação da Ferrari nesses combinados… O ano já está perdido, mas a equipe já ganhou 3 corridas, tirou o peso das costas. Não seria melhor deixar os pilotos correrem cada um por si? Qual é o sentido de ter 2 pilotos rápidos em condições de vitória se a equipe não deixa eles competirem abertamente? Não seria melhor ter um segundão estilo Kimi ou Bottas então?

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  3. Leandro A. disse:

    Por essas e outras que isso não é esporte.

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    1. P Henrique disse:

      Se compararmos os numeros da ferrari em tempo de classificação e voltas de corridas do ano passado com esse ano, o ganho de velocidade foram mínimos…

      Já a Mercedes das férias pra cá caiu de um à dois segundos em tempo de classificação e de corrida … resumo não foi a Ferrari que evoluiu mas sim a Mercedes que tirou o pé, os numeros não mentem. Fato

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  4. Alfredo Aguiar disse:

    Na primeira volta já veio a tal ordem. Novamente aquela sensação de que acordei cedo pra fazer papel de palhaço. Esse Matia Biruto tem se saído pior que a encomenda. É um festival pastelão atrás do outro. Os deuses do esporte deram o troco e a Ferrari viu novamente os Alemães triunfarem no que deveria ter sido uma corrida mamão com açúcar pra Maranello.
    Essa palhaçada toda pra quê? Esse italiano burro acredita que possa levar o campeonato? Que desserviço estúpido para a competição. O público querendo ver competição, especialmente entre companheiros de equipe, que afinal tem o mesmo equipamento e o boçal com esses joguinhos afrescalhados de vácuo, ceder posição, troca-troca…Que falta de confiança no taco, impressionante. Demite logo um dos 2 e recontrata Massa ou Rabiquello.

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  5. Valdemir Silva Braga disse:

    A Ferrari é f… Dispensou Alain Prost, prejudicou o Massa quando este perdeu o titulo para o Hamilton, também na época do Alonso, prejudicou também o Rubinho em prol do Schumacher; acho que o Vettel sacaneou a equipe por ser obrigado a ceder a posição ou a equipe para castigá-lo, estragou sua corrida. Acho que o casamento do Alemão com a Ferrari subiu no telhado.

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  6. William disse:

    Vettel poderia ter levado o carro ate os boxes, mas nao o fez, foi sacanagem dele, estava com raivinha de ter que inverter na marra. Com esse mesmo problema o Ricciardo correu meia prova em Monaco.

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    1. Dennis disse:

      Se nessa altura do campeonato quando a Ferrari já não briga pelos títulos, só para ganhar corridas, já está essa confusão, imagina quando os dois tiverem brigando pelo título. Não entendo pq eles não se espelham na Mercedes quando o Rosberg estava por lá e o Hamilton não era tão superior. Tiveram batidas, sim. Mas é isso mesmo q precisa acontecer para os pilotos descobrirem o limite um do outro. A partir daí vai existir mais respeito. O clima vai ficar ruim, claro. Mas para não ser assim tem q colocar um segundão clássico, tipo Bottas ou Massa. Se a Ferrari escolheu ter dois pilotos top, não pode agir como se tivesse um primeiro e um segundo pilotos clássicos, como ela sempre fez.

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    2. Alfredo Aguiar disse:

      Você não lê as reportagens antes de escrever? Não viu a mensagem do rádio, “PARE O CARRO AGORA” No que Vettel pergunta se tem que ser imediatamente e a equipe responde que sim?

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  7. Robson Coimbra disse:

    O Vettel não precisava de ajuda de ninguém para liderar o começo da corrida, estava na frente por seus próprios méritos, e a Ferrari deixando ele na pista por mais tempo que o necessário foi cruel, aliás já encheu o Leclerc ficar reclamando no radio, se ele quer ganhar que vá pra cima e lute na pista.

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  8. speeder76 disse:

    Para muita gente que anda aqui, a solução seria “despedir um deles, de preferência o mais velho”. Já imaginaram que, se tivesse hierarquia desde o ano passado, quem estaria a guiar ao lado do Vettel seria o Giovinazzi e não Leclerc?

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    1. H.Ner disse:

      Deu entender que monegasco não ofereceu resistência de proposito por causa do tal acordo.

      Se ele jogasse duro o vettel não passaria.

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  9. Hermes leandro disse:

    Ju vc não acha que a Ferrari mandar Vettel encostar o carro não foi muita falta de inteligência não ?

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  10. Era uma questão de segurança. Havia uma fuga de energia.

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