Estratégia do GP do México e os duros longa-vida

Todos começaram a corrida com a ideia de fazer duas paradas, mas também atentos ao que, de fato, viria a acontecer na corrida, uma vez que a temperatura da pista subiu em 10 graus no domingo em relação a quando as simulações de corrida foram feitas na sexta-feira. Junte-se a isso o fato de, no sábado, as equipes não terem tido a chance de testar muito bem as mudanças feitas após o primeiro dia de atividades, pois a pista estava úmida no FP3. Seria uma prova mais de reação, com o piloto tendo um papel importante dentro do cockpit, do que de planejamento.

A Ferrari ficou mais presa ao seu planejamento – mais uma vez dando sinais de que suas simulações deixam a desejar em relação aos demais – e esqueceu de ver o que, de fato, estava acontecendo na corrida. A Scuderia reagiu à parada da Red Bull, com Alex Albon, que vinha em terceiro na corrida. O time austríaco optou por colocar pneus macios no carro do tailandês para tentar o undercut, mas cegou-se à possibilidade (que já estava muito clara para a Mercedes) de abrir a possibilidade de fazer só uma parada. 

Ou seja, crente de que a Ferrari responderia com Vettel, eles colocaram os pneus médios em Albon comprometendo-o a fazer duas paradas, mesmo vendo o ótimo ritmo de Verstappen com o composto duro. As equipes entraram na corrida dispostas a evitar o duro achando que ele seria lento demais, e Max estava provando o contrário. Caso Albon tivesse colocado o duro naquele momento, estaria na luta pelo menos de um pódio.

Já a Ferrari, acreditando que era necessário ir até a volta 30 com o primeiro jogo de pneus, nem cogitou colocar Leclerc no pneu duro, também comprometendo-se a fazer duas paradas. Do lado do monegasco, houve a mea culpa de admitir que “perguntaram sobre o estado dos pneus e eu respondi”, dando a entender que ele, Leclerc, sentiu que julgou mal a situação da borracha naquele momento. Não coincidentemente, foram os dois pilotos menos experientes do top 5 que caíram na armadilha das duas paradas.

Como a Ferrari decidiu defender a tentativa de undercut da Red Bull com o líder, isso automaticamente jogou Sebastian Vettel para uma tática de uma parada, uma vez que ele perderia a posição para Albon se parasse duas voltas depois.

A cara giro, ficava claro que o calor estava ajudando a proteger os pneus do graining da sexta-feira, e Vettel estava em posição de ganhar a corrida. A não ser por um problema: Hamilton vinha se aproximando, mesmo com um carro danificado pelo toque com Verstappen na primeira curva, e começava a ter a chance de tentar um undercut. A Mercedes, então, esperou que se abrisse um espaço para o inglês voltar sem trânsito e parou, na volta 23, e retornou à pista tão rápido que, mesmo se Vettel respondesse na volta seguinte, voltaria atrás – ouvimos no rádio como se Vettel não tivesse parado porque não quis, mas a decisão foi tomada no final das contas pela equipe também sabendo que a posição de pista estava perdida.

Aí entram as diferentes simulações das equipes. A Ferrari não acreditava que Hamilton poderia chegar até o final com o pneu duro em boas condições, e manteve Vettel na pista pelo máximo de voltas possível para ele ter a chance de atacar o inglês no final. Já a leitura da Mercedes era de que a janela para uma parada tinha se aberto na volta 19, e por isso pediu ao inglês que forçasse o ritmo. Na volta 22, ele ficou a menos de 2s de Vettel, e no final do giro seguinte, parou nos boxes.

Era um pouco cedo, sim, mas era a única chance da Mercedes ganhar a corrida. Caso Vettel parasse antes de Hamilton, ele voltaria na frente e ganharia a corrida. Depois, foi só uma questão de fazer Hamilton acreditar que dava para ir até o final mesmo com um carro cujo equilíbrio não era o mesmo por conta dos danos no assoalho, que tiravam a estabilidade da traseira nas freadas. Mas o time alemão sabia que poderia confiar em seu piloto para fazer isso. No final das contas, foi uma grande vitória tanto do piloto, quanto da equipe.

Vettel acabou parando 13 voltas depois, respondendo ao pit stop de Bottas, que naquele momento era segundo. Leclerc voltou à liderança, mas apenas por seis voltas, até fazer sua inevitável segunda parada, pois teria que usar os dois compostos. Caso tivesse colocado os duros naquela primeira parada, muito provavelmente teria ganhado a corrida, já que Verstappen veio passando o pelotão inteiro com um mesmo jogo de duros, que sobreviveu por 66 voltas.

No final das contas, fica a informação que Mario Isola já tinha passado na sexta-feira, de que o fator limitante do pneu duro era de desgaste, e não degradação. Ou seja, a perda de performance seria repentina, mas apenas no final do stint. Por conta disso, os pneus 13 voltas mais novos de Vettel não seriam suficientes para ele ser significativamente mais rápido que Hamilton, e o inglês venceria pela 83ª vez na carreira.

Na briga do segundo pelotão, uma equipe que soube ler bem a situação de pista levou a vantagem: a Racing Point chamou Sergio Perez aos boxes na volta 20 e colocou os pneus duros, provavelmente deixando a tática aberta para ver o que aconteceria no final da prova – o que a Ferrari tinha que ter feito com Leclerc. E a Renault apostou que as temperaturas mais altas favoreceriam o pneu duro e colocou Ricciardo neste composto desde o início da prova. Ele faria mais de 50 voltas sem trocar pneus e, com isso, foi superando seus oponentes para ir de 13º a oitavo. Moral da história? Não foi uma corrida fácil de ler, mas alguns estrategistas – e pilotos – justificaram seus salários no México.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Nato Velloso disse:

    Olá Julianne!
    Cada vez mais me apaixono pela sua escrita incrivelmente afinada e com detalhes técnicos e táticos, a ponto de fazer as corridas de F1 parecerem um jogo de xadrez.
    Um trecho do texto “No final das contas, foi uma grande vitória tanto do piloto, quanto da equipe.” Me fez parar para pensar o quão imbatível, e perfeito, é o conjunto Hamilton-Mercedes e o quanto a Ferrari fica devendo ao Vettel nas corridas.
    Grande abraço a todos do blog!

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