Receita perfeita

Campeonato decidido, um traçado que permite ultrapassagens, condições de pista muito diferentes entre a sexta-feira de treinos livres e o domingo, e motores chegando no final da temporada já no limite, e um Safety Car que veio na hora certa para recompactar o grid quando só cinco carros estavam na mesma volta. Desta vez, nem precisou chover em Interlagos para termos muito provavelmente a corrida mais aberta da temporada. E que teve a

o mesmo tempo manobras espetaculares e campeões do mundo exagerando na dose.

Não foi à toa que Max Verstappen estava com um sorriso de orelha a orelha quando saiu do carro. Não é todo dia que se ganha uma corrida ultrapassando Lewis Hamilton em duas oportunidades, uma por dentro e, outra, que ele elegeu como sua manobra favorita, por fora. Além de seu talento, ele contou também com dois fatores ao seu favor: um motor Honda muito menos rodado do que os dos rivais, e a decisão da estrategista Hannah Schmitz, que representou a Red Bull no pódio depois de ter bancado a parada de Max nos boxes no primeiro Safety Car, o que naquele momento tirou-lhe posição de pista, mas que no final das contas lhe deu a vitória.

(Aliás, o parênteses é necessário: já vinha sendo uma corrida com ultrapassagens e pilotos com estratégias diferentes, mas a única questão realmente em aberto quando o motor de Bottas abriu o bico era se Vettel conseguiria fazer a estratégia de uma parada funcionar, mas mesmo isso parecia, a cada volta, mais improvável. O SC, que acabou acontecendo porque o carro de Bottas ficou travado num buraco, não só reagrupou o pelotão como também a regra dos pilotos descontarem a volta que levaram colocou caras como Gasly e Sainz de volta na corrida).

Mas Verstappen não era, de longe, o mais feliz após a bandeirada. Pierre Gasly admitiu que nenhum champanhe francês chegou perto do sabor especial que ele sentiu no pódio em Interlagos, ainda mais com todo o calor da galera que invadiu a pista. No final das contas, parece que Marko acertou mesmo primeiro em fazer a inversão entre ele e Albon no meio do ano, e agora em manter os

 dois onde estão. Foi a saída de inesperada Ricciardo que atrapalhou os planos de sucessão na Red Bull, e agora um piloto que é veloz, mas que sempre precisou de mais tempo para se desenvolver está fazendo um ótimo trabalho na Toro Rosso, e o outro, mais calmo e constante, terá condições de, finalmente, ter um pouco de continuidade na carreira depois da loucura que sua carreira se tornou nos últimos anos.

Esse é o consolo de Albon: seus pódios e vitórias são uma questão de tempo. Por ora, foi atingido numa manobra pra lá de otimista e até meio fora de comum de Lewis Hamilton, que logo admitiu o erro e sequer quis se defender para os comissários.

Desconheço como foi todo esse processo entre ele saber que estava sendo investigado e pedir para o representante da Mercedes comunicar a FIA que se considerava culpado pelo toque. Mas se tudo tivesse sido mais ágil poderíamos ter tido uma festa ainda maior no pódio: sério candidato a um dos três melhores pilotos da temporada, Carlos Sainz mais uma vez mostrou que é o verdadeiro “smooth operator” do grid, indo de último a terceiro e o único a conseguir fazer apenas uma parada numa prova com dois SCs no final, ou seja, em que os pilotos com pneus mais desgastados estavam bastante expostos.

Gasly e Sainz só tiveram a chance de estrear no pódio porque a Ferrari viveu outro momento de autodestruição. Leclerc vinha com pneus mais novos, mas Vettel estava até conseguindo responder em termos de ritmo, até que levou a ultrapassagem no S do Senna. Ele teria o DRS na Reta Oposta, e grandes chances de dar o troco. Mas primeiro surpreendeu escolhendo o lado de fora, mesmo com Leclerc ficando no meio da pista, e depois tentou diminuir o espaço do companheiro, numa cena muito parecida com o GP da Turquia de 2010. Como as Red Bull naquela ocasião, parecia que as Ferrari foram atraídas magneticamente.

Com isso, e com a quebra do motor de Bottas, que só deixou claro como a Mercedes está no limite nesse quesito, e indicando que isso pode explicar em boa parte por que eles estão mais lentos nas retas que a Ferrari e agora também que a Honda, no lucro após todas as punições ao longo do ano, tivemos o primeiro pódio da era híbrida sem um representante do time alemão e do italiano. Um aperitivo de como a Fórmula 1 pode ser bacana numa questão de detalhes.

 

3 comentários Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Depois de alguns anos , voltei à Interlagos, claro que amo o esporte!
    Mas …
    Que esporte incrível!
    Que pista icônica!
    Que corrida!

    Sai do autódromo como há 26 anos atrás, extasiado !!

    Longa vida a Interlagos!

    Curtido por 1 pessoa

  2. André Alves disse:

    Sainz também está no meu top 3 da temporada. Ele, Verstappen e Hamilton foram os melhores, sem dúvidas.

    Sobre a Ferrari, li e ouvi muito coisa a respeito de falta de comando na equipe e até msm uma possível crise. É tudo isso mesmo ou estão aproveitando um incidente de corrida pra fazer sensacionalismo? Binotto corre risco de perder o cargo pra próxima temporada?

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  3. Leonardo Preuss disse:

    Quase ninguém fala sobre isso, mas a Mercedes reduziu potência desde o GP da Hungria deste ano. Eles fizeram isso para simular uma falsa competitividade e evitar pressão sobre o regulamento de 2021 que foi decidido em Outubro.

    As Mercedes estavam muito a frente das outras equipes antes das férias (vide GP da França) e foram melhores ou iguais quando comparado ao ano passado. Já depois das férias as Mercedes caíram de desempenho em relação ao ano anterior (os tempos de quali são inferiores) e às outras equipes. Até a Redbull com um carro praticamente novo e outro fornecedor de motor melhorou nessa segunda metade do campeonato. As Mercedes pioraram em relação ao ano anterior? Lógico que não.

    A Ferrari realmente melhorou significativamente após as férias, mas essa percepção foi amplificada pelo fato da Mercedes ter tirado o pé. A Redbull melhorou, mas pouca coisa, não o suficiente para competir com a Mercedes.

    Ano que vem vai ser outro vareio da Mercedes, e quem não acredita que a Mercedes reduziu potência, vai ficar com cara de tacho sem saber como eles fizeram essa mágica…

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