Estratégia do GP do Brasil e os segredos de Interlagos

Tão logo acabou o GP do Brasil, Ross Brawn afirmou que a corrida do último domingo era um caso a ser estudado. Quer tirar exemplos para, quem sabe, mudar alguma regra para que provas como a que vimos em Interlagos sejam mais comuns. Ora, um fator que ajudou a abrir a primeira parte da corrida, fazendo inclusive time grande errar foi a diferença de temperatura da chuvosa sexta para o ensolarado domingo, de 24C para 48C na pista. O que fazer então, controlar o clima? Não é de hoje (ou de domingo) que está claro que diminuir os dados das equipes antes da corrida ajuda, mas eles insistiram em manter os treinos livres como estão para 2021, apenas fazendo com que o parc fermé comece mais cedo (ou seja, mudanças fundamentais não poderão ser feitas depois que começa o FP3).

Essa falta de conhecimento sobre quanto os compostos durariam no calor e qual deles seria a melhor opção pautou a primeira parte da corrida, que foi emocionante, mas que tinha tudo para se estabilizar.

A corrida começou quente, com Hamilton passando Vettel por fora, Leclerc deixando para trás Norris e Ricciardo, que potencialmente poderiam complicar sua vida, chegando em 10 voltas aos sexto lugar, e Sainz pulando de 20º para 15º em quatro voltas. A evolução rápida de Leclerc deveria ter chamado a atenção para o rendimento do pneu médio, mas nem todas as equipes entenderam o recado.

Embora a Pirelli insistisse que, com as temperaturas mais altas, o duro poderia entrar em ação, a opção para este ano tinha sido levar a Interlagos os três compostos mais duros (C1, C2 e C3) e, por isso, embora durável, ele era lento demais. O jeito, então, seria fazer duas paradas.

Lá na frente, a Mercedes logo entendeu que essa era a única chance de vencer a corrida com Hamilton, que vinha tirando, pouco a pouco, a vantagem de Verstappen na ponta. O melhor trato com os pneus era o único trunfo que a Mercedes tinha neste final de semana, algo que tem a ver com a altitude, como também é o resultado da maneira como a Honda lidou com seus motores durante o ano: o fato dos motores Honda, trocados pela última vez na Rússia, estarem mais frescos, além de já lidarem melhor trabalhando com menos oxigênio no ar, fez a diferença.

Mesmo assim, Lewis Hamilton construiu uma chance de ouro: na volta 20, tinha chegado perto o suficiente, a menos de 2s, de Max Verstappen, que começava a ter dificuldades com os pneus. Era a hora de tentar o undercut. O inglês fez sua parada e voou na volta de retorno dos boxes. Mas ele precisava de mais do que isso: sabendo da vantagem de potência do motor Honda em Interlagos, era fundamental que ele escapasse da zona de DRS, caso contrário não conseguiria responder. Para isso, tinha que desligar a função de recarga automática das baterias na segunda volta após a parada, quando já tinha Max na sua cola (já que o undercut tinha funcionado e Verstappen, mesmo respondendo à parada de Hamilton na volta seguinte, tinha voltado atrás) para tentar abrir pelo menos 1s.

Mas a tática não deu certo. Hamilton chegou a fugir do DRS no primeiro ponto de ativação, na reta principal, mas já tinha acabado com suas baterias. Teria que sobreviver uma volta para carregá-las de novo. Max não lhe deu esse luxo, e o passou com mais de 30km/h de vantagem do DRS na reta oposta + a diferença da energia híbrida.

Com um ritmo inferior (na volta 20, Sebastian Vettel já estava a mais de 7s do líder), restou à Ferrari tentar deixar em aberto se adotaria a tática de uma parada, chamando o alemão só na volta 25 e colocando-o com os médios, enquanto Hamilton e Verstappen tinham se comprometido a fazer duas paradas, com os macios. Sua função era se manter a menos de 22s dos líderes e fazer com que eles tivessem que ultrapassá-lo na pista no final. Porém, parecia uma missão quase impossível.

Na volta 43, a Mercedes encontrou outro vão na pista para, novamente, tentar o undercut com Hamilton em cima de Verstappen. Mas, sabendo o que tinha acontecido da primeira vez, a Red Bull sequer pensou em antecipar a parada de Max para se defender. E, de fato, não funcionou. Verstappen parou na volta seguinte e se manteve na ponta.

Bottas estava sofrendo com o equilíbrio do carro e a Mercedes cometeu o erro de colocá-lo no lento composto duro, algo que teve de corrigir 15 voltas depois. Curiosamente, a Ferrari cometeria o mesmo erro com Leclerc três voltas depois, mas deixaria por isso mesmo. A parada a mais o colocou atrás do monegasco e seu motor, que já dava sinais de estar no fim da vida útil desde a classificação, quando ele era muito mais lento que os demais nas retas, abriu o bico. O finlandês parou o carro num lugar seguro, mas ele ficou travado num buraco e os fiscais não conseguiram retirá-lo sem o trator – Ross, taí uma receita infalível! – e o SC teve de ser chamado.

Faltavam 20 voltas para o final, Vettel já tinha desistido da tática de uma parada, o carro mais rápido do fim de semana estava na frente e só cinco pilotos estavam na mesma volta. Tinha tudo para ser um fim de corrida processional até o SC provocado por Bottas. E tudo o que aconteceu dali em diante foi definido por este momento, já que alguns pilotos aproveitaram para parar, outros não, gerando diferenças entre compostos, e a regra que permite que os carros recuperem uma volta colocaria o meio do pelotão de volta na briga.

Sabendo que Hamilton pararia caso Verstappen seguisse reto, a Red Bull chamou o holandês, decisão difícil de tomar para quem está na ponta, mas muito mais fácil numa pista como Interlagos do que em Mônaco, para dar um exemplo extremo. Lewis fez o inverso do rival, como era de se esperar, e passou a pedir toda potência do mundo para a relargada, sabendo que seria atacado.

Mais atrás, Sainz estava em nono antes do SC, num misto das ultrapassagens que fez e da adoção da tática de uma parada, que ele seria o único a conseguir executar. Começaria a parte mais impressionante da sua corrida, conseguindo se segurar como pelotão compactado e pneus mais velhos. Mas ele contou com a sorte também, pois estava “protegido” por Raikkonen e Giovinazzi, que também não pararam e estavam logo atrás. Mais à frente, Albon não parou, depois passou Vettel, que também ficou na pista, e pulou para terceiro, deixando o alemão na mira de Leclerc, que tinha borracha nova.

O que aconteceu na briga das Ferrari ficou bem documentado. Com os dois fora, Gasly, que tivera um ótimo ritmo o tempo todo, mantendo-se em sétimo correndo sozinho por toda a corrida, agora aproveitava que três carros dos grandes tinham saído de sua frente e era o quarto. Com sua parada a menos, Sainz era quinto, seguido pelas duas Alfa. No final das contas, todos os que decidiram não parar no SC de Bottas se deram bem. Menos Hamilton, que seria engolido por Verstappen, por fora. Como muitas vezes aconteceu com o inglês contra seus adversários, não importaria a tática, o carro mais rápido do dia ganharia.

O hexacampeão ainda tentou uma última cartada, pedindo para fazer o pitstop no SC seguinte, causado pelas Ferrari, na volta 66. Voltando em quarto, ele teria 5 voltas para recuperar o terreno perdido, e partiu para o tudo ou nada, passando Gasly, mas errando na dose com Albon. Com o toque entre ambos, o francês agradeceu e conquistou o primeiro pódio, com o segundo lugar. Hamilton ainda conseguiu continuar e cruzou em terceiro, mas foi punido pelo toque e Sainz acabou comemorando, também, seu primeiro pódio.

Em última análise, foram os detalhes da era híbrida que fizeram Interlagos vibrar como nos velhos tempos: o “apagão” de Hamilton e, principalmente, o desgaste de motores que têm de fazer pelo menos sete corridas para amortizar parte dos gastos com uma unidade de potência cara demais.

6 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Não entendi a tática da Mercedes em não chamar Bottas para o box com o motor visivelmente (fumaças) arruinado! Este foi o fator de não se ter pela primeira vez na história um pódium com motores HONDA… Ah, e isso até que “explica” a não ação da Mercedes, né?! Será que a FIA vai levar para Abu Dhabi um caminhão cheio de “buracos” e espalhá-los nos acostamentos???

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    1. joaocrz disse:

      Também não entendi. Até gostaria de ouvir o rápido daquela volta que o motor começou a fumar. talvez, fez parte da “estratégia” o Bottas quebrar em algum lugar da pista, para que o safaety- car pudesse entrar e Hamilton pudesse entrar nos boxes para trocar o pneu mais uma vez.

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  2. Adriana Santos disse:

    Acredito que a Mercedes estava poupando a usina de força . A tecnologia alemã tem sido suprema na F-1 e foi muito estranho o carro do Max da Rede Bull passar duas vezes pelo Lewis do time alemão. O motores Ferrari, Renault e Honda ainda estão devendo demais.

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  3. Kyle Long disse:

    As duas ultrapassagens do Verstappen sobre o Hamilton foram no final da reta principal.

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    1. Ads disse:

      No México e na Áustria o motor Honda se deu bem e nos EUA uma corrida antes o Verstappen classificou pouco abaixo a Mercedes.

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  4. Robson Coimbra disse:

    Uma analogia sobre a Ferrari: Você esta em uma estrada e um ônibus o ultrapassa pela direita para logo em seguida virar a esquerda para fazer a curva. Você vira o volante para não bater ou diz dane-se e segue em rota de colisão, pensa, se o cara bater em mim vou processa-lo ? Acho que seria melhor virar o volante e não ter batida nem processo.

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