Estratégia do GP de Abu Dhabi e os pilotos tomando a dianteira

Um carro de Fórmula 1 nunca é feito especificamente para uma pista ou um tipo de situação. No sábado, Lewis Hamilton explicava, por exemplo, que a Mercedes focou tanto em melhorar o carro para as corridas, depois de sempre sofrer quando estava no tráfego nos anos anteriores que o carro decaiu bastante na classificação. Mas existe algo na filosofia do carro alemão nos últimos seis anos que se casa perfeitamente com o circuito de Abu Dhabi.

Agora já são seis vitórias, vindas de seis vezes em que os dois carros prateados também fizeram os melhores tempos na classificação. A vantagem, como nos anos anteriores, veio principalmente no travado terceiro setor. A Mercedes é boa em curvas de baixa e no cuidado com os pneus e, no asfalto abrasivo de Yas Marina, são dois trunfos importantes.

Com Valtteri Bottas fora da luta pela vitória pela punição pela troca de motor, Hamilton passeou em sua última corrida com o carro que lhe ajudou a conquistar o hexa, alheio ao alto consumo de pneus que complicou a vida das Ferrari, cujo carro escorregava muito principalmente no tal terceiro setor.

Na largada, as duas Red Bull pareceram sofrer com o aquecimento dos pneus médios com os quais escolheram largar: Verstappen foi superado por Leclerc e Albon sofreu para permanecer à frente das duas McLaren. Único no top 5 que escolheu largar com os macios, por estar se sentindo melhor com o composto que dá mais aderência nas entradas de curva, Sebastian Vettel não conseguiu aproveitar a aderência superior para ganhar posições, e as primeiras colocações ficaram com Hamilton (já claramente muito superior), Leclerc, Verstappen, Vettel e Albon.

A Pirelli previa que seria uma corrida feita facilmente com uma parada para quem largasse com o médio, mas não para o macio. Ou seja, seria mais uma daquelas em que o 11º colocado no grid – Perez – seria premiado na batalha do meio do pelotão, como de fato aconteceu (ainda que ele tivesse que esperar até a última volta para passar Norris, se arrastando após fazer só uma parada).

O fato das duas McLaren e das duas Renault (os quatro carros mais lentos que tiveram que largar com o macio porque estavam no top 10) estarem travando o pelotão poderia ter ajudado e muito Valtteri Bottas a chegar no pódio que ele almejava (mesmo reconhecendo que um pódio sem champanhe não era lá essas coisas para ele), mas uma pane no sistema que controla os dados da FIA que controlam quem pode ativar o DRS fez com que a asa móvel fosse desabilitada por 16 voltas, bem no momento mais crucial para Bottas deixar o pelotão para trás. Após a bandeirada, o diretor de provas Michael Masi não quis falar de quem foi a culpa, mas a forte presença de gente da FOM na sala (algo que eu só tinha visto quando deu aquele outro rolo da corrida ter terminado uma volta antes devido a uma falha do painel, no Japão) deu um belo indicativo de quem cuida do tal sistema.

Além de dificultar a vida de Bottas, a falha do DRS também fez com que as duas McLaren e Ricciardo, que anteciparam suas paradas, ficassem presos atrás da Haas de Grosjean, facilitando a vida de Hulkenberg – e mesmo assim ele terminaria a prova fora dos pontos.

Voltando à disputa da frente, quando a janela de pitstops abriu a Ferrari tinha o seguinte problema: Leclerc, mesmo com os médios, e Vettel, que tinha conseguido fazer mais voltas do que se imaginava com os macios, estavam reclamando do desgaste. E o monegasco não tinha conseguido abrir em relação a Verstappen. Temendo que a Red Bull fizesse um undercut, a decisão foi parar os dois na mesma volta. E um problema para trocar o traseiro esquerdo de Vettel lhe custou 1s5. Foi o suficiente para a Red Bull tentar reagir e chamar Albon, mas ele não ganhou tempo o suficiente para voltar à frente de Vettel.

Hamilton, Verstappen e Bottas continuaram na pista, com missões diferentes: Bottas tinha que esperar até ter o equivalente a um pit stop de vantagem para o pelotão B; Verstappen tinha que abrir também um pitstop de diferença para Leclerc e Hamilton tinha que esperar Verstappen parar.

Só o holandês não conseguiu, e acabou voltando 5s atrás da Ferrari, embora com muito mais ritmo. Com o DRS funcionando novamente, não teve dificuldade para passar o monegasco e retomar o segundo lugar. Bottas, com pneus mais novos e toda a potência do motor, vinha sendo 1s por volta mais rápido quando passou Albon. 

Pouco antes disso, Vettel tinha ido para o box para sua segunda parada, na volta 38. A tentativa era, já imaginando que seria superado na pista, como Leclerc tinha acabado de ser, tentar algo diferente. E foi um pedido do alemão.

O mesmo estava acontecendo no outro cockpit, algo curioso três corrida depois que Leclerc prometeu ser mais assertivo no rádio quanto à estratégia, após aceitar passivamente a tática de duas paradas que o tirou da vitória no México. O monegasco insistiu muito para que o parassem até ser atendido. Curiosamente, foi mais uma parada dupla da Ferrari, e de novo Vettel perdeu mais tempo que Leclerc. 

Quem também pediu para mudar de estratégia foi Carlos Sainz, que com isso chegou na frente das duas Renault na briga particular entre os que largaram com o macio no top 10. Já Norris teve um ritmo tão bom que quase bateu os dois mais bem colocados que largaram com os médios na luta da F1 B – sofreu a ultrapassagem de Perez na última volta, mas superou Kvyat.

Lá na frente, Hamilton se despediu de 2019 com uma vitória absoluta, com Verstappen em segundo e Leclerc em terceiro, segurando-se para não ser superado por Bottas mesmo com pneus mais novos, evidenciando uma tarde dura para a Ferrari. Vettel ainda conseguiu superar Albon mesmo com um pitstop a mais e o tailandês fechou o top 6 de uma corrida até mais movimentada que o normal em Abu Dhabi, mas sem surpresas.

3 comentários Adicione o seu

  1. Wagner de Almeida disse:

    Eu de casa já prevejo que a estratégia da Ferrari não vai funcionar… porquê não usar macio-médio-médio em todas essas corridas em que ela sofre com desgaste? Já viram em várias etapas que o ritmo de corrida com pneu duro é horrível… O certo seria largar com macio, e espaçar as paradas com médio, e andar o tempo todo em ritmo de classificação… Lembro que Alonso fazia isso muito bem na sua época, e venceu um gp da Espanha magnificamente com essa estratégia… Enquanto todo mundo se arrastava pra fazer uma parada só, ele andava em ritmo mais rápido pra fazer duas paradas… Aí a Ferrari me para o Leclerc que ainda tava com ritmo bom cedo demais, deixa o cara se arrastando num ritmo horrível com pneu duro e só no final da corrida, com 15 voltas resta rés, faz o garoto perder tempo numa parada inútil. Era para largar de macio, parar para colocar médio, andar rápido, depois parar de novo com pelo menos 20 a 25 voltas do fim é voltar a andar rápido de novo de médio.

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  2. Robson Coimbra disse:

    Adoro corridas, ia a Interlagos desde da década de 60, os pneus eram o Cinturato Pirelli e a galera acelerava o tempo todo, hoje a competição deixou de ser entre os bólidos para ser entre as estratégias de pneus, quem vai com qual especificação dentre as 3 distribuidas e quem economiza mais borracha, como o Perez por exemplo, sinceramente não gosto desse protagonismo dos pneus.

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  3. E o Hamilton fez Grand Chelem.

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