Em busca de um legado

“Não quero ser apenas o maior piloto da história da Mercedes”. A frase pode soar um tanto quanto arrogante, mas foi solta por Lewis Hamilton durante uma entrevista em que conversamos muito sobre seu envolvimento em questões ambientais. Essa é apenas a última das empreitadas do inglês, que talvez não tenha idade para isso, mas muito provavelmente seja o piloto mais millennial do grid. Mesmo próximo de chegar nos números de Michael Schumacher e se tornar o mais vencedor da história, seu título máximo parece ser encontrar um propósito.

Enquanto tem vida fácil nas pistas, Hamilton usa a Fórmula 1 como plataforma para dar publicidade a seus outros projetos e visibilidade a questões que ele considera importantes. Os desafios que vêm com isso ficaram claros para o inglês durante os últimos dois anos, quando essa tendência se intensificou: quanto mais ele entra no estilo de vida do mundo da moda, marcando presença no maior número possível de desfiles e festas, maior a cobrança nas pistas, algo com que ele lidou bem até agora. E, quanto mais ele fala em sustentabilidade, mais é questionado se não está no esporte errado.

As mais ou menos 6h30 em que os carros de Fórmula 1 podem ficar na pista – na prática, algo em torno de 4h descontando o tempo em que ficam parados nos boxes – usando o motor mais termoeficiente do mundo representam pouco em termos de poluição, mas desde os quilômetros e mais quilômetros de viagens de avião até os pneus que só duram algumas voltas, é fácil dizer que Hamilton deveria primeiro deixar as pistas para depois começar a falar em sustentabilidade. Mas ele sabe que esse seria o jeito fácil de fazer: o mais difícil é mudar o mundo da Fórmula 1 ao mesmo tempo em que usa-o para influenciar as pessoas.

E é aí que mora o aspecto humano mais interessante dessa história. Hamilton gosta de dizer que o desafio para se manter na ponta dentro das pistas está cada vez maior, mas o que vimos nesta temporada foi ele pontuando mais do que qualquer um inclusive depois que a Mercedes teve sua hegemonia quebrada no GP da Áustria. Nem precisou ser tão brilhante como de costume nas classificações para ganhar com sobras. 

Talvez o faça novamente ano que vem. Não surpreende, então, que ele busque desafios fora das pistas. 

Porém, à medida que as metas de Hamilton vão ficando mais ambiciosas, vale a reflexão de como isso vai refletir quando ele, de fato, for ameaçado nas pistas. Fica a questão, ainda, se ele vai se importar o suficiente depois tatear o “mundão”, bem longe do círculo do automobilismo em que foi inserido desde a infância – embora muitos tenham tentado evitar que esse fosse o mundo dele. Afinal, de que importa ser o melhor piloto da história da Mercedes, ou mesmo da história da F-1, quando ele pode se tornar o piloto que mudou os rumos da categoria?

1 comentário Adicione o seu

  1. Wesley Andrade disse:

    É por essas questões que tenho gostado mais do Hamilton com o passar do tempo. O inglês mostra para todos, desde o início da sua carreira na F1, que ele nunca esteve preso ao restrito mundo do automobilismo. Hoje, vemos uma pessoa em Paz consigo mesma.

    Curtir

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