Politicagem à vista

Enquanto os engenheiros finalizam os carros de 2020, que serão os últimos de uma era, os bastidores da Fórmula 1 continuam em ebulição. Cartas importantes estão sendo jogadas e os acontecimentos dos últimos meses geraram um cenário pra lá de tumultuado. Chase Carey tenta fechar a divisão da receita da categoria entre as equipes, tirando muitos dos privilégios construídos na era Bernie – o que, muitos dizem no paddock, seria seu ato final antes da aposentadoria – ao mesmo tempo em que Red Bull e Mercedes se sentem traídas pela Ferrari.

Afinal, eles esperavam que o time italiano usasse seu poder de veto na votação das regras de 2021, mas os italianos não o fizeram. Quem acompanhou os drops dos bastidores soube que, já no México, antes do anúncio oficial ferrarista, Toto Wolff estava irritadíssimo.

Há quem diga que ele apostava no veto para costurar sua maior articulação feita até hoje no paddock, de olho justamente no posto de Chase. Parece até que ele andou lendo a biografia de Bernie Ecclestone, que chegou ao poder da F-1 justamente assim, fazendo o meio de campo entre todos os poderosos para tornar-se o maior deles. Não que isso tenha começado hoje: há anos Wolff vai além dos limites da Mercedes e seus clientes em suas articulações.

Mas essa jogada foi neutralizada pela própria Ferrari, que se colocou em uma situação política favorável ao dar a bênção às regras. Eles estão com a faca e o queijo na mão no momento: de bem com a Liberty, e com Jean Todt, que vem fazendo vista grossa para a questão da legalidade do motor ferrarista. Afinal, a Mercedes já dominou por muito tempo e o grande pupilo de seu filho veste vermelho, então faz todo o sentido.

Voltando à questão da divisão dos lucros, quando fui sondar os times médios, eles pareciam razoavelmente satisfeitos. Ouvi coisas como “está mais justo” e “estamos chegando lá”. Isso ainda em outubro. Ainda assim, a novela da renovação dos contratos de todas as equipes deve continuar pelos primeiros meses do ano que vem, indicando que são os grandes que não estão de acordo com a nova ordem.

Afinal, seriam duas bordoadas: a primeira é o teto de gastos, ainda que eles tenham conseguido tirar gastos importantes – pilotos, marketing – da lista. Com isso, embora o limite seja de 175 milhões, estima-se que as despesas reais para os grandes cheguem nos 250 milhões. Ainda assim, um time como a Mercedes gasta bem mais de 400 milhões por ano, então haverá, sim, uma necessidade de reajuste.

Na complicada configuração atual, a Ferrari ganha mais do que qualquer outra equipe mesmo se não ganhar o campeonato. Isso porque eles recebem, de cara, 73 milhões de dólares só por serem a equipe mais antiga, e ainda fazem parte da lista de cinco times que ganham um adicional por valor histórico (junto de Mercedes, Red Bull, McLaren e Williams – sim, é totalmente questionável essa divisão, mas foi a estratégia de Bernie de 2012). Ela é ainda mais maluca aos olhos dos norte-americanos, acostumados a fórmulas que visam a manutenção da competitividade entre seus times/franquias. Não precisa ser vidente para prever muita reunião tensa por aí.

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