Um exemplo para a F-1

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Marcio Ventura

Falar da temporada de 2020 será o mesmo que chover no molhado já que, com o atual cenário, o título será novamente disputado entre as três principais equipes (Mercedes, Ferrari e Red Bull), principalmente em função da atual divisão de renda do esporte.

É assim que desejo demonstrar o que a Fórmula 1 (Liberty + FIA + equipes), podem aprender com os quase 30 anos de Premier League.

A Premier League é o maior campeonato de futebol do mundo, não só em termos de receita, como também por seu número crescente de fãs – eu aqui, por exemplo, há quatro anos acompanho este campeonato.

(Um parênteses da Ju aqui: a transformação do campeonato inglês na Premier League é um case interessantíssimo. O modelo financeiro adotado surgiu da ameaça dos grandes clubes de fazerem sua própria liga, nos anos 1980. Nessa época, o futebol inglês era bem diferente do que é hoje: a violência tomou a conta dos estádios a ponto da Inglaterra ser banida de competições internacionais; os jogadores ingleses preferiam jogar na Itália e na Espanha; os estádios eram sucateados e atraíam poucos fãs. A situação começou a mudar com a nova distribuição de dinheiro acordada em 1986 e depois da adoção de regras baseadas no relatório Taylor, que estabeleceu novos padrões e condutas para os clubes especialmente em relação à segurança. O campeonato como um todo se tornou um negócio melhor para as TVs, que colocaram mais dinheiro. E esse dinheiro foi mais bem distribuído. E um dos patinhos feios do futebol europeu virou o maior do mundo)

E o que faz este interesse subir a cada temporada? O equilíbrio entre as equipes, a possibilidade de uma equipe fora do Big Six (Manchester United, Manchester City, Arsenal, Chelsea, Tottenham e Liverpool), ser competitiva e até ser campeã, como o Leicester City na temporada 2015/2016.

Voltando para a Fórmula1, temos hoje o cenário da Big Tree (mais para Big One nas últimas seis temporadas, visto o domínio completo que a Mercedes impôs, fato antes nunca visto na categoria). E olha que acompanho a mesma desde 1980, quando um australiano, chamado Alan Jones, disputou aquele campeonato com o nosso tricampeão Nelson Piquet.

Bom, qual foi o segredo da Premier League, e que na minha opinião está nas mãos das equipes, FIA e Liberty: refazer a divisão dos valores arrecadados com os direitos de transmissão das mídias, patrocinadores e em cada etapa, de forma mais igualitária e que permita que as equipes do meio e fim de pelotão possam trabalhar com mais folga nos orçamentos e assim desenvolverem monopostos mais competitivos. Honestamente, foi ridículo o que ocorreu na etapa da Rússia, onde a Williams recolheu o Kubica da pista de forma a evitar um acidente, pois poderia não ter peças para as etapas finais do mundial. Uma categoria que se valoriza hoje pela tecnologia que implanta em seus carros e destes para os carros de rua, não pode ter este tipo de cenário em seu campeonato, assim como não é o correto ver a falência da Williams, pois se a Ferrari faz parte da história e fatura US$ 100 milhões ano por isso, porque a Williams, por ser a última equipe das tradicionais garagens inglesas, não teria direito a uma verba extra!

(Faço outro parênteses: o total recebido pela Ferrari em 2019 por questões que não dependem do resultado na pista chega a 114 milhões de dólares. A Williams recebe, sim, um adicional pelo valor histórico, mas ele foi de 10 milhões neste ano)

Assim, na minha opinião, o certo seria acabar com estes privilégios e permitir que as 10 equipes do grid possam disputar o campeonato em melhores condições. É claro que sempre haverá os favoritos e os que irão completar o grid, mas como seria bom ver as equipes com diferenças menores de tempo entre si e com a possibilidade de conquistarem posições a cada etapa, pois não dá apenas para depender da condição meteorológica para que tenhamos treinos classificatórios ou etapas com cenários diferentes do que vem ocorrendo em condições normais de temperatura e pressão.

Não saberia dizer se a divisão da Premier League seria a melhor para a Fórmula 1: a princípio, 50% do faturamento é dividido em partes iguais e os outros 50% em uma escala de classificação e prêmios para os vencedores, porém é fato que nestes 30 anos, nenhuma liga cresceu tanto em todos os sentidos como a Premier League e por isso que vejo que a Fórmula 1 precisa de alguma forma entender isso, para no futuro ter um campeonato muito melhor, pois com isso, sem sombra de dúvidas, o faturamento irá crescer a níveis nunca vistos, já que a sua popularidade irá aumentar a cada ano, após a decadência das últimas duas décadas.

Assim, que 2021, seja realmente um ano de mudanças, não apenas na parte técnica, e não da continuidade que a Fórmula 1 se encontra.

1 comentário Adicione o seu

  1. Érlon Souza disse:

    Bom dia a todos.

    O texto ficou ótimo, parabéns. É antes da crítica quero dizer que também concordo é torço para uma F1 mais competitiva. Porém, se analisarmos os fatos cruamente, nos últimos 30 anos de Premier League, apenas 3 vezes um time do “big 6” não venceu a temporada. Foram casos esporádicos, pontos fora da curva que, traçando um paralelo estatístico com a fórmula 1, não ficam longe de exemplos como s Brawn GP…

    Acho que a redistribuição de renda por si só vai no máximo melhorar a briga no meio do pelotão.

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