Alonso x Vettel e a última década na Ferrari

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Abdul Rahim Abou Ghonaim Neto
twitter/instagram: @abdulragn

Alonso e Vettel lideraram a Ferrari nos últimos 10 anos: o espanhol, de 2010 a 2014, e o alemão, que chegou para substituí-lo, e permanece até hoje na equipe.

Em 2010, Alonso, com uma Ferrari que terminaria apenas em terceiro lugar no campeonato de construtores, conseguiu brigar pelo título contra uma Red Bull que fez 15 poles naquele mesmo ano. Alonso chegou à última etapa na liderança do campeonato, mas um erro estratégico da Ferrari lhe custou o título. Vettel, que chegou em Abu Dhabi atrás até mesmo de Webber na tabela, venceu e se tornou campeão.

Em 2011 houve amplo domínio da Red Bull, que fez 18 poles. Vettel conseguiu 11 vitórias, e Alonso, apenas uma.

A temporada de 2012 começou equilibrada, Alonso liderando a primeira metade com inteligência e atuações épicas, como as poles na chuva na Alemanha e na Grã Bretanha, e vitórias como a de Valência, largando da 11a posição, e na Malásia, sob chuva. Porém, na segunda metade, foi vítima de acidentes e a Red Bull voltou a dominar, com Vettel vencendo o campeonato, apenas três pontos a sua frente.

O domínio da Red Bull aumentou em 2013 [na verdade, o campeonato estava bastante parelho até os estouros de pneus em Silverstone obrigarem a Pirelli a mudar os compostos, o que favoreceu a Red Bull e Vettel], com Vettel vencendo 13 corridas e chegando ao tetracampeonato. Alonso ainda conseguiu duas vitórias, ficando com o vice.

O ano de 2014 é bastante representativo porque, enquanto Alonso destruía Raikkonen, chegando ao final da temporada com quase o triplo de pontos que seu companheiro de equipe, Vettel, na Red Bull, era batido por Ricciardo que, estreando na equipe, venceu três corridas e largou 12 vezes a sua frente. Vettel não venceu nesse ano, chegando em quinto no campeonato, 71 pontos atrás do companheiro. Ele, então, deixou a Red Bull.

Com a dificílima tarefa de substituir Alonso, Vettel chegou na Ferrari em 2015, conseguindo três vitórias e marcando 278 pontos contra 158 de seu companheiro de equipe. Um desempenho mais discreto e modesto que o de Alonso em relação a Raikkonen, apenas um ano antes, em condições bem parecidas.

No ano seguinte, a Ferrari teve uma queda de performance, e Vettel teve desempenho próximo ao de Raikkonen, chegando apenas 26 pontos a sua frente ao final da temporada.

Em 2017, a Ferrari tinha um carro competitivo, capaz de brigar por vitórias e até pelo título, mas erros de Vettel, como no Azerbaijão, onde propositalmente bateu em Hamilton, e em Singapura, onde causou um acidente na largada, custaram vitórias e pontos que acabaram com as chances da Ferrari de lutar pelo campeonato, vencido pela última vez há dez anos.

Quando a Ferrari finalmente conseguiu construir o melhor carro do grid, com uma unidade de potência que lhe dava grande vantagem, principalmente na classificação, Vettel mostrou que definitivamente não tinha condições de liderar a equipe, que provou ter um carro competitivo já no início de 2018, obtendo duas vitórias nas 3 primeiras corridas, mas, na 4a etapa, o gp do Azerbaijão, o alemão, largando da pole pela terceira vez no ano, cometeu o primeiro de muitos erros de muitos naquele ano. Na França, oitava etapa, Vettel, largando na terceira posição, acerta Bottas na largada, danificando seu carro e perdendo várias posições. Na 11a etapa, em casa, liderando o campeonato e largando da pole, o alemão comete o erro mais importante do ano, ao sair da pista úmida e bater enquanto liderava, abandonando a corrida, e vendo Hamilton, que largou em 14o, vencer e assumir a liderança do campeonato. Na Itália, viu Raikkonen fazer a pole, e, disputando posição com Hamilton, rodou na primeira volta da corrida. Nos GPs do Japão e Estados Unidos, voltou a rodar em disputa por posição. Foram tantos erros, alguns infantis e grosseiros, que permitiram a Hamilton conquistar o campeonato antecipadamente no México, faltando ainda duas etapas para o término da temporada. [A Mercedes, no final do campeonato, tinha um carro definitivamente melhor, depois da primeira parte ter sido bastante parelha, e isso também contribuiu para o final antecipado da disputa].

Com a chegada de Leclerc em 2019, Vettel sentiu ainda mais a pressão, continuou cometendo erros inadmissíveis, como a rodada no Bahrein, a escapada no Canadá, a batida na Grã Bretanha, outra rodada, dessa vez sozinho, na Itália, e quando jogou o carro contra Leclerc no Brasil, acabando com a corrida dos dois. Terminou o ano derrotado na classificação pelo placar de 12×9, fazendo duas poles e conquistando uma vitória, contra sete poles e duas vitórias de seu companheiro. Mesmo jovem e cometendo vários erros, Leclerc conquistou mais pontos e terminou a sua frente no campeonato de pilotos.

Vettel nunca venceu uma corrida largando além da terceira posição no grid, evidenciando a necessidade de um carro muito mais rápido que o dos concorrentes, para, dessa maneira, largar na frente e vencer, evitando disputas diretas na pista. Além dos erros recorrentes nos últimos anos, o que não era visto com tanta frequência na Red Bull, 2019 mostrou que ele talvez não seja tão rápido assim na classificação, fazendo apenas duas das nove poles da equipe. O carro era comprovadamente rápido, e um tetracampeão legítimo deve adaptar-se a qualquer equipamento e condição.

Partindo do pressuposto de que Vettel foi genial de 2010 a 2013, coincidentemente, os anos em que a Red Bull reinava na F1, seu último ano na Red Bull e seus anos na Ferrari mostraram inconsistência, debilidades e inseguranças, colocando em cheque sua genialidade, não seu talento, sem dúvida, acima da média.

Em comparação direta com Alonso, que chegou muito próximo do título em duas oportunidades com Ferraris pouco competitivas, ambos tiveram Raikkonen como companheiro, e Vettel não mostrou a mesma capacidade e força mental do espanhol, mesmo com equipamento melhor.

A Ferrari parece ter finalmente percebido que Vettel é o problema da equipe, o piloto não resistiu a pressão da mídia italiana e da Scuderia, que agora se vê forçada a ir atrás de Hamilton para substituí-lo em 2021. Mas esse movimento tem uma razão implícita, não é simplesmente a substituição de um ótimo piloto por um ainda melhor, fosse isso bastaria chamar de volta Alonso, que terminou 2018 em excelente forma, com o placar de 21×0 a seu favor sobre Vandoorne. Trazendo Hamilton, eles enfraquecem também a Mercedes, principal rival.

O balanço da última década mostra que a Ferrari deveria ter convencido Alonso a ficar na equipe (ou se o dispensou, deve ter se arrependido amargamente), ou mesmo ter trazido o outro piloto da Red Bull em 2014, Ricciardo, para a equipe.

Para 2020, resta a Ferrari apostar suas fichas em Leclerc, já com mais experiência dentro da equipe e na F1.

8 comentários Adicione o seu

  1. Wagner Almeida disse:

    O mais interessante disso tudo é que o Alonso sempre falava que o Vettel não era isso tudo… Ele sempre colocava o Hamilton como mais piloto que o Vettel e todo mundo achava que era recalque…. Parece que o espanhol estava certo…
    Obs: O Alonso mereceu muito os títulos de 2010 e 2012, poderia ser tetra hoje, o que estaria mais condizente com seu talento.

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  2. igorwright disse:

    Ju, toda sua análise é opinião estão bem embasadas pelos fatos, mas acho que você pegou um pouco pesado com o Sebastião. Ele tem uma única temporada pra se culpar por seu desempenho ruim, a de 2018, que poderia ter resultado em título caso ele não tivesse cometido tantos erros. Cogitar a permanência do Alonso na Ferrari ao comparar seu desempenho ao do Vettel é esquecer o clima péssimo que o espanhol instaurou na equipe nos últimos dois anos de contrato com ela. Ferrari não errou ao contratar e manter o Vettel por tanto tempo, afinal é política da equipe sempre ter ao menos um piloto com vasta experiência em seus cockpits. Foi um caminho natural.

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    1. Como está explicado no início do post, não é um texto meu ou que reflete minha opinião. Nestas semanas o blog está aberto a colaboradores que queiram mostrar seu trabalho

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  3. Luiz disse:

    Em 2017, a genuína cagada que, para mim, o Seb fez foi jogar o carro no Hamilton.
    Em Singapura, foi acidente mesmo. é super normal pilotos fecharem a porta na primeira curva. Deu azar que o Kimi largou super bem e o Max, para desviar do Seb, jogou o carro no Kimi..
    Sem contar a vela estragada no Japão.
    Em 2018, algumas coisas foram infortúnios mesmo.
    Na disputa com o Hamilton na Itália, foi azar. Hamilton poderia ter rodado tb.
    Nos EUA, pela câmera do cockpit, quando ele estava lado a lado com o Ricciardo, o carro deu um sobre-esterço e ao tentar corrigir, bateu..
    Depois da metade do campeonato, eu acho que ele passou a se arriscar mais, já que a Mercedes, após introduzir aquele aro furado para controlar a temperatura dos pneus traseiros, ergueu voo para não mais aterrissar, enquanto as atualizações da Ferrari colocaram um “freio de mão” no SF71. O campeonato estava fugindo das mãos dele.
    Enfim.
    A disputa foi bem parelha entre Charles e Seb em 2019. Bom lembrar que em Spa o alemão fez o jogo de equipe pro Charles vencer. Na Itália, Charles foi malandrão na classificação.

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  4. Nato Velloso disse:

    Olá a todos!
    Bem que estranhei um pouco, no sentido de pegar tão pesado com Vettel, sua resposta ao Igor explica esse fato Juliane.
    Sempre que a questão quem ganhava as corridas Vettel ou RedBull? Eram levantadas aqui no fórum, eu afirmava que o tempo diria e que se Vettel fosse capaz de lutar com um Ferrari inferior, seria ele o vencedor, caso não a RedBull.
    Me parece que os anos de 2018 e 2019 responderam a essas questões, Vettel é bom, mas em comparação grosseira, ele seria como Nigel Mansell nós anos 80/90 , potencial para ser campeão, mas somente se favorecido pela equipe e com carro melhor que os concorrentes.
    Alonso e Hamilton seria como Alain Prost ou Senna, capazes de serem campeões contra qualquer um, mesmo com um carro inferior.
    Levar em consideração o ano de 2014 para avaliar o talento de Vettel considero irrelevante pelo seguinte, todos sabem que ele queria sair da RedBull para a Ferrari, todos sabem que mudanças de regulamento é a melhor época pra isso, todos sabem que o contrato de Vettel com a RedBull tinha cláusula de rendimento. Pode ter sido proposital por parte dele (Vettel) para forçar a saída da equipe e ter caminho livre para a Ferrari.
    No mais considero o texto perfeito, e agora passados os anos de 2018 e 2019 podemos afirmar:
    Vettel nunca foi tudo isso, Alonso não tinha recalque, ele estava certo.
    Grande abraço a todos do Blog!

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  5. Lincon disse:

    Comparações como essas são muito superficiais e não chegam de fato a conclusão nenhuma, afinal Vettel foi campeão apenas quando guiou uma Red Bull, que por sua vez apenas foi campeã apenas quando guiada por Vettel. O que quero dizer é que a conclusão será diferente a partir da lente sob a qual se olha os fatos/números.

    É inegável que Vettel vêm comentendo erros nas últimas temporadas, mas reduzi-lo a um “campeão não-legítimo” talvez seja um pouco demais. Afinal todos os grande cometem erros, inclusive os citados pelo nosso amigo Abdul em seu texto. Hamilton cometeu diversos erros em seus primeiros anos e inclusive após seu primeiro título. Alonso por sua vez, se não cometeu erros na pista, deixou um rastro de insatisfação pelas equipes pelas quais atuou a ponto de não encontrar qualquer lugar após sua saída da McLaren.

    O único lamento que faço é não poder ver todos os citados com carros que permitam a eles extrair o melhor de si ao mesmo tempo na pista. E essa conversa de que piloto bom faz carro ruim andar é lorota, vide todos os citados quando não estiveram com suas máquinas “favoritas”.

    Abs!

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  6. Ronaldo Celestino disse:

    Parabéns! Belo texto e reflexão. Adoro F1 e penso que Alonso foi um piloto mais completo que Vettel. Uma pena ele não ter sido campeão na Ferrari.

    Abraços!

    Ronaldo Celestino

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  7. Allen Robinson disse:

    Não há como comparar Alonso e Vettel. Alonso é simplesmente melhor em quase tudo, mesmo tendo somente a metade dos títulos de Vettel.

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