As duas primeiras décadas do milênio frente a frente

Os matemáticos dirão que a década só termina em dezembro deste ano, mas na Fórmula 1, como tudo começou em um ano 0 – 1950 – as contas respeitam regras diferentes. E, por essas regras, chegou a hora de colocar as duas últimas décadas – as primeiras do milênio (cuja chegada, aliás, foi comemorada dia 01.01.2000) frente a frente:

Os números

Anos 2000 Anos 2010
GPs 174 198
Campeões 5 3
Vencedores diferentes 17 12
Ultrapassagens por GP 15 em média 40 em média

Os grandes personagens

2000: Schumacher, Montoya, Alonso e Raikkonen, com Hamilton chegando no fim da década

Os brasileiros podem incluir Rubens Barrichello e Felipe Massa na lista. Massa, inclusive, chegou muito perto de ser campeão em 2008 e merece a menção honrosa. Foi uma década dividida em duas partes: Schumacher lutando primeiro com Mika Hakkinen, que logo de aposentou, depois com um jovem Kimi Raikkonen e com Juan Pablo Montoya sendo aquele piloto arrojado e falastrão querido por muitos, e odiado por outros tantos. A partir de meados da década, Alonso surgiu como o grande desafiante de Michael, e acabou com a supremacia do alemão, que se aposentou (pela primeira vez) e deu espaço para uma nova – e recheada de talentos – geração. Alonso e Raikkonen ganharam a companhia de Lewis Hamilton (e Massa) em disputas de tirar o fôlego em 2007 e 2008, dando um dica do que estava por vir.

2010: Hamilton, Alonso, Vettel, Button, Rosberg, com Verstappen chegando no fim da década

Ele já tinha ganhado corrida nos anos 2000, mas foi na década de 2010 que Sebastian Vettel se colocou de vez entre os grandes destaques do grid. Na verdade, rapidamente se tornou o maior deles, ganhando quatro campeonatos em sequência – alguns mais disputados do que outros. Seu grande rival era Alonso, diversas vezes considerado o melhor do grid na primeira parte da década, mas que sofreu pelo que fez fora das pistas nos anos que viriam a seguir. Único que venceu em todos os anos da década – e da carreira – Lewis Hamilton deu seus tropeços e chegou a ser superado por Button em 2011 na McLaren, e perdeu uma guerra psicológica com Rosberg em 2016, mas acabou os 2010 como o nome da década. Nos últimos quatro anos, esse grupo ganhou mais um membro, Max Verstappen, arrojado e falastrão, querido por muitos, odiado por outros tantos. Será que ele vai repetir o que fez Hamilton e se tornar o nome dos 2020?

2000 x 2010: 10 grandes mudanças

Dos V10 à unidade de potência V6 turbo hibrida: Provavelmente a mudança que mais dói nos puristas, muito em função do ruído, foi fundamental para evitar uma debandada geral das montadoras – ok, talvez a Ferrari ficaria – e está dentro do tão afamado “DNA da F-1”. Hoje a categoria tem um motor extremamente eficiente e pouco poluente, ainda que a categoria pareça não querer divulgar isso.

Guerra des pneus: O ponto mais positivo dos anos 2000 foi a guerra de pneus, com duas fornecedoras – Michelin e Bridgestone. Como seus compostos tinham características distintas, o sobre e desce de performance era grande, dependendo do tipo de circuito e temperatura. Como a Ferrari era o único time grande com Bridgestone, isso teve uma enorme influência no domínio de Schumacher. Mas primeiro a Michelin saiu, deixando a Bridgestone sozinha, e em 2011 a Pirelli chegou tendo assumido um compromisso diferente: fazer um pneu que se desgasta propositalmente. Isso provou ser um desafio, já que as equipes se adaptam rapidamente, e trouxe resultados melhores em algumas temporadas do que em outras.

Teste em pista x simulação: Uma análise mais preguiçosa (e racista) pode levar a crer que o insucesso da Ferrari nos anos 2010 em comparação com os 2000 é porque o time passou a ter mais italianos. O erro da Scuderia, contudo, foi não se preparar para a era da simulação da F1. Nos anos 2000, eles desfrutaram da vantagem de terem duas pistas para testes muito perto (ou dentro) da fábrica, quando os testes na F1 eram ilimitados. Isso acabou no final da década, quando até o uso de túnel de vento foi limitado, e foi quando o CFD tomou conta dos projetos.

Mudanças de regulamento que não deram em nada: Bom, isso não mudou. Talvez só as mudanças do final de 2004, que tiraram a Ferrari do jogo, tenham servido ao seu propósito. A alteração mais cara foi a de 2009, pois as equipes tiveram que repensar todo o conceito do carro, visando melhorar as disputas por posição, mas três times tiveram a sacada do difusor soprado, que basicamente acabou com o efeito das regras e gerou o…

DRS: Uma das adições mais polêmicas da década, a asa traseira móvel se tornou necessária porque, em um momento de crise mundial e com as montadoras saindo da F1, foi feita uma grande mudança de regulamento para diminuir o efeito aerodinâmico que não deu em nada. A decisão foi, então, provocar ultrapassagens “na unha” e, de fato, a média de manobras por GP nos anos 2010 foi 70% maior em relação aos 2000.

Reabastecimento: Outro vilão das ultrapassagens nos anos 2000, o reabastecimento ficou para trás em 2010, descomplicou a classificação e “desengessou” as estratégias. Embora, em primeira análise, o reabastecimento traga um elemento estratégico a mais, o que se viu foi a convergência de táticas. Mas, pelo menos, os carros andavam mais leves pela maior parte da corrida.

Peso: Lewis Hamilton vira e mexe reclama que estreou na F1 com carros que pesavam 600kg (e que não largavam com tanque cheio por conta do reabastecimento) e agora tem de começar as corridas com mais de 800kg nas costas. Isso tem a ver com a unidade de potência, com melhorias que visam aumentar a segurança (vide halo) e com, é claro, o aumento do tanque. A falta de agilidade dos carros é visível e isso afeta as ultrapassagens, já que os freios tiveram que melhorar muito e se tornaram “bons demais”. O peso extra também gera mais carga nos pneus e é um dos fatores que fazem com que os pilotos tenham que administrá-los tanto durante as provas.

Definição do grid: O formato de classificação passou por vários testes na década de 2000. De uma volta lançada até combustível que era recolocado no começo da corrida, teve de tudo. Até que, no final da década, chegou-se ao formato atual de Q1, Q2 e Q3. Trata-se de uma disputa ao mesmo tempo justa e que pode armar surpresas; coloca os pilotos sob pressão constantemente e dá picos de emoção ao longo do classificatório, não apenas na hora de decidir a pole.

Sistema de pontos: A década de 2000 começou com 4 pontos de diferença entre o primeiro e o segundo. Depois, essa diferença caiu para dois pontos. E a partir de 2020 tornou-se o equivalente a 2,5. Mas a grande função da mudança na pontuação era premiar 10 ao invés de 8 pilotos. Até hoje não vi ninguém reclamar do sistema.

Menos montadoras, menos cigarro: Não faz tanto tempo assim que o grid tinha Ferrari, Renault, Honda, Totoya, BMW e Jaguar, além da Mercedes fornecendo motores. Além disso, o dinheiro quase infinito da indústria tabagista abastecia campanhas de marketing até espalhafatosas. Em comparação, a década de 2010 foi de austeridade, e de uma tentativa de reencontro com o espírito garagista que foi engolido nos 2000.

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