Tudo o que você sempre quis saber sobre os testes

Foi só eu perguntar lá no Instagram o que vocês gostariam de saber sobre os testes que apareceu uma chuva de dúvidas interessantes. Foram dezenas de perguntas e tentei selecionar as que se repetiram mais. Algumas pessoas perguntaram sobre o acesso do público, e fiz um post ano passado justamente sobre isso. Aliás, apesar dos testes não terem a mesma estrutura das corridas, eles são um prato cheio para os fãs.

Lembrando também que a pergunta foi “o que você sempre quis saber sobre os testes” e não sobre esse teste específico (vocês sabem que estou numa cruzada pela atenção ao enunciado!), vou tentar responder às dúvidas de vocês:

 

Há limites? De pilotos por equipe, carros, motores, voltas, etc.

Juntei várias perguntas em uma. O regulamento esportivo não fala em limite de pilotos por equipe – e inclusive pilotos sem superlicença podem testar, desde que seu carro esteja sinalizado com uma luz verde – ou carros, peças, motores, voltas, etc. O que existem são muitas restrições à quantidade de testes (100km de shakedown, coletivos e somente para desenvolvimento dos pneus), horários para os testes coletivos (das 9h às 18h com parada de 1h para almoço) e é só. Mas a lógica acaba mais ou menos padronizando tudo isso. Como os dias de testes são limitados, o melhor é que os dois pilotos titulares andem o máximo possível. Quanto aos carros, a agenda das equipes é feita de maneira que o segundo chassi esteja sendo montado enquanto o primeiro é testado, assegurando que o máximo de tempo possível de desenvolvimento seja usado, então os times só levam um carro para o teste. E um dos testes que eles fazem com os motores é para avaliar sua vida útil, então não faz sentido usar várias unidades (que não são usadas depois nas corridas).

 

Jornalistas têm mais liberdade de falar com equipes e pilotos? Cobertura é mais cansativa?

O clima é um pouco mais relaxado do que durante as corridas, então é menos difícil (não vou dizer mais fácil) falar principalmente com engenheiros. Mas também é verdade que, cada vez mais, as equipes fecham seus motorhomes ao acesso da imprensa e fica fácil todo mundo se esconder. E a cobertura é muito mais cansativa. São 11h-12h de trabalho por dia e, enquanto os carros estão na pista, são feitas inúmeras coletivas de imprensa.

 

Como vocês sabem quais carros são melhores? O pessoal esconde mesmo o jogo?

Não é necessário correr dentro do regulamento nos testes, então times no passado usaram isso para andar abaixo do peso mínimo e atrair patrocinadores. Mas foram casos isolados, numa época em que se podia testar muito mais. Hoje em dia, falar em “esconder o jogo” é tão somente uma “análise” extremamente preguiçosa e sem conhecimento.

Mas como se sabe quem está bem ou não? Já escrevi sobre isso no passado (faz tempo que estou na cruzada contra a mediocridade do “sandbagging”, particularmente triste quando parte da mídia.

 

Como é o transporte do equipamento?

Como ocorre também nas etapas europeias, o equipamento é transportado por caminhões. Eles trazem, inclusive, os motorhomes das equipes, que para os testes são versões menores do que eles geralmente levam para as provas no caso de algumas equipes, como Mercedes e Ferrari (isso significa que não há comida para nós, jornalistas, mas deixemos os perrengues dos testes para outro post).

Voltando aos carros, neste ano foi menos comum ver isso devido à estabilidade do regulamento, mas se peças novas trazidas durante o teste, se não forem grandes, são levadas por funcionários, na própria mala. Então vira e mexe você vê algum membro de equipe chegando com alguma mala de formato “suspeito”. Pode ser algo novo ou alguma peça de reposição.

 

O que os pilotos fazem enquanto os companheiro pilota? 

Isso depende do piloto e da programação. Há a possibilidade da equipe querer reproduzir o mesmo programa com ambos os pilotos no mesmo dia (e isso aconteceu muitas vezes nesta semana por serem 3 ao invés de 4 dias de teste) e então um pilota de manhã, e outro à tarde. Nesse caso, é comum que o piloto tenha outros compromissos quando não está no carro, como reuniões com engenheiros e entrevistas e ele fica por lá.

No caso do planejamento do time prever que apenas um piloto vai andar no dia, o mais normal é que o outro fique descansando, até porque eles andam muito – chegam a fazer mais de 2 GPs da Espanha em um mesmo dia, isso numa época do ano em que o pescoço principalmente não está acostumado às forças G, então não são semanas fáceis fisicamente para eles. Mas sempre tem algum piloto mais nerd que gosta de acompanhar tudo de perto.

 

Teste é transmitido pela TV?

Os testes não eram transmitidos nem para a gente que fica na sala de imprensa. Tínhamos acesso a uma tela azul horrorosa com os tempos, que parecia de algum sistema dos anos 80, e tínhamos que torcer para as câmeras de segurança do circuito captarem alguma coisa. Isso mudou neste ano, quando a F1 tomou o controle do teste da FIA. Para quem não entende essa separação, a F1 (leia-se Liberty) é quem detém os direitos comerciais e de transmissão. Então, pela primeira vez, eles transmitiram os testes com estrutura semelhante à usada nas corridas – tanto para nós, na sala de imprensa, quanto para o Reino Unido e a Itália com a Sky, ambas a cabo. E também para quem tem a F1TV (não disponível no Brasil devido ao contrato de exclusividade da Globo, mas isso é algo que pode mudar em breve). O mais curioso de tudo isso é que o tal DAS da Mercedes só pôde ser observado por conta disso: sem as câmeras onboard que só foram instaladas neste ano no teste, só saberíamos sobre sua existência na Austrália!

Como as equipes contextualizam dados para outros circuitos? E por que testam em Barcelona?

Foram várias perguntas nesse sentido e elas se conectam. O circuito de Barcelona está localizado em um lugar privilegiado em termos de clima na Europa, onde já nem há (geralmente, porque há dois anos nevou, mas como vocês sabem o clima anda meio maluco) cara de inverno nessa época do ano. Então a avaliação geral é de que vale a pena testar em um lugar em que está um pouco mais frio do que nas corridas, mas que não seja tão caro quanto voar para o Bahrein, por exemplo (lembrando da resposta acima, as peças continuam chegando ao longo das semanas, então o tempo de transporte também é considerado). Testar em Barcelona é visto como um bom meio termo.

E, com base em todas as informações que as equipes vão coletando ao longo dos anos, eles vão podendo simular o comportamento do carro nas demais pistas baseando-se em Barcelona, que ajuda por ser muito completa: tem uma reta longa, curvas de alta, média e baixa velocidades. 

 

O que são as “grades” que as equipes usam nos carros?

São sensores que mostram qual o fluxo de ar ao redor do carro. Dependendo de onde está o fluxo que se quer medir, eles têm formas e são colocados em posições diferentes. As equipes, então, comparam esses dados com o que obtiveram em seus túneis de vento e, assim, fazem a correlação, fundamental para seguir o desenvolvimento do carro ao longo da temporada.

 

E a pergunta que não quer calar…. Tem Heineken na faixa?

Em teste, nem comida na faixa tem. Note que a marca de cerveja não patrocina o campeonato, mas sim corridas selecionadas. Em algumas delas, há sim um bar da marca no paddock, e a cerveja é de graça, o que dificulta trabalhar no domingo depois da prova devido ao número de VIPs que exageram na dose. No Brasil, por exemplo, quem trabalha no paddock não tem acesso ao bar, que fica atrás do S do Senna e é só para convidados para aquela área específica.

1 comentário Adicione o seu

  1. Lucas Nascimento disse:

    Excelente post! Parabéns pelo trabalho e obrigado.

    Curtir

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