Todos contra a Ferrari

Foi quase como se eles tivessem esperando. Já na segunda-feira começou a correr a informação de que seria divulgada uma declaração de repúdio ao acordo confidencial entre a FIA e a Ferrari (que fora anunciado três dias antes) assinada em conjunto de sete equipes. Ou seja, todas menos as clientes da Ferrari. É muito incomum haver este nível de união, mas o momento não poderia ser mais oportuno.

O documento publicado por todas estas equipes ao mesmo tempo na manhã desta quarta-feira (04), diz que os times ficaram “surpresos e chocados” com a divulgação de um acordo entre Ferrari e FIA. “Uma entidade reguladora tem a responsabilidade de agir respeitando os maiores padrões de liderança, integridade e transparência. Depois de meses de investigações feitas pela FIA após questionamentos vindos de outras equipes, nós nos opomos fortemente à FIA por ter chegado a um acordo confidencial com a Ferrari para concluir a questão.”

O documento prossegue dizendo que as equipes estão dispostas a se unir para perseguir um “desfecho completo e adequado para esta questão e assegurar que nosso esporte trate todos os competidores de maneira justa e igualitária.” E termina com a ameaça de usar meios legais caso a FIA não colabore.

Forte, não? As equipes sabem que vivem um momento perfeito para barganhar, especialmente usando o descontentamento da opinião pública. Ao contrário de Ecclestone, a Liberty Media é sensível à percepção das pessoas a respeito da categoria, até porque depende diretamente disso para sobreviver: no mundo em que números de tráfego de mídias sociais valem mais que contratos com TVs, ouvir o público se tornou prioridade. E é bem difícil conquistar audiência fazendo acordos escusos seja com quem for.

Mais do que isso, a FIA vive um momento de enfraquecimento e as equipes veem que chegou a hora de atacar os privilégios ferraristas. Mais precisamente, o direito a veto. E pressionar a decisão de manter o caso do motor a portas fechadas é a última grande chance de fazer isso antes que todos assinem o próximo contrato com a F-1.

A briga a respeito do motor ferrarista não é apenas técnica. Ela entra como pano de fundo importante para uma outra batalha que está sendo travada há meses nos bastidores: como os contratos terminam no final deste ano, a Liberty Media está sendo pressionada de todos os lados. É a primeira vez que os norte-americanos, que compraram a categoria no final de 2016, passam por esse processo. E a demora para definir as regras de 2021 só ilustrou o quanto a política dos novos donos de ouvir todo mundo acaba gerando indefinições que colocam a categoria em um terreno perigoso.

A Ferrari é a grande beneficiada pelo atual contrato, ganhando bônus maiores que os demais, independente de sua posição no mundial de construtores, e sendo a única que tem o direito a vetar novas regras. E aí entra outro fator importante nesta briga: as rivais esperavam que o tal veto fosse usado quando saiu a última versão das regras, e a Scuderia surpreendeu e se alinhou com Liberty e FIA. Talvez para garantir que nada fosse feito a respeito de seu motor? Com o desfecho publicado na semana passada, isso é bem possível. E é isso que as rivais estão protestando.

Entenda o caso da Ferrari

As suspeitas acerca do motor da Ferrari começaram ainda na temporada 2018, quando eles passaram a ter a unidade de potência mais poderosa da Fórmula 1, ultrapassando a Mercedes. Na temporada passada, a vantagem até aumentou, fazendo os rivais investigarem mais a fundo o que os italianos estavam fazendo.

Tanto a Honda, que fornece os motores para a Red Bull, quanto a Mercedes começaram a ter teorias e chegaram à conclusão que se tratava de um engenhoso sistema que burlava a quantidade máxima de fluxo de combustível por alguns instantes. 

Em outubro do ano passado, a FIA soltou uma diretiva técnica (algo como uma recomendação para que times que estejam fora das regras se ajustem) para todas as equipes proibindo esse tipo de prática. Logo, a performance da Ferrari caiu, mas o time insistiu que havia sido apenas uma coincidência.

No final do campeonato, a FIA anunciou que faria uma avaliação mais extensa da unidade de potência ferrarista para resolver a questão. E, na última sexta-feira, enquanto as equipes terminavam os testes de pré-temporada e preparavam seus equipamentos para enviar para a Austrália, onde a temporada começa dia 15 de março, a federação surpreendeu ao soltar um comunicado dizendo ter feito um acordo com a Ferrari.

O documento dizia que “os detalhes ficarão restritos às duas partes”, o que irritou os rivais. A federação prosseguiu dizendo que tinha chegado a “uma série de acordos técnicos que vão melhorar o monitoramento das unidades de potência para as próximas temporadas, assim como assessorar a FIA em questões regulamentares e atividades de pesquisa a respeito de emissões de carbono e combustíveis sustentáveis.”

Tal declaração da FIA causou muito estranhamento porque não esperava-se que a entidade sequer viesse a público. A política da entidade nestes casos em que é difícil separar o que estava fora da regra em si e o que era fora do “espírito” ou da intenção da regra é dizer que “a partir de agora, não pode mais X, Y, Z”. Até por conta disso, na visão da Ferrari, seu caso deveria ser tratado da mesma forma como o da Mercedes foi na questão da queima de óleo para ganhar vantagem também no motor, em 2018: eles não sofreram punição alguma, só tiveram que tirar o sistema de funcionamento.

Houve, inclusive, uma discussão forte entre Binotto, Wolff e Horner sobre isso no GP de Abu Dhabi, outro pano de fundo importante para entender essa história. Então não se prendam à questão do motor: ao que tudo indica, eles foram mesmo pegos fazendo algo, pelo menos, fora do espírito das regras, e por isso isso a FIA enviou a diretiva técnica durante o final de semana do GP dos Estados Unidos do ano passado. A questão aqui é política. Mercedes e Red Bull estão pegando pesado por ver que, politicamente, esse é o momento para brigar por algo a mais que um “tapinha na mão”. Têm a opinião pública (os likes e comentários) de seu lado e um contrato em branco que a Liberty precisa muito ver assinado o quanto antes. Ingredientes não faltam para um começo de ano daqueles já garantido nos bastidores.

13 comentários Adicione o seu

  1. Robson Coimbra disse:

    Parece que tem algo, mas, algo surreal ou espiritual ? A FIA foi extremamente infeliz no comunicado, apesar de estar nas regras da entidade. O burburinho maior da outras equipes deve ser mesmo por maior espaço politico dentro do contexto da F1.

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  2. Carlos Silva disse:

    O respeitado jornalista Lito Cavalcanti disse certa vez: “A Ferrari é maior que a Fórmula 1”. Vai ver por isso que há tanta perseguição contra a equipe italiana que é o ícone da tecnologia automotiva.

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    1. Paulo H. disse:

      E a Mercedes é maior que a Ferrari!

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      1. Adriana Paoli disse:

        Como? A Mercedes maior que a Ferrari? Acompanha a F-1?

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      2. Paulo H. disse:

        Prezada Adriana:
        Acompanho a F1 desde os tempos do Émerson; meu primeiro GP in loco foi em Jacarapaguá, em 86. Assisti a pelo menos 99% dos eventos televisionados, provavelmente só não assisti na TV aqueles que vi no autódromo e os que não foram transmitidos ao vivo (lembra da visita do Papa?). Somente uma equipe venceu 12 campeonados em 6 anos, e não foi a Ferrari. A Mercedes vencia corridas muito antes de a Ferrari existir. Acompanhar a F1 não é sinônimo de torcer pela Ferrari.

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  3. Matheus santos disse:

    Isso é tudo política no fundo tanto a Mercedes como a redbull querem ter a força e a presença que a Ferrari tem na categoria , sejamos sinceros quando se fala em automobilismo ou carros esportivos pensamos logo em Ferrari não em mercedes ou redbull, que é so um energético, a Ferrari representa muita coisa para o automobilismo é por isso na minha opinião tanto a f1 precisa da Ferrari assim como a Ferrari também precisa para se promover ( Acho que nós dia atuais nem tanto marcas como Ferrari e nike se vendem sozinha ) .

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  4. ]Muguello[ disse:

    Muito “mi mi mi” porque não obtiveram nenhuma informação extra de como funciona o motor da Ferrari ou o que eles “provavelmente” faziam p/ ter um ganho de potência.

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  5. Adriana Paoli disse:

    Sem a Ferrari, com certeza, não há Fórmula 1! Deixem a Ferrari em paz e desenvolvam um motor melhor do que o dela!

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    1. Paulo H. disse:

      Desenvolver o motor “dentro” ou “fora” do regulamento? Por que torcer por uma equipe que sempre tratou os brasileiros como coadjuvantes? O Rubinho e o Massa ganharam muito dinheiro, mas foram campeões? Lotus, Brabham, Williams, McLaren, Toleman respeitaram nossos pilotos, e eles fizeram se respeitar. Defendo uma distribuição mais igualitária das receitas da F1 entre as equipes, e o fim dos privilégios das equipes “históricas”; isso resultaria num ranking mais justo do ponto de vista técnico e esportivo. E ficaria mais justo para os torcedores também.

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      1. Lucas Ferrari disse:

        Se a Ferrari sair, ninguém mais acompanhará a F-1.

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  6. magal disse:

    F1 só é F1 por conta da Rossa! Sem ela, a Ferrari a F1 seria uma Indy! – Ara Cerasolli!!

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  7. Reinaldo Gomes disse:

    A FIA não puniu a Ferrari, pois ela não cometeu nenhum “crime”. Ela só não podia revelar a tecnologia da marca italiana para as rivais Renault, Mercedes e Honda. Simples assim.

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  8. Juliana Gomes disse:

    Julianne Cerasoli: sabe quando se é a marca de carros mais famosa – e respeitada – do planeta Terra? Pois é, com certeza, muita inveja da renomada montadora italiana. Nenhuma marca de automóveis consegue superar tudo o que a Ferrari fez pelo automobilismo mundial. A meu ver, é tudo uma conspiração, uma perseguição política ao grupo Ferrari. Sucesso se consegue com muita luta e é o que faz a Ferrari.

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