Fórmula pandemia

Meio-dia e meia da sexta-feira (13) do GP da Austrália. Era para os carros estarem na pista em Melbourne há meia hora, mas lá estamos amontados esperando Chase Carey e os promotores da prova concederem uma entrevista coletiva para explicar o caos das últimas 24h causado não pelo coronavírus em si, mas pela insistência de todos os envolvidos em seguir com o evento enquanto o mundo todo virava na direção contrária.

Umas duas horas antes, o jornalista com mais GPs na costas ainda em atividade, Roger Benoit, passa por mim enquanto uso o mini studio da Sky Sports como “escritório” e vou falando com todo mundo que passa para tentar descrever qual era a situação momentos antes do cancelamento: “Eles não vão sobreviver a isso. Nem Todt, nem Carey.”

Benoit é muito amigo de Ecclestone, é bom que se diga, mas ele tem lá sua parcela de razão. A situação só chegou a esse ponto por uma mistura de ganância e necessidade. Não é de hoje que a Fórmula 1 (leia-se Liberty Media, até porque a FIA se manteve como espectadora até mesmo na coletiva citada acima, papel que tem adotado de maneira cada vez mais proeminente nos últimos anos) vinha jogando um jogo perigoso, apostando que os promotores das provas pelas quais ela cobra dezenas de milhões de dólares quebrariam seus contratos. 

Necessidade porque é este mesmo o buraco em que a F-1 se meteu, algo que tem suas raízes no fato de Bernie Ecclestone ter ignorado a possibilidade de fazer dinheiro com conteúdo on demand e internet, focando a receita nos contratos das TVs. No mundo todo, a tendência é que esses contratos fiquem menos lucrativos, já que a audiência já não é mais a mesma, e isso foi até acelerado na Fórmula 1 pela preferência dada aos contratos em TVs à cabo. Ou seja, com menos receita das TVs, aumentou a dependência do dinheiro vindo dos promotores, o que explica o desejo da Liberty de inchar o calendário. Além disso, como a Liberty está tendo de investir pesado na área digital, a pressão para gerar mais receita é grande.

Fãs ficaram esperando do lado de fora sem informação

Pois, bem. Aí o coronavírus vai se alastrando e justamente essa receita fica ameaçada, devido ao cancelamento das provas. A única saída para minimizar o prejuízo é deixar, portanto, que os contratos sejam quebrados pelos promotores.

Com os chineses, isso foi resolvido rapidamente. No Vietnã, quando o governo apertou o cerco a passaportes italianos e ingleses, que só poderiam entrar com visto de negócios para tentar proteger um país que via aumentar o número de casos, as portas começaram a se fechar para a F-1. No Bahrein, onde a F-1 é atração turística, o esforço foi enorme e a corrida seguiria adiante caso as tais últimas 24h não tivessem acontecido.

Na Austrália, o cenário era diferente desses outros três países: poucos casos, aumento diário baixo, eventos esportivos de grande porte acontecendo normalmente – houve até um jogo de críquete com 86.000 pessoas no domingo em Melbourne. E, é claro, dinheiro do contribuinte australiano sendo usado para pagar por uma prova que é abraçada em geral pela cidade, mas que sempre encontra resistência. Do lado dos organizadores, não havia nenhuma possibilidade de jogar isso pelo ralo. 

Mas faltou colocar um ingrediente na balança: o coronavírus começou a se alastrar fortemente pela Europa há duas semanas. O pico da crise começou na Itália mas, com o livre movimento no continente, era uma questão de tempo para que ela se alastrasse. E então a tão europeia Fórmula 1 passou a ser uma ameaça para o GP. Seria ela que traria a Melbourne a sensação de que a doença estava se alastrando rapidamente.

Carey disse que ninguém podia prever esse cenário quando as equipes começaram a viajar para a Austrália, há uma semana. Não é bem verdade. Mesmo naquele momento, as restrições a italianos já existiam e governos de outros países, como França e Inglaterra, já divulgavam seus planos, falando em previsões como ficar com 20% da mão de obra doente de uma só vez. As conversas pelo menos no meu grupo mais íntimo era justamente nesse sentido: “vamos nos cuidar porque a última coisa que queremos é infectar alguém”, cuidado esse que começou ainda lá na Europa. 

Mas a Liberty decidiu correr o risco e acabou com um desastre midiático, para dizer o mínimo. Fomos, sim, à Austrália, mas não se falava de outra coisa. E quando ficou claro que o coronavírus estava dentro do circuito, as equipes, que parecem ter ficado silenciosas até então, se impuseram. No final das contas, a decisão só foi tomada porque a maioria simplesmente disse que não ia correr. Não importando quem vai pagar a conta (ou deixar de receber os lucros).

O que aconteceu em Melbourne acabou tendo um efeito-dominó no Bahrein, já que membros de equipes terão de ficar em isolamento e isso inviabiliza a próxima etapa. E essa conta dificilmente serão os barenitas, que estavam movendo montanhas para não perder a prova, que vão pagar.

Pelo menos é de se esperar que Carey e companhia tenham aprendido a lição depois de deixarem fãs esperando na porta sem qualquer tipo de informação e deslocarem 3000 pessoas até a Austrália para tudo terminar em um cercadinho amontoado de gente em plena pandemia.

5 comentários Adicione o seu

  1. ]Muguello[ disse:

    Ju, você acha que Bernie teria lidado com essa situação de maneira diferente? Não tenho certeza que ele seria menos focado no dinheiro…

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    1. Acho que a única “salvação” para a F1 nesse caso seria o sensato Charlie Whiting…

      Curtido por 1 pessoa

  2. Eudenis disse:

    Olá Julianne,
    Tudo isso é lamentável, no entanto devemos considerar que essa pandemia, até poderia ser evitada, caso algumas autoridades la da China nao tivessem negligenciado informações importantes, que agora sabemos. Enfim, estamos todos prejudicados e particularmente estou chateado com esse desfecho, pois acompanho a F1 a 45 anos, certamente ficará um vazio.
    Abraço
    Eudenis

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  3. Eudenis disse:

    Olá Julianne,
    Tudo isso é lamentável, no entanto devemos considerar que essa pandemia, até poderia ser evitada, caso algumas autoridades la da China nao tivessem negligenciado informações importantes, que agora sabemos. Enfim, estamos todos prejudicados e particularmente estou chateado com esse desfecho, pois acompanho a F1 a 45 anos, certamente ficará um vazio.
    Abraço
    Eudenis

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  4. Rodrigo Rocha disse:

    Ju, sei que é cedo demais, mas você acha que os efeitos financeiros do Coronavirus podem afugentar patrocinadores e montadoras [como Mercedes e Renault]?

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