Drops dos bastidores do (não) GP da Austrália

Não pensem que foi uma decisão fácil ir ao GP da Austrália. A questão central, para mim, era que um bando de europeu podia espalhar o coronavírus em um país em que a crise não estava tão grave quanto ela já se desenhava há uma semana no velho continente. A partir do momento em que a decisão de ir foi tomada, a prioridade foi tomar todas as precauções para não pegar o vírus e, assim, não correr o risco de passá-lo adiante viajando por aí. E essa mentalidade não era só a minha. Ninguém estava indo para a Austrália com paz de espírito, para dizer o mínimo.

Tão logo chegamos no paddock na quinta-feira, ficou claro que arriscar fazer a corrida, indo na contra-mão de tantos outros eventos, tinha sido a decisão errada. Estávamos prestes a abrir a temporada e ninguém falava de carros, pilotos. Até porque nada disso era relevante diante de um cenário tão negativo. E todos achavam que era uma questão de tempo para aparecer um caso dentro do paddock.

As equipes tomavam algumas medidas. Os microfones usados pelos pilotos eram limpos a todo momento e todos tinham de manter uma distância de dois metros em relação a eles. Mas só eles. Para TVs, só foi permitido que 4 emissoras fizessem as entrevistas no cercadinho, e excluíram as rádios. Teve gente de TV que marcou a viagem de volta ainda para a quinta à noite, sabendo que não teria acesso aos pilotos.

Até que caiu a esperada bomba. A F-1 diz que havia estudado o que fazer em cenários com menos ou mais casos confirmados. Mas talvez não esperavam que um time desistisse de correr por conta de um caso. E a McLaren tinha seus motivos: o infectado era um dos funcionários responsáveis por montar a garagem, e tinha tido contato com muitos outros. 

A partir daí, foi aquele popular caso de “juntar a fome com a vontade de comer”. A Ferrari parecia ser contra a corrida desde o começo e carregou a Alfa consigo, e depois a Renault se juntou à decisão de não correr, ainda na quinta à noite. Com isso, o grid teria 12 carros, o mínimo de acordo com o regulamento.

Depois, já no fim da tarde/começo da noite no Brasil, a Mercedes tirou o pé, por decisão da Daimler. A F-1 (leia-se mais a Liberty, pois ao que tudo indica, a FIA se manteve um pouco à margem de tudo, tendência cada vez maior na categoria) fez outras propostas, como correr sem público, isolar o paddock, etc. Às 8h30, Carey desembarcou, vindo do Vietnã e de Singapura, já com um acordo bem próximo.

Ao mesmo tempo, às 9h, quando acabou o toque de recolher regulamentar e os mecânicos e engenheiros puderam entrar no paddock, só Red Bull/Alpha e Racing Point pareciam estar prontas para ir à pista. A Haas até ensaiava pit stops, mas a informação era de que eles não correriam. Perto das 10h, Christian Horner chamou a equipe inteira na frente do box e disse que o GP da Austrália estava cancelado. E que eles não iriam ao Bahrein também, já que todos teriam de ficar em quarentena e seriam impedidos de voltar para a fábrica.

O mesmo vai acontecer em outras equipes, como McLaren, Mercedes e Alfa Romeo, sem contar as italianas, que ainda tiveram de driblar todas as restrições de transporte na Itália no momento.  O pessoal que trabalha diretamente para a FOM (geração de imagens, conteúdo digital, etc) ganhou férias de 15 dias. E os jornalistas com quem conversei programavam se isolar ou já tinham recebido essa recomendação de suas empresas. Na verdade, na Europa inteira o movimento Io Resto a Casa (traduzido para as diversas línguas) ganhou muita força nos últimos dias. Foi isso, na verdade, que inviabilizou o GP do Bahrein. As equipes simplesmente disseram que não iriam.

Não dá para jogar essa decisão nas costas só dos dirigentes da F-1 quando as equipes tinham todos os instrumentos do mundo para evitar essa viagem e esse desgaste. Eles, também, ficaram de olho na grana, já que o dinheiro dos promotores é dividido entre os times. E parte dos equipamentos tinha sido enviada via navio, as passagens estavam compradas… enfim, decidiram pela conveniência e de olho na grana.

Tão logo foi feito o anúncio do cancelamento, o paddock foi tomado por um pânico, como se fosse o epicentro da pandemia. Todo mundo correu para lotar aviões de volta para a Europa, num movimento sem sentido.

Enquanto isso, dois jornalistas chineses tentavam, finalmente, voltar para casa. Vão ter de esperar mais uma semana em Melbourne porque a China, agora, não permite a entrada de quem esteve na Espanha. Vejam só. Uma passagem de Melbourne para Xangai hoje custa o dobro do que custava há uma semana. Faz pouco mais de um mês que o GP da China foi cancelado porque era impensável viajar para lá. Agora, é impensável para os chineses receberem a F-1. Sabe-se lá o que vai acontecer nas pelo menos seis semanas até o campeonato (talvez) começar.

3 comentários Adicione o seu

  1. Robson Coimbra disse:

    Um vírus da família dos que causam as gripes colocou o mundo de ponta cabeça. Tem um monte de doenças causadas por virus que estão matando hoje e sempre e ninguém da muita importância, no Brasil temos os casos de Dengue que matam milhares por ano. Essa pandemia esta anormal.

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    1. A propaganda é a alma do negócio.

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  2. Claudio Souza disse:

    Julianne, o que você vai fazer?
    Qual sua agenda depois de todos esses fatos? Terá de se isolar? Já saiu de Melbourne?
    Estou preocupado.

    Curtido por 1 pessoa

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