História da F1

Do fundo de baú do GP de (e aparentemente não abençoado por) San Marino

Como vocês podem ver, seria um pouco difícil San Marino receber um GP

Faz tempo que o calendário da Fórmula 1 não tem disso. Houve quem reclamou quando o GP do Azerbaijão recebia o nome de GP da Europa, já que o país não faz parte do mapa político do Velho Continente. Mas como o país faz parte do mapa geográfico, dava para explicar o nome, que durou apenas duas edições. É bem mais difícil, contudo, “defender” nomes como GP de Luxemburgo, disputado no circuito alemão de Nurburgring, e outro que ficou marcado negativamente na história da Fórmula 1: o GP de San Marino, disputado em Imola.

São nomes repetidos a esmo nessa época, quando faz mais um ano que a categoria entrou em choque por conta de sua morte mais marcante, que tirou a vida de um dos maiores da história, ao vivo para todo mundo, quando o esporte já era muito maior do que na época em que ele era acostumado às grandes perdas.

Mas, afinal, que história é essa de GP de San Marino?

A pista dos acidentes fatais de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna, cujo nome oficial é Autódromo Enzo e Dino Ferrari (Enzo, é claro, fundador da Ferrari e Dino, seu filho, que tinha distrofia muscular e morreu cedo, aos 24 anos, nos anos 1950), é localizada na pequena cidade de Imola, de menos de 70 mil habitantes. E San Marino? Bom, uma das repúblicas mais antigas do mundo fica a cerca de 100km da pista.

Curiosamente, a MotoGP também tem um GP de San Marino, mas ele não é realizado em Imola, e sim um pouco mais perto: no circuito de Misano, a 40km da Serenissima Reppublica de San Marino, que distribui placas pelo país (que ocupa pouco mais de 60km quadrados) fazendo propaganda da corrida. A foto à esquerda, inclusive, é de quando estive por lá, pouco antes da edição do ano passado da prova. Aliás, nos arredores de San Marino estão várias pistas – além de Mugello e Imola, Fiorano e Misano – e isso não é por acaso. É também por lá que estão várias construtoras de carros – Ferrari, Lamborghini, Maserati e Dallara, entre outras, gerando a necessidade da construção de pistas para testes.

Voltando à história do GP, o motivo pelo qual, desde que a F-1 passou a correr em Imola, em 1981, a prova sempre se chamou GP de San Marino é simplesmente pela Itália já ter um GP em Monza. Não que fosse necessário inventar que um GP ocorria num país que sequer tinha uma pista: na época, os Estados Unidos tinham o GP do Oeste, por exemplo, então pelo menos era geograficamente correto.

Mas, para quem sempre ouviu esse nome e nunca soube apontar San Marino muito bem no mapa, o fato é que disputar corrida por lá seria bastante difícil. Com a capital localizada em cima de uma montanha, o pequeno país tem um sobe e desce danado. Tanto, que nem existem linhas de trem e, não por acaso, o país tem mais carros do que pessoas. Como é difícil achar áreas para plantio em meio aos declives e rochas, a economia gira em torno de turismo e serviços e dá certo: o país de menos de 35 mil pessoas tem uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.

Foi basicamente uma terra pela qual ninguém se interessou a ponto de invadir e permanecer desde que um tal de Marinus, vindo de um território onde hoje é a Grécia, subiu o Monte Titano e construiu uma igreja, onde vivia como eremita. Passou a ter vários fiéis e foi canonizado, tornando-se, claro, San Marino. E no ano 301 declarou a independência do Império Romano e formou uma das mais antigas repúblicas ainda existentes. 

GPs de San Marino marcantes

Voltando às corridas, o GP de 1994 não foi o único famoso em Imola. Na verdade, a prova de San Marino guarda mais lembranças ruins do que boas, começando pela segunda edição, em 1982. Por conta da disputa FISA x FOCA, vários times boicotaram aquela edição, que acabou nas mãos da Ferrari. Gilles Villeneuve e Didier Pironi travaram um duelo por toda a prova até que, nas voltas finais, foi mostrada a ambos a placa que dizia “slow”. Para Villeneuve, tratava-se de um jogo de equipe que indicava que, a partir dali, as posições não seriam mais trocadas. Então ele não defendeu o ataque de Pironi, que acabou vencendo a corrida.

A relação dos dois, que era amistosa, acabou por ali. Villeneuve ficou extremamente contrariado, inclusive com a relutância da equipe em defendê-lo e, duas semanas depois, acabou morrendo em um acidente na classificação do GP da Bélgica quando buscava, com pneus usados e com a equipe o chamando aos boxes, bater o tempo de Pironi.

Outro final conturbado, mas não trágico, aconteceu em 1985: Senna, de Lotus, liderou boa parte da corrida, mas acabou superado, na volta 61, por Stefan Johansson, em prova que marcou sua carreira. Apenas em sua segunda corrida pela Ferrari, o sueco largou em 15º e foi escalando o pelotão, mas o que poderia ter sido sua única vitória na F-1 acabou com uma pane seca, assim como vários outros pilotos, inclusive Senna. Foi Alain Prost quem cruzou em primeiro, mas acabou desclassificado justamente pelo carro estar abaixo do peso mínimo. A vitória ficou com Elio de Angelis e seria a última do italiano, que morreria no ano seguinte em um teste na França.

O GP de San Marino ficou na história também por conta de outras duas pancadas fortes, ambas justamente na curva em que Senna teve seu acidente fatal, a Tamburello. Primeiro foi Nelson Piquet em 87. O brasileiro foi impedido de disputar a corrida e disse diversas vezes que aquela batida lhe deixou “0s5 mais lento” e comprometeu seu senso de espaço. 

Outra batida pesada na Tamburello foi de Gerhard Berger, em 1989. O cockpit rachou e a Ferrari do austríaco pegou fogo, mas o resgate médico foi rápido (a pista era uma das únicas com um carro médico guiado por um piloto profissional na época) salvou o piloto, que sofreu queimaduras nas mãos e teve uma costela quebrada.

Pancadas à parte, Imola era uma pista que costumava deixar claro quem tinha o melhor carro. No dominante ano da McLaren em 1988, Senna e Prost foram 3s mais rápidos que os rivais na classificação. E Schumacher reinou entre 2000 e 2006, deixando de vencer em apenas uma oportunidade, que acabou sendo a última grande corrida de San Marino, em 2005: Schumacher largara em 13º, em um ano em que a Ferrari não estava tão forte. Mesmo assim, lá pela volta 50, chegou no líder Fernando Alonso, com um ritmo bem mais rápido. O que se seguiu foram 12 voltas de uma aula de pilotagem defensiva de Alonso, que tornou sua Renault tão larga quanto um caminhão. Mesmo sabendo o desfecho, você vai ficar grudado/a na tela, naquele que ficou para a história como o “cartão de visitas” de Alonso ao heptacampeão que ele destronaria.

3 comentários em “Do fundo de baú do GP de (e aparentemente não abençoado por) San Marino”

  1. Sempre adorei o GP de San Marino, pelo ambiente, pelo bom tempo… É claro que depois de 94 isso mudou um bocado, e também agora o desenho da pista não é tão desafiante como era, onde os pilotos chagavam à curva Tosa em grande velocidade.
    Gostei muito do seu artigo. Parabéns

    https://estrelasf1.blogspot.com/

  2. Julianne,

    Parabéns pelo texto.

    É chocante que houve dois graves acidentes na Tamburello com Piquet em 87 e Berger em 89 até chegar em 1994 com Senna. E absolutamente nada havia sido feito para aumentar a segurança, nessa área, notadamente, perigosa.

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