Repost: Muito tempo. Nem tanto conteúdo

Como vocês já estão por dentro, se a temporada realmente começar em julho com duas provas na Áustria, como é o plano atual, será sem a presença da mídia. E muita gente da imprensa acha que isso pode criar um precedente perigoso. Essa situação me fez lembrar de um texto que fiz para o blog no final de 2017, sobre o acesso que temos aos pilotos e ao conteúdo – e como são duas coisas que devem ser quantificadas de forma diferente. Entrando na comemoração de 10 anos do blog, deixo aqui o texto para vocês (re)lerem.
Eles só sorriem pra pergunta boa, claro #contémironia

Tudo partiu de uma conversa com o repórter da Globo Guilherme Pereira durante a sempre longa espera no cercadinho, a zona de entrevistas de TVs e rádios, no domingo na Espanha: vindo do futebol, o colega, que fazia sua segunda prova, estava impressionado com o tempo o qual os pilotos ficam à disposição da mídia durante um final de semana de GP.

Fora eventos de patrocinadores, os pilotos basicamente têm 8 dias de trabalho com a mídia por mês, contando a média de dois GPs por mês. E, de fato, o acesso da imprensa é infinitamente maior que o de jogadores badalados na Europa e mesmo no Brasil, onde eles são mais blindados. Após conversas com colegas e de juntar com meus dados aproximados e os exatos da Williams, cheguei à conclusão de que um piloto fala, em média, por seis vezes mais tempo com a imprensa por mês que um jogador de futebol. Os detalhes estão na matéria publicada no último sábado no UOL Esporte.

E nem vou entrar no mérito da chance incrível que temos de falar com os pilotos no grid.

Claro que há alguns adendos a se fazer. A quantidade de mídia presente no paddock se assemelha mais a uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada do que a uma partida do Campeonato Brasileiro. E, a exemplo destes eventos, são vários idiomas a serem contemplados. É claro que eu na Rádio Bandeirantes ou a Globo não vamos usar Felipe Massa falando em inglês – e esses pilotos cuja língua-mãe não é o inglês costumam ficar um pouco mais sobrecarregados. Outro fator é o número gigante de emissoras de TV, todas elas com contratos caríssimos para ter direito ao uso da imagem. E todas querendo exclusividade no cercadinho.

Não é por acaso que todas as mudanças feitas pela equipes e pela própria F-1 ultimamente visam agradar às TVs: cada vez mais os times resumem ou extinguem sessões para a mídia impressa, enquanto a coletiva de imprensa oficial de quinta-feira – que é transmitida pela TV, tornando seu conteúdo praticamente inútil para a mídia impressa, para a qual ela seria direcionada – está sendo dividida em duas e, enquanto metade dos pilotos escalados fala na oficial, adivinhem com que o restante está falando de forma mais exclusiva?

Isso, porém, não tem ajudado em nada o conteúdo. Imagine que você é Fernando Alonso e acabou de fazer um teste na Indy. Na coletiva, vão lhe perguntar sobre isso. No cercadinho, você vai parar em 10 a 15 TVs e cada uma delas vai querer saber disso. E, no caso da McLaren, há ainda uma outra coletiva para a mídia impressa. E um vai querer uma resposta mais interessante para a mesma coisa. Não vão ter.

Outro problema decorrente dessa necessidade de agradar as TVs durante quatro dias seguidos de atividades – e ter muitas delas para agradar – é que uma grande parcela das opiniões que ficam rodando a mídia por dias foram colhidas assim que os pilotos saíram do carro, no calor do momento, sem qualquer análise posterior. Isso é diferente na maioria das sessões de mídia impressa – não no caso da Ferrari, que leva os pilotos do cercadinho direto para estas entrevistas, então as aspas costumam ser bastante cruas – mas a tal política de agradar as TVs vem fazendo com que os assessores de imprensa cortem o tempo de trabalho de mídia de seus pilotos justamente por estas sessões. Os pilotos da Red Bull e da Williams, por exemplo, não falam com os jornalistas de impresso, que não podem entrar no cercadinho, após a corrida.

Não é por acaso que, mesmo com este acesso que parece gigantesco, há muita reclamação. Dos pilotos, cansados de ouvir as mesmas perguntas, e dos jornalistas, cansados de ouvir as mesmas respostas. Mais um problema criado pela Era Bernie e seu apetite feroz por contratos de TV.

(Atualizando, depois de três anos trabalhando com a Liberty, a mentalidade não mudou muito. O que mudou é que agora temos também a equipe de mídia digital da própria F1, fazendo “propaganda”, como eles mesmos dizem, e não exatamente jornalismo, na linha de frente da produção de conteúdo)

2 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Agora a informação chega praticamente na hora a todo o mundo. À uns anos atrás, tínhamos que esperar o dia seguinte para comprar o jornal especializado, para ficar a saber as incidências da corrida e o que os pilotos tinham dito da prova.
    Na actualidade, são muitos os jornalistas e repórteres nos Grandes Prémios. Existem ainda os muitos canais de tv, jornais, diversos sites, e a Netflix.

    Cumprimentos

    visite : https://estrelasf1.blogspot.com/

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  2. Fernando disse:

    Evolução dos tempos. Em breve será mais uma doa inúmeros ramos profissionais que se encerra.

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