F1 era melhor antigamente?

Foram três fatores que me motivaram a adicionar no blog os textos relembrando corridas antigas da F1: é uma forma de eu mesma descobrir histórias que precedem minhas memórias, reconstruir minhas memórias com uma visão mais ampla dos fatos e, principalmente, desconstruir alguns mitos.

Hoje, até arrisco dizer que nostalgia tem cura.

Para escrever os textos, costumo recorrer a matérias escritas na época e a vídeos, como aqueles que começaram a ser feitos nos anos 1980 como resumo da temporada. Com o tempo convivendo no circo, aprendi que deve-se descontar uma boa parte da negatividade quando os relatos vêm da Inglaterra – e é a mídia inglesa que constrói muito da história da F1 – uma vez que o jornalismo por aqui é sinônimo de focar sempre no que não está certo.

Nesse sentido, cada um tem sua tradição: é esperado do jornalista esportivo espanhol que ele torça. É esperado do italiano que veja tudo sob o prisma da Ferrari – e que cobre mais da Scuderia do que de qualquer outro. E por aí vai.

Mesmo com esses “juros e correção monetária” (já que estamos falando de coisas das antigas) tem sido um exercício muito interessante nos últimos anos. Especialmente depois do início da década de 1980, é muito comum encontrar exatamente o mesmo tipo de reclamação que vemos hoje. E quem estiver com “dor de cotovelo” da grande geração que temos atualmente daqui a 20 anos, vai pegar estes textos e pensar ‘nossa, como eles reclamavam de mão cheia!’. Não vou entrar na psicologia de como costumamos romantizar nossas lembranças, e nem preciso: aí estão as reprises dos tempos de quarentena para nos tirar qualquer dúvida.

Nestes anos pesquisando para os textos históricos, lembro de ver reclamações sobre as pistas novas que Bernie Ecclestone passou a incluir no calendário – e não estou falando de Coréia do Sul ou Índia, mas sim de Detroit, Phoenix, porque era “um absurdo a F1 ir para um lugar em que ninguém parece se importar com a categoria”, além da “ganância” de buscar etapas que lhe davam mais dinheiro ao invés de ficar “com a tradição de Watkins Glen”. Quando a perspectiva que o tempo nos dá mostra que, embora não tenha acertado sempre, o que chamaria de visão de Ecclestone fez da F1 o que ela é hoje.

Também li que era a hora da F1 adotar padrões de segurança mais rígidos do que em Jarama ou em Zolder por exemplo. Li que a brita era ultrapassada. E inúmeras, muito mais do que hoje, teorias sobre trapaças.

Mas uma crítica volta e meia aparecia: a falta de competitividade, especialmente a partir do final dos anos 1980, quando o dinheiro (trazido por Ecclestone) dos direitos de TV começou a aumentar exponencialmente e o desenvolvimento de tecnologias digitais foi alterando o processamento de dados e invadindo os carros.

Não que não tenham havido carros imbatíveis antes (que o diga a Lotus) e que qualquer um podia vender uma corrida. Isso não ocorreu em nenhum momento em um campeonato que sempre teve em seu DNA as diferenças entre os carros. Mas, a partir do MP4/4, uma “dinastia” foi entregando o domínio para outra, com alguns “refrescos” no caminho. E isso foi criticado duramente, desde a época de Senna. Bons eram os velhos tempos, em que começávamos uma corrida sem a certeza de que Ayrton ou Alain ganhariam, diziam os relatos da época. E depois veio a Williams de outro mundo, a Benetton da qual todos desconfiavam, as flechas de prata da McLaren, a Ferrari de Schumacher.

Uma coisa é romantizar que Senna saiu de 16º para vencer e ser campeão pela primeira vez, como muita gente assistiu no último domingo. É uma história e tanto, é verdade. Mas também é verdade que aquele carro era muito superior, e quando Hamilton por exemplo cai para o fim do pelotão, se recupera com uma Mercedes e muita gente desdenha devido à vantagem do carro, fica a lembrança de equalizar pesos e medidas. 

Sempre há o que melhorar, seja no esporte, seja na vida. Quem sabe vamos assistir tanta reprise que vai começar a dar saudade das corridas de hoje em dia.

9 comentários Adicione o seu

  1. Wagner Almeida disse:

    Eu assisti a alguns GPS dos anos 80 e 90 nessa quarentena e posso dizer: A F1 era muuuiiito, mas muiiito melhor que hj em dia… Os carros quebravam mais, os pilotos faziam mais merda (um exemplo Berguer passando reto, do nada, de ferrari, na saída do box do GP de Portugal de 1993 se não me engano, incrível aquilo), os retardatários não davam passagem fácil aos líderes e isso dava uma tensão incrível no final da corrida(foi até aproveitando a “negociação ” com retardatários que Senna fez a clássica ultrapassagem em Prost no Gp do Japão de 1988 que eu revi na Globo domingo passado). NÃO TEM COMPARAÇÃO. REVEJAM algumas corridas no YouTube e tirem suas conclusões.

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  2. Vitor Hugo royer disse:

    Boa noite! Sou obrigado a concordar com a Julianne que a gente realmente romântiza as lembranças. Assistindo a reprise da corrida de 1988 eu senti saudade da F1 atual, claro, do ponto de vista de um mero fã da categoria que assiste as corridas pela TV. Não vi tanta competividade e vi as McLaren muito superiores aos outros. O nível de informação e qualidade da transmissão é muito melhor hoje. Uma coisa brochante de hoje é o ronco desses V6 turbo e brutal diferença de orçamento entre as equipes de ponta e as menores

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  3. Essa pergunta é uma pegadinha, né? Rs. Digo isso porque os próprios pilotos de hoje em dia não ajudam. Nelson Piquet tirava meleca na frente das câmeras . Senna morreu tentando perseguir o melhor carro sem suspensão ativa, banida no ano anterior. Dobradinha de equipe? Só se fosse roda com roda, os dois na brita, na última curva. Tiveram que limitar os motores para não darem 500 Km/h na Alemanha (mudaram até o circuito depois). A F1 era um espetáculo cru. Hoje, é midiático. Nem de longe questiono os méritos de Lewis Hamilton (monstra!!!), mas os pilotos são mais politicamente corretos. Não gosto disso.

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    1. MONSTRO – Favor editar.

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  4. knox191 disse:

    Jú, adoro os seus textos. Se puder anexar os links dessas matérias antigas, eu vou ler com certeza. É sempre bom ver o que pensávamos no passado pra tentar prever o futuro…. hehe.
    Será o fim das montadoras na F1?

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    1. Tiago Bezerra disse:

      Eu sempre vou preferir ver o topo, e assistir carros dando volta em Interlagos a 1.20 não me traz nenhuma saudade diante dos velozes que hoje giram por volta de 1.10… Aqueles q reclamam dos carros mais rápidos da história q não fazem barulho, vai assistir em interlagos mesmo corridas de APs…

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  5. Paulo Moreira disse:

    Na minha opinião as corridas dos anos 80, que foi quando eu começei a ver, eram bem melhores. Não havia ajudas para o piloto, era tudo feito no braço. Agora é tudo mais facilitado.
    O que agora é melhor é a segurança, tanto dos carros como nos circuitos.
    Mas para ser mesmo sincero, dantes para mim era melhor porque havia o Ayrton Senna.

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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    1. Wagner Almeida disse:

      Com certeza, antes tínhamos os retardatários que não davam passagem fácil aos líderes, tínhamos carros que quebravam muito mais do que hj em dia e isso se tornava uma variável a mais nas corridas, os carros andavam muito mais colados, os pilotos faziam mais merdas, as largadas eram mais emocionantes, pois os carros derrapagem mais pois não tinham os auxílios que hj em dia fazem com que todos larguem praticamente iguais, fiscal de pista empurrando carro na Caixa de brita e etc…

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  6. Bslnew disse:

    O que eu gostei mais, além de todo o texto, é realmente essa romantização que temos. É natural de nós, não nos enganemos, realmente daqui a 20 anos poderemos ter nossos filhos falando que bom era em 2019, pois tínhamos carros na pista e não disputas virtuais, ou entre carros controlados por IA (inteligências artificiais). Elogiamos as corridas da década de 80 pelos seus carros poderosos, mas àquela época já se falavam dos heróis da década de 50 e 60 em suas baratas, e esses comentam que ouviam falar de loucos que corriam a 200kmh já nas décadas de 20 e 30, por rodovias, e por ai vai…

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