Do fundo do baú: Os problemas de logística e grana da F1 de 60 anos atrás

O noticiário da F1 nas últimas semanas girou muito em torno das dificuldades logísticas e principalmente financeiras de se fazer o campeonato deste ano em um mundo que ainda luta para controlar uma pandemia e ao mesmo tempo em que se busca resolver problemas de competitividade. Em que pese o fato da crise atual ser sem precedentes, são todos problemas bastante recorrentes.

É possível encontrar esses três ingredientes em inúmeros momentos na história da categoria, como no GP da Holanda de 1960. Há 60 anos, a categoria enfrentava um drama depois que os organizadores decidiram marcar a prova holandesa para o fim de semana seguinte do GP de Mônaco, o que sequer era permitido pelas regras naquela época.

Apesar da distância de menos de 1500km entre o Principado e Zandvoort, os times sofreram para chegarem a tempo e repararem seus carros depois de uma desgastante prova de 100 voltas em Monte Carlo. Mas uma “mãozinha” dos organizadores permitiu que todos conseguissem ficar prontos: os primeiros treinos que valiam alguma coisa começaram só no sábado, e a corrida foi excepcionalmente disputada no domingo, 6 de junho.

Quem não se animou muito com a prova foi John Surtees, que preferiu deixar a F-1 de lado naquele final de semana para correr de moto na Isle of Man, em um dos percursos mais perigosos do mundo. Para a Lotus, foi algo normal na época. E olha que o perigo era muito maior que hoje…

Para quem se deslocou até os Paíxes Baixos, qual não foi a surpresa quando eles descobriram que os organizadores só planejavam deixar 15 dos 21 pilotos largarem, e o motivo só ficou mais claro depois. O problema é que o regulamento da época previa que esses 15 carros fossem definidos nos treinos livres não pelo melhor tempo de cada um, mas por uma soma dos três tempos mais rápidos de cada piloto. Era um regulamento tão complicado que as equipes chiaram porque não conseguiam saber quem estava dentro, quem não. E, no final das contas, os organizadores acabaram aceitando que 20 carros largassem. Mas o real motivo da tentativa de deixar o grid enxuto teve de ser revelada: só os 15 primeiros receberiam o dinheiro da organização pela participação, já que a grana era curta. E a lista dos que ficaram de fora da divisão do bolo acabou incluindo até uma das Ferrari, de von Trips.

Na pista, Stirling Moss dominava, rodando 3s mais rápido que no ano anterior já nos primeiros treinos livres. O britânico saiu na pole, com Jack Brabham em segundo e Innes Ireland em terceiro.

Brabham pulou para a primeira posição na largada, e ele e Moss logo se desgarraram e abriram 17s nas 10 primeiras voltas do pelotão de trás que, esse sim, foi recheado de trocas de posição. Lá na frente, Moss só estava esperando para dar o bote, mas Brabham deu uma escapada, o britânico passou por cima dos detritos e teve um pneu furado. Depois de um pit stop desastroso, Moss voltou em 12º – e, naquele momento, só haviam 13 carros na pista! O domínio de todo um final de semana tinha sido jogado fora.

Enquanto Brabham reinava, um jovem Jim Clark dava trabalho para Graham Hill, que viria a ser seu companheiro na década de 1960, até abandonar com um problema na transmissão. Foi ela que também tirou Alan Stacey, outro que vinha em um pega por toda a prova com Ireland pelo que viria a ser a briga pela segunda posição depois do furo de Moss.

Numa prova de sobreviventes, apenas quatro pilotos completaram as 75 voltas e, mesmo forçando o ritmo até o final, Moss não conseguiu passar por quarto lugar, na corrida vencida por Jack Brabham com 24s de vantagem para Ireland e outros 36s para Hill. E Moss foi o quarto.

Mesmo tendo abandonado ainda na oitava volta, Bruce McLaren saiu da etapa holandesa ainda na primeira colocação da quarta etapa do campeonato, com Moss em segundo. O que eles não sabiam era aquela segunda-feira em Zandvoort marcaria uma reviravolta no campeonato, com a primeira das cinco vitórias em sequência de Brabham, que acabaria como campeão da temporada.

2 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Que época!!!
    A imprevisibilidade era uma marca importante nessa época… e foi até às McLarens MP4 no final dos anos 80.

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  2. Paulo Moreira disse:

    Excelente artigo.
    Mais uma lição sobre a história da F1. Essa eu confesso que não conhecia.

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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