A (dura) volta da F1

Mercedes usou o teste de Silverstone para treinar também os protocolos sanitários da Áustria

 

Quando os atletas olímpicos dão entrevista sobre a mudança da data dos Jogos para o ano que vem, uma palavra que se repete é frustração. Não é por acaso: o atleta se prepara por quatro anos para ter dois picos de performance (geralmente, um menor que o outro no caso dos favoritos): nas classificatórias, para garantir sua vaga e, é claro, durante os Jogos. Ou seja, todos eles vinham nessa linha ascendente quando começaram a ter seu treinamento atrapalhado pela covid e, depois, a confirmação do adiamento.

Esse adiamento teoricamente indica que o nível dos próximos Jogos não será tão alto, já que o ciclo foi interrompido e estendido. Ou pelo menos é o que diz a lógica (caso isso não acontecer, toda a teoria do treinamento de performance terá de ser revista!). 

Em menor escala, o mesmo acontece com o treinamento dos pilotos. Eles buscam basicamente dois picos durante a temporada, no início e em Singapura, fisicamente a prova mais difícil do ano pela mistura entre calor, umidade, e geralmente a prova mais longa do campeonato.

Assim como com os atletas olímpicos, eles também tiveram seu trabalho pesado especialmente de janeiro e fevereiro jogado no lixo. Talvez à exceção de Lewis Hamilton (não se sabe onde ele passou esse período desde março e suas postagens correndo na rua sugerem algum lugar em que o lockdown não foi tão restrito), todos os pilotos passaram a maior parte dos últimos quatro meses com restrições para treinar.

E vão encarar uma sequência inédita: oito corridas em dez finais de semana. Se, por um lado, as diferenças de fuso horário e as longas horas de voo, que são a grande fonte de desgaste do início “normal” de temporada, ficaram de lado, o desgaste físico e mental (e sabemos que eles estão totalmente conectados), de estar sob pressão praticamente sem descanso, e ainda seguindo o protocolo de isolamento restrito da F1/FIA, será duríssimo.

O exemplo aqui é dos pilotos, mas não para por aí. Todos estarão trabalhando no limite: do engenheiro que tem de tomar decisões rápidas sobre estratégia ao mecânico que não pode vacilar na troca de pneus.

Nós temos a experiência das três corridas em sequência de 2018, duramente rechaçada pelas equipes justamente pelo esgotamento de seus funcionários. Até hoje, quando se fala no que se chama em inglês triple-header (que já é uma imagem perturbadora por si só, imaginem, um ser com três cabeças…), a teoria é de que só sobrevivemos porque tínhamos a Copa do Mundo de futebol para descansar a mente!

Não será assim desta vez. 

Uma coisa é trabalhar por 10, 12h por dia de quarta a domingo, como as equipes fazem normalmente, sabendo que terá dois dias de folga e voltará a fazer isso por mais quatro dias e voltará à fábrica. Isso, está todo mundo treinado para fazer. Outra coisa é repetir, por duas vezes, esse procedimento por três semanas seguidas e, ao invés de uma folga, ter de se manter confinado no hotel. E ainda, é claro, ter de render 100% até o domingo do segundo GP na Inglaterra, quando termina essa maratona inicial.

Junte-se a isso o fato dos carros estarem praticamente congelados, como uma das formas de frear os gastos na era da covid, e teremos um campeonato em que outras máquinas, as humanas, serão testadas mais do que nunca.

2 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Belo texto, dura realidade!
    E como sabemos, pelos seus tantos relatos e detalhes, essa carga pesada também recai sobre vocês, da imprensa!
    Aliás, talvez, até pra quem pega, gostosamente, um pratinho e vai para a frente da TV, por apenas duas horas, já sentirá os excessos dessa “maratona”!!!

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  2. Paulo Moreira disse:

    Vai ser uma temporada muito dura para todos, onde a pressão vai ter um papel fundamental.
    O choque também vai ser grande. Vamos passar de uma longa pausa, sem corridas, para um calendário apertado e com provas em fins de semana seguidos.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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