Campeonato “europeu” de F1?

Um segundo GP na Itália está na mesa de discussões

A cada notícia que se vê por aí, fica mais claro que a Fórmula 1 não sai da Europa se não puder contar com público. Na verdade, mais com VIPs do que com público, mas chego lá em algumas linhas. Ainda que a reabertura na Europa e em partes da Ásia esteja sendo até acelerada, e com poucos focos de uma segunda onda de infecções por coronavírus que vem tímida até o momento, ainda é arriscado pensar em aglomerações. Quer dizer, elas até têm acontecido em vários lugares do mundo pela falta de discernimento das pessoas, então vou refazer a frase: ninguém quer correr o risco de promover um evento que possa se tornar o novo Atalanta x Valência.

Não é por acaso que a F1 tentou garantir, primeiro, as 8 provas necessárias para validar o campeonato, e “cumprir a tabela europeia”. Mantendo os GPs no continente, é possível equilibrar gastos e receitas desse tal “novo normal”. O complicado sempre seria o próximo passo, como já estava prevendo em abril. Na época, Silverstone estava pedindo 19 milhões de dólares, o mesmo que paga para receber a corrida anualmente, para realizar duas etapas. Mas não levou. Provavelmente eles terão algum lucro, mas muito menor.

Isso se repete com todos os circuitos que estão no calendário das 8 corridas: recentemente, saiu a notícia de que a F1 estendeu contratos de Bélgica e Hungria por mais um ano. Isso quer dizer que o valor do contrato segue o mesmo, mas a corrida deste ano sairá de graça para os promotores, justamente por que as provas serão realizadas sem público.

Até aí, tudo bem: A F1 cobre os gastos dos promotores, já que eles não podem vender ingressos, pode deixá-los ficar com o dinheiro das placas de publicidade (dependendo do contrato, essa quantia já é deles mesmo e, em outros, o lucro é dividido, mas a questão é que essa seria outra fonte de renda que pode ser explorada) e ganha de volta com o campeonato acontecendo e tudo que o isso representa em termos de dinheiro vindo da TV e patrocinadores, duas das suas três grandes fontes de renda. 

O problema começa quando os custos de operação das corridas aumentam. Em outras palavras, o problema é sair da Europa sem poder cobrar as taxas dos promotores. 

Por isso, achei curiosa a escolha da manchete do que chamamos de network (Motorsport.com e Autosport): “Dois GPs são oferecidos à China”. Como se não fosse a F1 que estivesse precisando mais do que nunca da China (com todas as ironias que a situação possa suscitar). Eles, na verdade, “ofereceram” que a China pagasse por dois GPs, o mesmo que fizeram com a Rússia.

Mas a conta tem de fechar dos dois lados. A Liberty não pode se dar ao luxo de deixar de cobrar pelas provas fora da Europa porque elas são muito mais caras. É a F1 quem transporta, por exemplo, a maior parte (até 70 toneladas) do equipamento das equipes nestes casos, enquanto, na Europa, são elas mesmas, por via terrestre. E os preços de envio de carga estão nas alturas devido à pandemia. 

Mas é realista pensar em corridas com público nem que seja em outubro? O Vietnã e a Rússia já estão retomando futebol com número limitado de torcedores. Mas é uma comparação perigosa. O que vale a pena mesmo na F1 é o Paddock Club, aquele ingresso (mais corporativo que qualquer coisa) vendido a 5 ou 6 mil dólares a cabeça. Note que não é difícil para os promotores recuperarem uma boa parte do race fee apenas com estes ingressos, inclusive. Mas ter Paddock Club quer dizer ter pessoas contratadas para cozinhar, servir, montar os espaços VIP, quer dizer passeios pelo paddock e pelo pit lane, quer dizer encontrar pilotos. Não é um ingresso que pode ser comercializado com a premissa de distanciamento social.

Que a F1 vai sair da Europa em algum momento, isso é dado como certo. Bahrein e Abu Dhabi vão encerrar o campeonato. São lugares com números relativamente altos de casos, mas pelo melhor motivo possível: os governos foram enérgicos nas restrições e investiram em testes em massa. Os dois (Bahrein e Emirados Árabes Unidos) estão entre os 5 países com mais testes por milhão, sendo que os demais são territórios com menos de 70.000 pessoas. Para ter com base, o Bahrein tem mais de 1.6 milhão de pessoas e o EAU, quase 10). Ou seja, eles podem prover ambientes mais seguros para seus torce… para seus VIPs. Aí a conta fecha.

1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Vamos torcer para que seja mesmo um “Mundial” e não um “Europeu ” de F1.
    As coisas no continente Americano não estão famosas, mas pode ser que lá para Novembro já tudo esteja bem melhor.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

    Curtir

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