Mexendo na grana

Bernie Ecclestone sempre foi muito rápido ao apontar o dedo para o motor V6 turbo híbrido, adotado em 2014, como o grande culpado pelo abismo de performance entre as equipes. Sempre “esqueceu-se” dos contratos bilaterais que fechou com as equipes em 2012 (o que também foi o início da queda de importância da FIA, já que, pela primeira vez desde 1981, não foi firmado um Pacto da Concórdia, ou seja, um acordo entre todas as equipes, FIA e detentor dos direitos comerciais). Tais contratos, que acabam ao final de 2020, deram a Mercedes, Ferrari e Red Bull quase 60% de todo o dinheiro distribuído às equipes. E as outras sete dividem o restante.

Quando a FIA definiu que o regulamento esportivo seguisse o mesmo para 2021, isso também significou uma espécie de extensão forçada para os contratos com as equipes, ainda que haja a possibilidade de mudar isso. A partir daí, a F1 atacou áreas que julgou serem prioritárias, jogando as novas regras para 2022 e puxando o teto orçamentário para 2021 (e diminuindo-o). Mas a verdade é que falta esta última peça no quebra-cabeça do futuro da F1: distribuir o dinheiro dos direitos comerciais de forma mais justa.

O que existe hoje em dia como resultado dos tais acordos bilaterais é uma divisão complicada com um valor básico para todas as equipes (35 milhões de dólares), uma parte que depende do resultado no campeonato de construtores e (aí a coisa começa a ficar desigual) uma série de bônus que só cinco equipes ganham, e que variam enormemente entre si. A Williams fica com mais 10 milhões (levando em consideração os números de 2019, já que é sempre uma porcentagem que varia do valor total do que foi arrecadado no ano anterior), a McLaren com mais 33, a Red Bull tem mais 71, a Mercedes 76 e a Ferrari com mais 114. É por isso que um vice-campeonato ferrarista rende mais dinheiro que um título para a Mercedes, por exemplo.

A decisão da FIA de jogar as regras para 2021 significa que esses contratos também ficam valendo por mais um ano, a não ser que a Liberty consiga chegar a outro acordo com as equipes.

Na longa entrevista que deu logo depois que as oito primeiras datas do calendário foram divulgadas, Chase Carey deixou claro que a Liberty vai tentar fazer justamente isso, agora que questões mais latentes (regras, teto orçamentário) saíram do caminho. “Nada precisa ser estendido. Podemos essencialmente implementar algo e dizer ‘se vocês quiserem competir, estes são os termos’.” E as negociações não envolverão a FIA novamente, como Jean Todt já confirmou, embora Ross Brawn tenha afirmado que há partes em que o “órgão de governança”, ou seja, a FIA, estará implicado e seria justamente nessa questão que o contrato estaria emperrado, e não na distribuição do dinheiro em si. A ver.

Mas isso quer dizer que a F1 pode entrar em 2021 sem um novo acordo comercial e com a possibilidade de equipes deixarem o esporte? Isso já aconteceu em um passado recente, no final dos anos 2000, quando o acordo vigente acabou sendo estendido e houve, sim, um movimento de rebeldia dos grandes para criar uma liga paralela, o que, no final das contas, acaba explicando os contratos pouco igualitários em vigor até hoje. Mas é justamente por conta do rombo de performance que estes contratos criaram que existe um consenso maior sobre o caminho que se deve tomar. Então, se a missão é não só curar-se dos efeitos diretos do coronavírus, e sim colocar a F1 em um lugar melhor e mais competitivo no futuro, ela passa por finalizar estes contratos.

3 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo Pereira disse:

    Ju, bom dia.

    Mais uma vez, parabéns pelo post de sempre.

    O teto orçamentário é visto com bons olhos pelas equipes em 2022, com esse novo regulamento?

    Outra dúvida que eu tenho é, como será feito o controle de atualizações dos carros desse ano e do ano que vem com esse “congelamento” ?

    Abraços Ju.

    Curtido por 1 pessoa

    1. O teto orçamentário é um pouco alto ainda para fazer um grande efeito. Ele ficou em 145 milhões de dólares no primeiro ano e, para você ter uma ideia, as equipes menores estavam pedindo 100. Por isso também esses novos contratos de divisão de dinheiro serão tão importantes.
      E acabei de escrever um texto sobre o “congelamento”, vou subir na semana que vem!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Paulo Moreira disse:

    As equipas grandes vão continuar a ser sempre beneficiadas, sejam quais forem as regras. Elas, as equipas grandes, sabem o poder e a importância que têm na F1 e usam isso a seu favor. Veja-se, por exemplo, a Ferrari. Ainda à pouco, quando se negociava o tecto orçamental, ameaçou que poderia deixar a F1, e é impensável a F1 sem a Ferrari.
    Por isso vão haver sempre enormes distancias entre as grandes equipas e as menores. Nunca vai haver equilíbrio, seja desportivo ou financeiro.

    cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para Julianne Cerasoli Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.