Do fundo do baú: Um GP traumático para os ingleses

Imagine um heroi nacional saindo na pole position em sua corrida caseira e travando uma batalha feroz com Ayrton Senna, a ponto de ver o brasileiro errar logo a sua frente. Mas ele não é um heroi como os outros. Com ele, sempre tem de acontecer alguma reviravolta. Um problema no câmbio que começou tímido vai aumentando, e ele perde o controle do carro, sai da corrida, e ainda vê o companheiro de equipe batê-lo novamente. 

Totalmente destruído emocionalmente e cansado de ver a história se repetir, ele anuncia que está deixando as pistas. E causa uma comoção nacional. Nos jornais, são iniciadas campanhas para que ele desista da ideia, e torcedores até se propõem a financiar uma volta, que eventualmente acaba acontecendo.

Parece roteiro de filme, mas aconteceu há 30 anos. O heroi é um bigodudo aguerrido que, lembram os colegas jornalistas da época, adorava reclamar de tudo. Criou, assim, uma narrativa adorada por fãs de que tudo era mais difícil para ele. No fundo, tem hora que todo mundo se sente assim, e desta forma ele se tornou alguém como todo outro britânico. Na era moderna da Fórmula 1, nunca um piloto encarnou mais o espírito de seu povo quanto Nigel Mansell.

Foi ele quem largou na pole no GP da Inglaterra de 1990, no que se tornou uma corrida emblemática. Depois de duas temporadas de domínio absoluto da McLaren-Honda, era a terceira vez que eles eram derrotados. A primeira, contudo, em que não havia nenhuma circunstância especial (como o furo do pneu do México ou o pitstop ruim da França): o conjunto da Ferrari de Mansell e Prost foi melhor por todo o final de semana.

A diferença, contudo, não era grande. Senna largou em segundo e pulou na ponta logo nos primeiros metros, iniciando uma briga com Mansell que duraria 12 voltas, sendo as últimas três de ataque implacável de Mansell até ele assumir a liderança, para delírio de 100.000 torcedores, que veriam, duas voltas depois, Senna rodar, perder posições, trocar pneus, e voltar só em 10º.

Já havia indícios de que o chassi da Ferrari era ligeiramente melhor, mas em Silverstone a Honda teve a dolorosa confirmação de que já não tinha a vantagem dos anos anteriores. A rodada de Senna mostrou uma McLaren nervosa, que teve de diminuir a asa para concorrer com os carros vermelhos. E mesmo assim não conseguia ter o mesmo ritmo.

Um pouco mais atrás, o outro piloto ferrarista vinha atacando seus rivais. Primeiro passou Boutsen, e depois Berger. Como de costume, de uma hora para a outra Prost apertou o passo e se tornou um candidato à vitória. Ainda mais depois que o câmbio ferrarista começou a dar dores de cabeça para Mansell, como era de costume naquela época em que os semi-automáticos eram novidade.

Quando os problemas pioraram, Mansell perdeu a direção do carro e teve de abandonar, dando a vitória ao companheiro. Mais do que o abandono, havia como pano de fundo uma suspeita do inglês de que a Ferrari estava beneficiando seu companheiro, contratado para ser primeiro piloto. Vendo que o carro de Mansell estava se comportando melhor nas corridas anteriores, Prost teria pedido que os chassis fossem invertidos, o que aconteceu.

Foi demais para o leão, que anunciou, emocionado, tão logo abandonou em Silverstone, que deixaria a Fórmula 1 no final daquela temporada. A decisão foi mantida por vários meses, em meio a uma temporada pra lá de desapontadora, com apenas uma vitória, enquanto Prost levou a disputa pelo campeonato com Senna até o final.

Porém, depois de não conseguir contratar a jovem sensação Jean Alesi, Frank Williams passou a cortejar Mansell, que fez uma série de exigências: queria ser o número 1 da equipe por contrato, com direito a tratamento especial inclusive dos parceiros da equipe. Negociador duro, Frank primeiro disse que seria impossível, e três semanas depois mudou de ideia. Mansell lutaria pelo título em 91 com Senna e depois conquistaria seu único campeonato no ano seguinte. Mas essa já é outra história.

3 comentários Adicione o seu

  1. WAGNER DE ALMEIDA OLIVEIRA disse:

    Grande Nigel Mansell, idiota veloz ou gênio? Talvez um pouco dos dois… O que vc acha dele, Julianne?

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  2. Akihiro disse:

    Igualar as 27 vitórias de Stewart? Acho que Prost fez isso em 87.
    A vitória em Silverstone foi a de número 43, senão me engano.

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  3. Paulo Moreira disse:

    Pena o Senna não ter ido para a Williams no final de 1990, mas nesse ano, ninguém imaginava que a Williams iria crescer como cresceu e passar a ser a equipa a abater.

    O Mansell, tanto era bestial, como uma besta. As corridas dele em Silverstone, principalmente com a Williams, era uma coisa do outro mundo. Se em todas as corridas ele fosse como era quando corria em Inglaterra, tinha sido um dos melhores pilotos mundiais.

    cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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