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O mais importante

Steve Etherington/Mercedes

 

Ilha de Zamami, em Okinawa, lugar isolado no Japão, com uma população de 600 pessoas. Eu era o único rosto não oriental do acanhado restaurante. Os locais, após uma ou duas cervejas, tomaram coragem para tentar entender o que eu estava fazendo ali. Nos comunicávamos por gestos e uma palavra ou outra em inglês. Eu era do Brasil, tinha ido ao Japão a trabalho, em Suzuka. E uma das mulheres com quem conversava exclamou: “Aytô Senna!”

Outra situação que vivo mesmo quando tento “me esconder” do mundo da F1 em minhas andanças por lugares pouco explorados é ouvir a pergunta “mas você sabe algo a mais do Schumacher?”

Estes eram os dois personagens que transcenderam a Fórmula 1 até a chegada de Lewis Hamilton. E isso não aconteceu só porque eles foram grandes pilotos. Não coincidentemente, Senna e Schumacher foram grandes quando a categoria estava na TV aberta em vários mercados, tinha ampla cobertura dos jornais diários na Europa, no Japão, por aí (em uma época em que, se algo não estava na TV e no jornal, praticamente não existia). Senna ganhou fãs fora das pistas pelo ar quase divino como explicava seus feitos, pelas frases que até hoje vira e mexe vemos nas redes sociais de quem menos esperamos. E Schumacher levou outra marca que transcende a F1 de volta aos títulos, fez o inimaginável em termos de resultados, virou sinônimo de perfeição. Aquela época foi vendida pela mídia como: “história está sendo feita e jamais será repetida.”

O mundo mudou muito nos últimos 20 anos. Os chamados zoomers ou late millennials (basicamente, quem nasceu depois que Senna morreu, para simplificar as contas) que estão lendo isso talvez não tenham a dimensão do que aconteceu. Antes, especialmente das mídias sociais, dos streamings, dos algoritmos, havia, de fato, artistas que “todo mundo” sabia quem eram, as notícias que “todo mundo” tinha visto. Hoje, não. O “todo mundo” virou sua bolha, e você nem percebeu.

Por isso, o mérito de Lewis Hamilton como figura que transcende a Fórmula 1 justamente na era dos nichos é gigantesco. Da época de Schumacher para cá, a categoria saiu da TV aberta na grande maioria dos países, saiu das homepages (as novas primeiras páginas de jornal). Hamilton começou a estourar a bolha há quase 10 anos, no início mais tateando qual seria seu caminho, e nos últimos anos, compreendendo seu impacto, passou a usar o esporte como vitrine.

Ao invés de tornar a F1 sem graça por vencer tanto, ao usá-lo como plataforma para lutar pelo que acredita, ele aumenta seu alcance, algo que muitas vezes a bolha, presa em seu sabão, não consegue ver. 

“Ah, se fosse qualquer outro piloto, já teria sido punido”: ele faz o que faz e desafia o status quo justamente porque ele sabe que não é “qualquer outro”. Até porque, sabemos, e vimos recentemente no Brasil, com o exemplo do ginasta Ângelo Assunção, o resultado de quando isso acontece. “Ah, esporte não é lugar de política”. Podemos compreender que, quando a palavra política é empregada neste contexto, ela está afastada de sua origem grega da arte de viver em sociedade, e  se refere mais ao exercício de poder organizado. Por mais que muitos tentem colocar (e não é de hoje) qualquer transformação social ou luta por direitos humanos neste segundo campo do político enquanto poder organizado a fim de desvalorizá-la, ela só é política no sentido original do termo. E até o COI, uma das organizações mais arcaicas de nossa sociedade, e que puniu Tommie Smith e John Carlos depois da manifestação antirracista nas Olimpíadas de 1968 (fato que, inclusive, perdeu importância diante de como aquela imagem ainda está marcada em nossas retinas), está revendo seus estatutos porque sabe que os Jogos de Tóquio serão marcados por mulheres, negros, e quem quer que tenha sido deixado à margem da história, levando o seu recado.

E, sim, vai ser no pódio (da corrida número 1000 da Ferrari, inclusive). Vai ser posado, e não negando-se a correr no país X ou Y, escondendo-se. Porque as imagens são fortes, e estar no lugar mais alto do pódio só fortalece sua plataforma.

Está na hora de admitir que nunca vimos um piloto de F1 ser tão importante quanto Lewis Hamilton.

13 comentários em “O mais importante”

  1. Não sou muito de comentar. Mas que perfeição de texto, a forma leve como foi feita a abertura e a crescente até um punch final maravilhoso. Sem sombra de dúvidas, mais uma vez, estamos no momento a “História está sendo feita e jamais será repetida.” Que bom que de tempos em tempos isso acontece, para balançar o mundo. Parabéns pelo trabalho, e continue escrevendo a historia.

  2. Parabéns pelas palavras, acompanho você a tão pouco tempo e estou percebendo que perdi ótimos textos como esse. Parabéns

  3. O Lewis Hamilton é um homem de princípios, ele tornou possível que um homem negro tem toda capacidade, e competência, e se tornou o maior e melhor piloto de formula 1- é respeitado num meio que só os brancos e abastados filhos de família ricas e tradicionalmente conhecida, podia correr na formula 1-lewis Hamilton assim está escrevendo a sua história, como o maior e melhor piloto de formula 1 de todos os tempos, e nunca se omite nas horas e momento que o mundo precisa de uma pessoa importante e conhecida em todas as mídias,pra fazer valer sua posição num mundo que vivemos, de mentiras e hipocrisias, Lewis Hamilton campeão do mundo, para SEMPRE👍❤️❤️😘

  4. Há alguns erros no texto que atrapalham a leitura , mas não o entendimento. Nico Rosberg foi extremamente importante para o amadurecimento de Lewis, mostrando que a Força Mental está acima de tudo. Então , aprendendo isso, Lewis se torna imbatível… talvez até para Fangio, Clark, Senna, Prost, Schumacker…
    HE’S THE BETTER!

  5. Excelente texto!
    Muito legal a forma como você mostra uma verdade incontestável, a que o esporte, as pessoas e a política não são dissociados uns dos outros, e que Lewis Hamilton é uma personalidade no esporte, na sociedade e na política.

  6. O de melhor piloto ele disputa com Schumacher, e vai se tornar o maior de todos.

    O de mais importante, ele disputa com Senna , e aí eu acho que ele ainda perde, a influência de Senna é gigantesca , basta apenas assistir a vinheta oficial da F1 e contar quantas vezes o capacete amarelo aparece.

    A verdade é que Lewis e Ayrton conseguiram transcender as pistas , porém Senna ainda tem um carisma maior.
    Porém no quesito ativismo Hamilton da de goleada.

  7. Sensibilidade! É tudo que posso dizer deste texto, desta leveza, desta obra. Parabéns, Ju, e viva a postura de Lewis Hamilton, dentro e fora das pistas.

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