Do fundo do baú e a síndrome do impostor de Damon Hill

Em 18 meses, Hill foi de piloto de testes a primeiro piloto da Williams

 

Olhando de fora, a história de Damon Hill, que completou 60 anos na semana passada, parece um conto de fadas: o pai, Graham, venceu em uma Fórmula 1 em que os cavalheiros e sonhadores ainda tinham espaço, e sobreviveu também, à era em que o esporte matou mais pilotos. Acabou falecendo já chefe de equipe, em um acidente de avião. Mas Damon não deixou o nome da família perecer: lutou por anos para chegar à categoria máxima do automobilismo, e finalmente conquistou o título derrotando ninguém menos que Michael Schumacher.

A realidade não poderia estar mais distante desta descrição tão romantizada.

Mesmo sendo filho de um bicampeão do mundo, Damon só começou a carreira – andando de moto – aos 21 anos e isso tem um motivo claro: quando morreu, seis anos antes, Graham deixou a família coberta de dívidas. O estresse do ex-piloto já era claro para a família, mas eles não sabiam do tamanho do rombo, e muito menos esperavam que houvesse erros na manutenção do seguro, impedindo seu pagamento.

Filho mais velho, Damon passou a fazer trabalhos braçais e atuar também como motoboy em seus últimos anos de escola para ajudar a família a se reerguer. Não que a vida tenha sido livre de conflitos antes disso: Graham sempre foi descrito pelo filho como um pai de convívio difícil, e muitas vezes distante.

Não é difícil entender por que Damon, lá pelos 20 anos, se sentia perdido. De um lado, achava que tinha a missão de salvar a reputação dos Hill no automobilismo. De outro, precisava sobreviver.

A carreira nas categorias de base não teve brilho, mas ainda assim ele foi progredindo, o que gerou outro conflito: 

“Durante minha carreira sempre fiquei confuso se eu era autenticamente um piloto, ou se eu era alguém para quem uma missão foi dada antes que eu pudesse me encontrar”.

No final das contas, ganhou o sentimento de que ser piloto daria algum tipo de sentido a sua vida. 

Voltando à carreira, Hill abandonou as motos depois de dois anos, a pedido da mãe. Na Fórmula Ford, foi no máximo terceiro no campeonato nacional na Inglaterra. Nos três anos de F3, também não passou de terceiro, tendo de emprestar o equivalente a mais de meio milhão de reais para seguir a carreira. Na F3000 (equivalente à F2 de hoje), chegou a fazer poles e liderar corridas, mas não venceu uma prova sequer. Mesmo assim, foi chamado pela Williams para ser piloto de testes em 1991, aos 29 anos.

Paralelamente, o inglês estreou na F-1 pela Brabham, que acabou não terminando o campeonato por falta de patrocínio. No ano seguinte, a Williams substituiria o campeão Mansell por Prost, e Hill ficaria com a segunda vaga. O francês seria campeão, anunciaria a aposentadoria, e Senna seria contratado em seu lugar. Após a morte do brasileiro, em 18 meses Hill seria alçado do papel de piloto de testes a líder do time, lutando por vitórias contra Michael Schumacher.

O alemão teria um ano conturbado em 1994, com muitas suspeitas de irregularidades em sua Benetton, e um campeonato que parecia fácil depois das primeiras etapas chegou indefinido na decisão na Austrália. Durante a corrida decisiva, Hill forçou Schumacher ao erro e, quando tentou ultrapassá-lo, foi atingido. Os dois abandonaram a prova e Schumi foi campeão pela primeira vez.

O título só viria dois anos depois, quando a Williams tinha o melhor carro e Schumacher decidira aceitar o desafio de reerguer a Ferrari. Hill venceu metade das 16 provas e foi campeão aos 36 anos.

No meio da temporada, entretanto, Damon ficou sabendo que Frank Williams tinha decidido não renovar seu contrato. Parece surreal que o time que hoje está na rabeira do grid já tenha tido esse tipo de prática: dispensar, como fez por quatro oportunidades, campeões mundiais.

O que se seguiu foi uma série de decisões ruins, primeiro de ir para a Arrows, que sofria no fundo do pelotão, e depois para a Jordan, conquistando a primeira vitória da história do time, em uma corrida maluca na Bélgica. Sua carreira terminou de forma melancólica, com um abandono por exaustão no GP do Japão do ano seguinte. “Por um lado estava triste por ter acabado daquele jeito, aliviado por estar vivo e inteiro, e envergonhado por ter desapontado a equipe.”

Essa sensação de incompletude o perseguiria após a aposentadoria da F-1, quando apostou em alguns negócios que não deram em nada. Até que decidiu tratar-se da depressão, voltar a estudar, formou-se em literatura e acabou retornando ao paddock como comentarista de TV. Ainda assim, nas poucas vezes em que nos falamos, sempre havia uma desconfiança no ar, muita insegurança, e por isso me parece tão intrigante que Damon insista em permanecer num ambiente em que não parece se sentir à vontade. Não é tão fácil, afinal de contas, carregar nas costas o orgulho de uma família.

8 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    UAU!!! Quanta coisa nesse texto. Daria pra abrir umas cinco janelas de fartos assuntos…. acho que Damon teve enorme torcida do Brasil em 94 para derrotar aquele alemão vigarista! Foi companheiro de equipe de Prost e de Senna…nunca tinha pensado nisso. Afinal, tirou o pé da lama???

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  2. Menina, meus sinceros parabéns pelo texto excelente. Você hoje é a melhor.

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  3. Robson Coimbra disse:

    Em abril de 2006, Hill sucedeu Jackie Stewart como presidente do British Racing Drivers’ Club (BRDC), proprietários do autódromo de Silverstone. Hoje é David Coulthard seu presidente.

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  4. Paulo Moreira disse:

    O Damon foi um bom piloto. Apesar de não ter sido extremamente rápido, foi sempre leal e ganhou, com toda a justiça, o campeonato de 1996.
    Teve em 1994 uma missão muito dura e que ele deu uma boa resposta. Carregar aos ombros a equipa Williams depois da morte do Senna.
    Engraçado como já passaram mais de vinte anos e todas essas corridas estão bem vivas na memória.

    cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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  5. Matheus Fagundes disse:

    Parabéns pelo texto. Acompanho a F1 desde o primeiro título do Mika Hakkinen, o Damon Hill era uma figura misteriosa do grid pra mim, meteórico que nem o Jacques Villeneuve. Legal conhecer um pouco mais sobre o piloto.

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  6. Carlos André disse:

    Texto sensível e muito bem escrito. Parabéns.

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  7. Fernando disse:

    Parabéns pelo texto!

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  8. Lucas Canarie disse:

    Texto maravilhoso! Hill parece ser um cara gente boa, humilde.

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