Do fundo do baú: E a Ferrari sai da fila após 21 anos

Divulgação/Ferrari

O título de construtores já tinha vindo na temporada anterior, mas na época pouco se falava nele. A Ferrari tinha sido campeã entre as equipes em 1982 e 83, no entanto só se comentava sobre os mais de 20 anos de fila, referência ao último trunfo entre os pilotos, que havia sido com Jody Scheckter em 1979. E a pressão era gigantesca.

Desde que Schumacher chegou e o time com Todt, Brawn e Rory Byrne foi tomando forma, por um lado um título no mundial de pilotos parecia questão de tempo, por outro, parecia que estava demorando tempo demais. E a fila poderia ter continuado ao final daquela temporada de 2000. A Ferrari tinha começado melhor, mas uma série de abandonos colocou Mika Hakkinen e a McLaren de volta na jogada. Com quatro corridas para o fim, era Mika quem liderava com seis pontos de diferença (para transformar no sistema de pontuação atual, dá mais ou menos certo multiplicar por 2,5, ou seja, uns 15 pontos). Mas Schumacher ganhou na Itália e, no GP dos Estados Unidos, o alemão venceu de novo e Mika teve uma quebra no motor.

Com isso, ele chegou ao GP do Japão, que completa 20 anos nesta semana, precisando de uma vitória simples para ser campeão com uma corrida para o final. Pode soar algo tranquilo, mas não com o tamanho da pressão com a qual todos tinham de conviver na Ferrari. O quanto antes o campeonato fosse selado, melhor.

No sábado, Hakkinen vinha dominando a classificação até o final, quando foi batido por Schumacher por míseros 9 milésimos. Ou oito metros. Mas a alegria ferrarista não durou muito e o finlandês passou Schumacher nos primeiros metros da corrida. Os dois pareciam estar em outra categoria, em um daqueles duelos que, por três anos, fez com que ambos pilotos evoluíssem de forma que talvez não conseguiriam sem serem forçados daquela forma.

Nos primeiros pit stops, tudo normal: Hakkinen parou uma volta antes e saiu na frente. Mas logo depois começou a garoar. Seria uma água que não cairia de vez, mas mudaria as condições de pista. Além disso, Hakkinen e Schumacher tinham de lidar com o tráfego intenso de retardatários, e a tensão de estarem constantemente separados por menos de 1s.

A corrida tinha se tornado um jogo de xadrez, e logo muito provavelmente o melhor jogador de “xadrez das pistas” de que se tem notícia entrou em jogo. Ross Brawn tinha planejado tudo: mudanças nas asas durante a parada fizeram com que a Ferrari estivesse mais equilibrada para lidar com o asfalto menos aderente com um chuvisco que ia e vinha. E tinha colocado combustível suficiente para ficar mais tempo na pista do que a McLaren.

Quando Hakkinen parou na volta 37, Schumacher não o seguiu. O alemão só pararia três voltas depois. “Não achava que tinha feito o suficiente”, disse Michael após a prova. “Mas quando estava no pitlane Ross disse que as coisas estavam indo bem. E depois disse “as coisas estão indo muito bem”. E foi o momento mais incrível da minha carreira.”

Sim, Schumacher voltaria até com folga na frente de Hakkinnen, que tentou reagir e diminuiu a diferença, mas acabou 1s8 atrás. 

A vitória que liberou o grito de campeão que estava preso na garganta dos ferraristas por tanto tempo acabaria sendo emblemática. Afinal, quantas não foram as provas ganhas exatamente desta mesma maneira por Schumacher e Brawn. Mas com uma diferença, como salientou o britânico com tanta frieza que nem parecia estar fazendo história.

“Agora que chegamos lá acho que aquela pressão intensa vai desaparecer e a equipe estará mais relaxada. A sensação será muito diferente.”

Diferente e vencedora. Aquele seria o segundo de seis títulos seguidos de construtores. E o primeiro de cinco em sequência de Michael Schumacher na Ferrari, iniciando uma era que até hoje tem reflexos na Fórmula 1, com vários pilotos sendo inspirados pelo alemão. Que o diga Sebastian Vettel, que nunca escondeu que sua paixão pela Ferrari passava muito por estes anos de sucesso de seu ídolo.

Então fui perguntar a Vettel o que lembra desse dia:

“Não tinha noção do ‘tamanho do projeto’, digamos assim, na época. Na verdade, eu lembro muito mais da corrida de 1999 de Suzuka porque ele abandonou. Foi uma pena vê-lo abandonando estando tão perto de vencer o campeonato com a Ferrari. No ano seguinte, parecia algo que estava mais ao alcance. Já em 1999 mesmo parecia que era uma questão de tempo. Não lembro exatamente onde estava, provavelmente em casa. Eu tinha uns 13 anos, então na época você não pensa sobre o que tudo aquilo significa. Só estava contente por ele.”

1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Apesar de eu gostar da Ferrari, nessa época eu torcia pelo Hakkinen porque nunca fui à bola com o Schumacher.
    A Ferrari tinha uma equipa incrível, bem diferente de hoje.

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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