Por dentro da F1: As “anotações do diretor de prova”

Há quem diga que a F1 é cheia de frescura, mas olhando sob outra perspectiva, é essa complexidade que torna o esporte tão interessante. Um aprendizado da última corrida para muitos foi a descoberta que há uma espécie de manual de instruções do diretor de prova que é enviado para as equipes a cada corrida.

Tenho que admitir que só soube da existência das anotações do diretor de prova (race director notes) depois que comecei a ir nas corridas e, por conta disso, passei a recebê-las. Aliás, é assim que os jornalistas têm acesso rápido a punições, por exemplo: o documento explicando por que o piloto X ou Y foi punido, por qual artigo, e às vezes junto de uma longa explicação, chega diretamente no nosso email.

Voltando às instruções do diretor de prova, elas são enviadas às equipes geralmente na quinta-feira pela manhã, e contêm todas as informações que vão mudando a cada evento. Estão lá, por exemplo, as especificações da entrada e saída dos boxes (onde está a linha, onde começa a contar o limite de velocidade, etc.)

Um detalhe importante, por exemplo, é a informação se, na entrada dos boxes, o piloto tem de passar à direita ou à esquerda de um cone. Sem essa informação, às vezes os fãs podem ficar confusos se um piloto parece decidir de última hora entrar no pit, cruzando a linha branca, e não é punido, e outro é punido na corrida seguinte. Essas entradas não funcionam da mesma maneira em todo GP, e isso é um dos detalhes explicados nestes documentos.

Curiosamente, é nas anotações do diretor de prova, e não nas regras esportivas, que estão as especificações para as bandeiras azuis, provavelmente para permitir mudanças de maneira ágil: “o sistema dará um aviso quando o carro mais rápido estiver a 3s do carro prestes a levar uma volta, e deixar o carro mais rápido passar deve ser uma prioridade. Quando o carro mais rápido estiver a 1s2, as bandeiras azuis vão aparecer, junto dos painéis azuis e das luzes azuis no painel e o piloto deve permitir que o carro mais rápido o passe na primeira oportunidade.”

Outra informação sempre importante é sobre mudanças na pista em relação ao ano anterior: vira e mexe, tem uma zebra que mudou do perfil, uma área de escape com algo diferente, etc. E, também, se a direção de prova estiver de olho nos limites de pista em alguma curva específica, isso estará bem explicado, também, neste documento (como por exemplo, na Rússia, havia a explicação do que seria aceito para retornar à pista na problemática curva 2 – aliás, a explicação sobre aquela curva específica tinha SEIS partes!). Em Nurburgring, eles vão estar de olho principalmente na curva 4.

O documento também informa como saber se o DRS está desativado (isso acontece quando algum dos painéis próximos à zona de ativação está amarelo, indicando, é claro, uma bandeira amarela). E também, como tanta gente descobriu na última corrida, é lá que está determinado onde os pilotos podem treinar largadas. Inclusive, essa parte ganhou uma atenção especial neste GP depos de toda a polêmica da Rússia:

Curiosamente, eles estabeleceram um ponto para treinar largada para os treinos livres e outro para a corrida, então agora Hamilton não vai poder reclamar que o ponto escolhido está emborrachado demais.

Os limites de cambagem, pressões de pneus e temperaturas em que eles devem ser mantidos também estão lá, pois são outras determinações que variam a cada GP.

É como se fosse um organismo vivo, diferentemente das regras, pois pode ser alterado até mesmo ao longo do final de semana de corrida. Inclusive, não é raro que o local de treino de largada seja alterado ou melhor delimitado.  

Para finalizar, há alguns mapas mostrando onde estão todos os postos de fiscais, onde os carros podem ser retirados e um, ainda mais detalhado, do pitlane – onde os fotógrafos não podem ir, onde fica cada uma das equipes, onde fica o pole, onde fica a linha de chegada, onde fica o painel que indica o status do pitlane (sim, outro detalhe que ficou famoso nesta temporada: o painel que mostra, com o X, se o pitlane está fechado).

Quaisquer mudanças neste documento ao longo do final de semana são discutidas geralmente na reunião dos pilotos e os diretores de corridas das equipes (cada uma, verdade, tem um nome para este cargo, mas este é o mais comum – são Meadows na Mercedes, Mekies na Ferrari, Wheatley na Red Bull, Budkowski na Renault, e por aí vai). Cabe a eles, por sinal, conhecer as regras de cor e salteado. 

Nestas reuniões, que acontecem sempre no final da tarde da sexta-feira, então depois dos treinos livres, é perguntado se há alguma dúvida sobre as instruções e, em seguida, os pilotos podem levantar as questões que quiserem. Há reuniões que duram 5 minutos, e há outras que levam mais de uma hora – a de Sochi foi longa, já que eles discutiram muito o acidente na relargada em Mugello.

Todas as atualizações nas anotações do diretor de prova são enviadas em um novo documento, e as mudanças ficam grifadas em rosa. Isso serve para as regras também: se você quiser encontrar todas as mudanças em um regulamento de um ano para o outro, é só procurar pelas letras cor-de-rosa.

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