Por que Schumacher e Hamilton ganharam tanto?

Steve Etherington/Mercedes

Quando Jackie Stewart chegou a 27 vitórias em 1973, poucos apostavam que seria um número facilmente superado. Afinal, ele tinha vencido mais do que Jim Clark, que dominara amplamente com a Lotus nos anos 1960. Na época, acreditava-se que seria difícil ver um conjunto carro-piloto tão forte quanto o de Clark, que morreu prematuramente, e, de fato, o recorde de Stewart levaria 15 anos para ser batido, por Alain Prost.

O francês estabeleceu outro recorde, de 51 vitórias, que Michael Schumacher conseguiu bater relativamente cedo, com 10 anos de carreira, em 2001. O alemão e a Ferrari ainda não tinham tido nenhuma temporada tão absoluta quanto seriam 2002 e 2004, que inflaram seus números: levou somente cinco anos e pouco menos de dois meses para o alemão chegar ao recorde de 91 vitórias, igualado neste domingo por Lewis Hamilton.

O abismo entre os números de Schumacher e Hamilton e tantos outros grandes da história da Fórmula 1 é tanto que faz com que muitos questionem o quanto valem estes números. No caso específico do inglês, há quem argumente que ele nunca correu com carros ruins e que jamais um piloto esteve por tanto tempo com um carro superior, já que a Mercedes caminha para sete títulos em sete anos e isso é ímpar na história da categoria.

De fato, Hamilton e Schumacher tiveram carreiras singulares, e não é à toa que os números mostrem isso. O alemão correu na Fórmula 1 por 18 temporadas completas, sendo que apenas em apenas três delas seu time não ficou entre os três melhores do campeonato (foi justamente a Mercedes, quarta em 2010 e 2011 e quinta em 2012). Hamilton está em sua 14ª temporada, e pilotou seu pior carro em 2009, ano em que a McLaren só conseguiu superar a Ferrari, por um ponto, para ser terceira justamente por atuações suas, como na Hungria e em Singapura. Então, em termos de equipamento, dá para dizer que ambos tiveram uma vida “fácil” semelhante para chegar ao mesmo número de vitórias, até porque Schumacher não venceu nenhuma corrida com carros que ficaram de fora do top 4 no campeonato.

A indagação mais óbvia talvez seria por que essas grandes equipes seguiram apostando nestes dois pilotos por tanto tempo, enquanto eles tiveram vários comparanheiros diferentes que não atingiram o mesmo tipo de sucesso.

Hoje, o campeonato tem mais corridas, mas a diferença não é gigante na comparação das duas carreiras. Na médias destas 15 temporadas de Schumacher com carros do top 3, havia 16 provas por ano. E nas 14 temporadas de Hamilton, são pouco mais de 18 provas por ano em média.

E, se por um lado Schumacher não teve o melhor carro por tanto tempo quanto Hamilton, há várias diferenças em relação à competitividade da época do alemão em relação à carreira do inglês: a Ferrari foi absoluta por dois anos (2002 e 2004), enquanto a Mercedes não teve rivais de 2014 a 2016 e na atual temporada. Mas pela maior parte dos anos 90, as vitórias ficavam restritas a duas equipes (Benetton e Williams e depois Ferrari e McLaren), enquanto Hamilton viveu também uma época de domínio da Red Bull (especialmente 2011 e 2013), e campeonatos em que as vitórias eram divididas por três equipes (como 2010 e 2012) e acabam se diluindo mais.

E outra diferença importante: Hamilton nunca teve o status que Schumacher teve dentro da equipe, sendo o primeiro piloto inquestionável, nem tendo pneus feitos sob medida para ele, como era o caso da Bridgestone nos anos em que o alemão conquistou seus títulos na Ferrari.

https://esporte.uol.com.br/f1/album/2020/10/11/as-20-melhores-vitorias-de-lewis-hamilton.htm

Há quem questione, ainda, a qualidade de pilotos que bateram Hamilton no duelo interno, como Jenson Button na McLaren ou Nico Rosberg, na Mercedes, mas também é interessante notar como Schumacher, sem os testes ilimitados e o pneu sob medida da Bridgestone, teve muita dificuldade justamente com Rosberg.

Então, embora a vantagem que Hamilton tenha com a Mercedes seja mais longeva do que qualquer outro piloto pôde experimentar na carreira e isso ajude a inflar tanto seus números, há outros fatores que acabam relativizando essa vantagem. E muitos motivos para, mais uma vez, apostar que o recorde de vitórias do piloto inglês, que deve superar facilmente as 100 conquistas, uma vez que a Mercedes tem tudo para seguir forte ano que vem e ele ainda deve assinar, aos 35 anos, pelo menos mais um contrato com a equipe, deve permanecer intacto por um bom tempo.

Quanto a fulano ou ciclano ser o melhor da história, é um debate que sempre acaba pendendo mais para as memórias afetivas de cada um, como Vettel definiu muito bem neste domingo: “O Michael vai sempre seu meu ídolo porque era ele quem me inspirava quando criança”. Justo. E, até mais importante do que isso é o fato de que a F1 não foi evoluindo apenas de forma linear, mas regras diferentes também valorizaram qualidades distintas dos pilotos. Explico: por que Schumacher, tendo pilotado carros tão bons, provavelmente vai ter metade das poles de Hamilton quando ele parar de correr? Será que a pole, nos tempos de reabastecimento, valia tanto quanto agora? Obviamente o foco no sábado era muito menor do que hoje. Assim como, indo mais atrás ainda, antes da telemetria era muito mais importante um piloto ter conhecimento de mecânica. Um bom ouvido para sentir o motor uma ótima qualidade. Ter precisão ao reportar aos engenheiros hoje é muito mais válido. Excelência é excelência em qualquer área, mas as qualidades para se chegar lá vão se transformando, e quem entender o caminho estará léguas adiante.

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