Do fundo do baú e os 30 anos do revide do “Senna kamikaze”

GP do Japão de 1990, Senna está no auge de sua desconfiança a respeito do tratamento diferenciado que receberia do presidente da FISA, Jean-Marie Balestre, e sabe que a Ferrari do rival Alain Prost está melhor na fase decisiva do campeonato. Decide que o francês não passará da primeira curva, o que lhe daria o bicampeonato. Dito e feito. A decisão dura apenas 9s e dá início – ou melhor, continuidade – a uma guerra de palavras e julgamentos.

Na narrativa predominante no Brasil, o que Senna fez naquele 21 de outubro é justificado pelo que Prost fez um ano antes. Foi o que Ayrton disse, afinal. Mas como aquela corrida que completa 30 anos nesta semana repercutiu fora do Brasil e da França?

Dando um pano de fundo naquele final de semana. Antes mesmo da classificação, Senna tentava convencer os comissários a mudar o lado da posição do pole, e achou que tinha chegado a um acordo. Afinal, em 1988 ele perdeu muitas posições e, em 1989, perdeu a posição para Prost nos primeiros metros. Quando ele tentou recuperar a posição… sabemos bem o que aconteceu.

Falando naquele incidente de 1989, Senna ouviu na reunião de pilotos que, se um piloto – como ele no ano anterior – cortasse a chicane, não seria desclassificado (como ele foi). E depois da classificação ficou sabendo que largaria do lado oposto à racing line. De novo.

E foi assim que a decisão do título de 1990 entre dois dos maiores pilotos da história acabou em nove segundos com os dois na caixa de brita.

Depois de ganhar o terceiro título (também em Suzuka e largando na pole, desta vez do lado “certo”, Senna admitiu que provocou a batida, justificando que tentara trabalhar sério e sentira que tentavam prejudicá-lo, referindo-se à decisão de 89 e todos os acontecimentos anteriores à largada.

Balestre, por sua vez, disse:

“É um escândalo que um campeonato possa ser decidido com uma colisão dessas e deixo o julgamento para cada um sobre quem deve ser culpado”

(apesar das palavras duras, o dirigente disse que não havia no código esportivo algo que pudesse culpar Senna)

E Prost foi mais longe:

“Não estou preparado para lutar contra pessoas irresponsáveis que não têm medo de morrer.”

O experiente jornalista Denis Jenkinson, da Motorsport Magazine, do alto de seus 70 anos e cobrindo a F-1 desde seu início, não aliviou na época: “Se você sempre viu o campeonato como uma farsa – pelo menos desde 1958 quando Stirling Moss não foi campeão – como eu, esse final infeliz do campeonato de 1990 foi algo normal.”

“Kamikaze Senna”

“Kamikaze Senna fica com a coroa”, dizia matéria do Irish Independent, que na época tinha um correspondente em Suzuka, Timothy Collings (que ainda está na ativa, mas não me lembro de tê-lo visto no paddock. Começou a cobrir em 1986). O jornalista não faz juízo de valor diretamente, diz que a decisão foi “dramática e controversa”, mas coloca cinco parágrafos das acusações de Prost e apenas uma frase do piloto que, no final das contas, foi o campeão.

E Prost soltou mesmo o verbo. Disse, inclusive, que a Honda tinha revelado a ele no final de 1988 que tinha feito de tudo para que Senna vencesse aquele campeonato (para quem não leu, vale conferir o especial que fiz sobre essa relação especial entre Senna e Honda).

Mas quem ganhou aquela corrida, afinal? A liderança caiu no colo de Berger, que ficou na brita. Depois ficou com Mansell, que teve um problema de câmbio no pitstop e abandonou. Coube então a Piquet vencer pela primeira vez em três anos. Na coletiva de imprensa após a prova, Piquet inclusive entrou dizendo:

“Boa tarde, vocês podem não lembrar de mim, meu nome é Nelson Piquet.”

E, para completar, foi uma dobradinha brasileira e da Benetton com Roberto Pupo Moreno, que corria como substituto de Nannini, que sofrera um acidente de helicóptero. Quem apoia o projeto do Catarse e recebe o podcast ouviu tudo sobre essa história incrível de Moreno no episódio deste mês, e parte do nosso papo de uma hora também virou um especial que vai ao ar no UOL na data exata dos 30 anos desta prova, que é nesta quarta, dia 21 de outubro. O melhor dia do Brasil na F1, com um título e o que seria sua última dobradinha em pelo menos 30 anos, também foi um dos mais controversos.

2 comentários Adicione o seu

  1. Akihiro disse:

    Ju, em Suzuka/91 Senna largou em segundo. O pole foi Berger,

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  2. Paulo Moreira disse:

    É claro que o que aconteceu em 90 é consequência de 89. O Prost atirou o carro para cima do Ayrton na chicane em 89 e no ano seguinte o Senna vingou-se. Foi mau, foi mas é a vida.

    Visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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