Do fundo do baú: uma decisão de título de 4 pilotos. E um novato

A corrida do líder começou a se complicar na largada (Ferrari)

Era uma vez uma decisão de título com quatro pilotos envolvidos, em que aquele que chegou como terceiro colocado à última corrida do ano acabou levando o título, e se tornando o mais jovem a fazê-lo, enquanto o favorito ficou preso atrás de um piloto de não muita expressão. Isso tudo não é nenhum roteiro de filme ou uma história dos primórdios da F1. Aconteceu há 10 anos, no GP de Abu Dhabi de 2010, que seria, também, o último de uma era.

Há alguns pontos importantes para se contextualizar o GP que deu a Sebastian Vettel seu primeiro título mundial e que foi a derrota mais dolorosa da carreira de Fernando Alonso. Aquela foi a última corrida de uma F1 sem DRS e com pneus de alta duração, da Bridgestone. Para quem chegou mais recentemente no esporte, aquelas manobras que vemos nas duas retas (ambas com ativação de DRS) em sequência em Abu Dhabi eram quase impossíveis. Na temporada de 2010, foram feitas 15 ultrapassagens em média por GP, e a pista de Yas Marina foi uma das que puxou a média para baixo, como tinha acontecido na insossa corrida que selou o fim da temporada de 2009. Para efeito de comparação, a média atual fica acima de 40 ultrapassagens por GP, e ainda reclamamos.

A diferença não é apenas por conta do DRS. Os pneus Pirelli são feitos para se degradar justamente para evitar o que aconteceu naquela tarde em Abu Dhabi: houve um Safety Car na primeira volta e alguns pilotos – Kubica, Rosberg e Petrov – pararam e colocaram pneus duros para irem até o final. E naquela época isso não significava chegar no final se arrastando: eles sabiam que o rendimento não cairia.

Outro fator que acabou sendo fundamental foi uma quebra do motor de Alonso lá na terceira corrida do ano, na Malásia. Isso complicou toda sua alocação ao longo do e ele chegou em Abu Dhabi com um motor que fazia sua quarta corrida (na época, eram oito motores por piloto, então seria o equivalente a, digamos, estar usando o mesmo motor pela oitava prova hoje). E uma delas tinha sido Monza. Mas por que isso foi importante? Porque um erro estratégico o colocou logo atrás de um piloto que tinha um motor novo para aquela prova. Resultado? Ele nunca estava perto o bastante na freada no final das retas.

E tem mais: havia muita discussão no final daquela temporada sobre a real chance de Mark Webber ser campeão, pois a Red Bull parecia querer favorecer Vettel, e ganhou o álibi perfeito depois que o australiano bateu sozinho no GP da Coreia, o antepenúltimo, vencido por Alonso. Tanto, que no Brasil, o próprio Webber disse que era “óbvio” que a equipe estaria favorecendo a “juventude”. Vettel se classificou na frente do australiano e venceu no Brasil.

Ah, outro fator: Alonso liderava o campeonato naquele momento por um misto de ter se aproveitado de todas as brechas que apareceram além de ter vencido em pistas boas para a Ferrari e da baita sorte que deu na Coreia (além do abandono de Webber, Vettel teve uma quebra de motor com 10 voltas para o fim). A Scuderia era só terceira colocada entre as equipes, atrás também da McLaren, e Lewis Hamilton também chegou com chances matemáticas de ser campeão a Yas Marina, em que pese erros cometidos na Itália e Singapura. Era a Red Bull que tinha o melhor carro, mas que volta e meia tinha dificuldades de maximizar seus resultados.

A turma de 2010 (Ferrari)

Aquela Ferrari era pior em classificação do que em corrida, e o líder do campeonato saiu em terceiro, atrás do pole Vettel e de Hamilton. Foi um terceiro lugar comemorado porque Webber largaria em quinto. A situação do campeonato era: Alonso oito pontos na frente de Webber, 13 na frente de Vettel, e 24 na frente de Hamilton. Para a Ferrari, o rival era Webber. E foi esse pensamento que acabou custando o título.

Não ajudou o fato de Alonso perder a terceira posição para Button na largada. Ele ficaria no mano a mano com Webber. Porém, ainda era o suficiente para conquistar o título.

Até que a Red Bull chamou Webber para os boxes na volta 11, muito antes do que se esperava. O piloto reclamava de graining. Lá na frente, Vettel também diminuiu bastante o ritmo. Todos começaram a reclamar do comportamento dos pneus. 

Webber voltou mais rápido e a Ferrari reagiu primeiro com Massa, mas o brasileiro não conseguiu parar e sair na frente. A decisão em relação a Alonso demorou quatro voltas e contou com muita discussão via rádio – o espanhol questionava se parar realmente era o melhor a fazer. Ele estava certo por dois motivos: a tendência era o graining limpar, principalmente naquele tipo de composto, e Yas Marina sem DRS tinha que ser tratada mais ou menos como Mônaco, Hungria ou Singapura – a estratégia sempre precisa beneficiar posição de pista, e parar naquela hora significaria marcar Webber, sim, mas também voltar atrás de três carros que não trocariam mais de pneus (lembra daqueles três do começo do post?) e fora de posição para defender o título contra Vettel.

Na volta 15, Alonso parou e voltou na frente de Webber. Logo depois, Vettel retomou o ritmo normal na ponta, os pilotos pararam de reclamar de graining e o espanhol se viu travado atrás de Petrov – aquele que iria até o final sem trocar pneus (e sem desgaste de pneus, com o composto duro) e de motor novo. Mesmo se Alonso o passasse, ainda precisaria superar Kubica (nas mesmas condições de motor e pneu que o companheiro Petrov) e Rosberg.

Alonso não passou nem Petrov, Webber não fez mais nada digno de nota na corrida, Vettel venceu de ponta a ponta, descontou 25 pontos para Alonso sendo perfeito nas últimas duas corridas e se tornou o campeão do mundo mais jovem da história.

3 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Esse foi mais um tiro no pé da Ferrari que prejudicou o Alonso.
    É preocupante como a equipa mais experiente da F1 consegue por vezes hipotecar as hipóteses de vitória dos seus próprios pilotos com táticas de corridas erradas. Já longe vão os tempos em que Ross Brawn e Jean Todt mudavam o panorama das corridas a seu favor e possibilitavam as vitórias de Michael Schumacher, como acontece hoje em dia com a Mercedes.

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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  2. Luiz disse:

    E esse mesmo piloto, dez anos depois, tem seu quatro títulos contestados, por ‘especialistas’ em fórmula 1.

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  3. Felipe S. disse:

    Belo texto, Ju.

    Não sabia dessa discussão entre o asturiano e o time

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