Na perspectiva de Platão: o ‘fico’ de Mazepin e a F1 (a)política

(Joe Portlock – Formula 1)

Continuando com temas mais políticos aqui no Blog Takeover 2020/2021, o ano em que fomos quase que forçados a parar, e pensar, termina com o texto da Andréa Borges Leal. A advogada de Belém – sim, a diversidade segue sendo o eixo principal – divide com a gente como a filosofia de Platão pode ser aplicada à F1.

Até antes do início da temporada 2020 de Fórmula 1, caso alguém me perguntasse se existe política na principal categoria do automobilismo, eu responderia – sem pestanejar – que sim. Tentando provar meu ponto, eu traria à tona Ayrton Senna versus Alain Prost, a chefia de Bernie Ecclestone, a passada de pano no escândalo sexual nazista envolvendo Max Mosley, a anulação do banimento de Briatore pelo Singapore Gate, o circuito de Abu Dhabi fechando a temporada… mas, em 2020, eu me convenci de que não é bem assim, ou melhor, não é nada disso.

No curso de Direito, filosofia compõe a grade das matérias de 1° e 8° semestres. Estudamos Locke, Hobbes, Kant, Rousseau, Arendt, Stuart Mill e outros que nunca aprendi a, sequer, pronunciar. Contudo, quem me convenceu de que política e Fórmula 1 percorrem, na verdade, rotas antagônicas foi a boa e velha filosofia de Platão – aquela que estudamos ainda no ensino fundamental.

Platão (um clássico idealista, diga-se), na obra “A República”, afirma que todos os homens se consideram capacitados para exercer a política, muito embora essa seja uma arte para poucos. Em suma, a política em Platão é o meio para corrigir injustiças, que apenas se proliferam porque falsos intelectuais assumem o compromisso de administrar a pólis (cidade), sob o ilusório fundamento de que governarão em benefício de todos.

Surge, então, o que Platão designou como as quatro virtudes cardeais, quais sejam, sabedoria, coragem, moderação e justiça. Deve administrar a pólis, portanto, quem as detém, de modo que tão somente são detentores dessas virtudes os filósofos.

E vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com Nikita Mazepin ou com a Fórmula 1 em geral. Eu digo: tal como na Grécia Antiga, os más administradores da Fórmula 1 se julgam filósofos.

Aliás, a temporada 2020 exigiu uma postura mais ativa de um esporte que sempre tentou se esconder das questões sociais. Enquanto um piloto negro de raízes pobres assumiu o papel de protagonista, a Fórmula 1 se utilizou de um dublê para dar a cara à tapa. Foi assim que eles passaram a falsa impressão de que todos correm como um só; de que se importam com as vidas negras; de que mulheres podem ocupar o mesmo espaço dos homens. No circo da Fórmula 1, nós, que acreditamos em todas essas falácias, fomos os bobos da corte.

Nikita Mazepin, o piloto que deliberadamente publicou um vídeo assediando uma mulher, fica. Por dinheiro, por patrocínio. Isso não é política; é corrupção de interesses. A manutenção do contrato do russo causou grande barulho nas redes sociais, mas o silêncio de uma categoria inteira (chefes, equipes, pilotos, diretores, patrocinadores, federações) nos ensurdeceu.

No dia que a Haas comunicou a permanência de Mazepin, declarando que “nenhum outro comentário (sobre o assédio) deve ser feito”, o twitter da Fórmula 1 postava propaganda sobre a F1TV. No dia que Lewis Hamilton subiu ao pódio pedindo justiça por Breonna Taylor, a FIA abriu uma investigação contra o heptacampeão.

Se houvesse política, Mazepin nem ao menos seria opção. As virtudes cardeais não permitiriam. No entanto, a Fórmula 1 não abriga filósofos. Sábios, corajosos, moderados, justos… seria uma utopia acreditar que o administrador da nossa pólis governa em benefício de todos. Talvez os filósofos sejamos nós e talvez por isso nosso lugar seja nas arquibancadas.


Enquanto Mazepin fica, todo o discurso social e representativo construído ao longo desse ano, pela Fórmula 1, vai embora. A vaga de Mazepin não significa unicamente que teremos um assediador no grid de 2021, mas indica que, não importa o esforço que fazemos para lutar pelo que é ético, esse esforço jamais será suficiente para combater o que é financeiramente conveniente.

Filósofos normalmente são tidos como loucos. E que assim seja, afinal, não estamos dispostos a dividir espaço com aqueles que não respeitam nosso espaço. Eu finalizo afirmando: a Fórmula 1 é apolítica não por ser isenta, mas por ser hipócrita.

2 comentários Adicione o seu

  1. Robson Coimbra disse:

    O texto deveria se chamar O mito da Caverna !

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  2. Belo texto, você tem razão.
    Mas nós que somos apaixonados pela F1, não pela política, ou falta dela, também somos coniventes com esse mundo.
    Porque não vamos deixar de assistir.

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