A escassez da Representatividade na F1

No aniversário de Lewis Hamilton, um assunto que (ele já repetiu algumas vezes) lhe motiva mais do que qualquer recorde, na análise da Joyce Rodrigues. Neste 7 de janeiro, duas mulheres, negras, vão ter voz por aqui.

No aniversário de Lewis Hamilton, um assunto que ele já disse algumas vezes que lhe motiva mais do que qualquer recorde, na análise da Joyce Rodrigues. Neste 7 de janeiro, duas mulheres, negras, vão ter voz por aqui.

Desde seu início , na década de 50, a Fórmula Um, uma das modalidades mais populares mundialmente, sempre excluiu certas parcelas da sociedade. Um esporte elitista e majoritariamente branco, poucas pessoas distantes deste ciclo tiveram a oportunidade de ingressar na carreira de piloto, acompanhar o esporte ou comparecer a um autódromo. O espelho dessa restrição está no grid, tendo como exemplo o atual, que de vinte pilotos, apenas quatro não têm somente origem caucasiana; Lewis Hamilton, homem negro, Alexander Albon, asiático, Sérgio Perez, latino e Nicholas Latifi, descendente de imigrantes iranianos.

A falta de representatividade nesse esporte é um assunto bem preocupante, visto que a ausência dela afasta uma parte da população de assistir o espetáculo que o automobilismo sempre nos proporciona. Quando um ser, excluído socialmente, assiste e enxerga que há outro do seu ciclo que vivencia as mesmas lutas, ele começa a torcer, apreciar aquilo, isso aconteceu quando Hamilton entrou na modalidade, conquistou grandes prêmios e campeonatos, a audiência do movimento negro cresceu e começaram acompanhar a categoria.

Durante a história da modalidade, houve exemplos de representações de pessoas excluídas socialmente pelo seu gênero, orientação sexual ou pela sua cor. Willy T Ribbs, primeiro negro a pilotar um carro de Fórmula Um e a competir as 500 milhas de Indianápolis, ameaçado de morte quando foi chamado pelo presidente do circuito de Charlotte, Humpty Cheeler, para participar de uma etapa da Nascar, no intuito de chamar a população negra para o esporte. O estadunidense foi convidado por Bernie Eccletone nos anos 80, para fazer um teste na Brabham BT54, usada pelo brasileiro Nelson Piquet, complentando todo o circuito como foi planejado.

Maria Teresa de Fillippis, primeira mulher a pilotar um carro de Fórmula Um, começou a sua carreira a partir de uma aposta entre amigos, fez a sua estreia no final dos anos 50 no carro de Fangio, aos 22 anos já mostrava o seu grande talento para todos, mais tarde consagrando-se vice campeã do campeonato italiano. Por ser do gênero feminino, foi proibida de correr, o diretor de provas da época, Toto Roche, em uma entrevista apontou para uma foto da italiana e deu um depoimento bem machista, dizendo que ela era uma jovem muito bonita e não deveria usar nenhum capacete a não ser um secador de cabelo, a napolitana quando soube da declaração dada, ficou extremamente irritada.

Após a cobrança do Lewis pela falta de posicionamento da categoria e dos seus colegas de trabalho, a Fórmula Um aderiu o “We Race as one” (nós corremos como um) e o arco-íris nos carros. No GP da Toscana, o britânico subiu ao pódio, com uma blusa pedindo justiça por Breonna Taylor, morta por policiais brancos nos Estados Unidos, a FIA decidiu investigá-lo por declarações políticas. Se a instituição realmente cumprisse com o slogan, ela o apoiaria, como a NBA fez com suas equipes no movimento “Black Lives Matter”, dado que lutas raciais são questões de direitos humanos.

Esse caso não é o único que contradiz a frase usada pela categoria, atualmente houve episódios lamentáveis de pilotos privilegiados e com acesso à informação que tiveram atitudes péssimas, sem nenhuma ação da instituição. O piloto Nikita Mazepin gravou um vídeo nos seus stories assediando uma mulher e logo depois apagou, a equipe Haas decidiu mantê-lo na equipe e a FIA apoiou a decisão, o russo tem um poder aquisitivo alto e mais um fato apontando quão o privilégio branco é tóxico, sendo um dos empecilhos para a entrada de mais diversidade no grid.

A mesma entidade que mantém um assediador nas pistas, é a que apoia e realiza um campeonato exclusivo para as mulheres, a W Series, lançada faz dois anos e inaugurada há um. Ambas categorias terão etapas nos mesmos locais, seguindo essa lógica, haverá uma situação bem desconfortável, pilotas vão correr no mesmo ambiente que um homem que usou o corpo feminino como um pedaço de carne. Novamente colocando o capital em primeiro lugar, usando o emblema em vão, desrespeitando a todas as mulheres que acompanham ou trabalham nesse meio.

Diferentemente da Fórmula Um, que até então não houve a partir dela um intuito de maior diversidade no esporte, havendo somente uma equipe, a Mercedes, que iniciou o projeto de inclusão, a Nascar, considerada por muitos anos uma categoria sulista e conservadora, neste momento tem um incentivo de entrada de minorias na categoria, no grid atual, há um descendente de cubanos, Aric Almirola, um latino, Daniel Suárez, um afro-americano, Bubba Wallace e um descendente de asiáticos Kyle Larson. Em Abril, o piloto Larson, usou um termo racista durante uma corrida virtual, perdeu patrocínios, foi suspenso da categoria e somente em Outubro a organização decretou o fim da suspensão. Uma reação desse formato, provavelmente não ocorreria na Fórmula Um, sendo que esse ano houveram falas intolerantes e nenhuma ação da FIA.

Sob essa ótica, o lema usado pela instituição é apenas uma jogada de marketing para aparentar que a visão de mundo a partir da entidade mudou, apoiando as lutas sociais e a inclusão de diversidade no grid, vimos que na prática não é assim. O automobilismo sem a representatividade gera um afastamento e uma falta de interesse gigante, se não fosse pela a entrada do Hamilton em 2007 e os protestos que ele promove, a Mercedes provavelmente não faria um programa de integração de minorias e muitos sites ligados a isso não estariam falando sobre esse assunto, sendo assim, a Fórmula Um deveria seguir os passos de muitas categorias e promovendo inclusão, não apenas em palavras bonitas, no entanto em ações, consequentemente atraindo pessoas que se identificam com um dos pilotos, por viverem as mesmos combates sociais.

2 comentários Adicione o seu

  1. Cesar Franco disse:

    Simplesmente um dos melhores textos sobre F1 q já li. Abordou temas q muitos jornalistas não abordam, e não falou de forma velada, expôs para todos verem.
    Infelizmente como sempre terão aqueles q negam o racismo, os q dizem q assédio é mimimi ou culpa da própria mulher.
    Mas seguimos lutando! Parabéns Ju, q Deus abençoe seu ano de trabalho, lhe de muita saúde, e preserve a todos os q vc ama.
    #Go44

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  2. Antonio Carlos Mello Cesar disse:

    Taki Inoue, piloto japonês que correu pela Arrows nos anos 90, tinha uma certeza: Não importa quão rápido ou lento voce dirija, o requisito fundamental para chegar a F1 é dinheiro. Ele nunca obtve uma única vitória nas categorias de base e chegou a F1.
    Seja índio, africano, mulçumano, judeu, latino, asiático, preto, amarelo ou branco, apoiado por grande aporte financeiro, preencher requisitos básicos para participar da categoria, super licença e algum talento, não sera discriminado, vai estar no grid.
    O dinheiro nos esportes a motor não é um fator discriminador, pois a pratica em si é muito cara, se não vejamos: Caso eu resolva participar de um campeonato regional de turismo, dos mais insignificantes,praticamente amador, preciso comprar um carro, gastar com preparação, mecanicos etc, ou pagar uma equipe pronta, não sai por menos de 80.000 reais uma temporada.
    Para jogar futebol, basta chuteira, uniforme, alugar uma quadra com amigos e pronto.

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