O fenômeno Tsunoda

@Red Bull Content Pool

“A maneira como ele faz o carro voar é fantástica”, diz Helmut Marko sobre Yuki Tsunoda. O austríaco, do alto de toda a sua fama de moedor de carreiras, é um fã confesso do japonês de 20 anos. “Ele é um diamante bruto e não vamos queimá-lo.”

Mas de onde vem toda essa paciência de Marko (justamente dele) para que o novo recruta da AlphaTauri desenvolva suas habilidades? Muito provavelmente vem do fato de que, até aqui, Yuki provou repetidas vezes a Marko que, com ele, não é preciso ter paciência.

Tsunoda parece ter ganhado Marko com as performances na pista e com a personalidade. Ele gosta da linguagem agressiva na comunicação no rádio, gosta de como, a cada desafio que foi colocado a ele, o piloto não reclamou, não deu desculpas. E respondeu com resultados. Não é à toa que muitos no paddock já o consideram o melhor estreante desde Max Verstappen. Uma responsabilidade e tanto, convenhamos, uma vez que pilotos com muito mais vitórias no currículo, como Charles Leclerc e George Russell – iniciaram suas carreiras na F1 desde então. A questão, aqui, é não o tanto que ele venceu, mas o que ele fez com o que teve em mãos.

“Ele é o melhor estreante que a F1 teve nos últimos anos, tendo sido brilhante em todas as categorias em que competiu”

Ross Brawn

Em 2016, aos 16 anos, Tsunoda colocou uma meta para si mesmo: se não conseguisse apoio da Honda em um ano, pararia de correr. Ele estava começando na Fórmula 4 e nunca tinha competido fora do Japão devido a restrições de orçamento. Yuki participou, então, da escola de pilotagem da Honda em Suzuka. E não ficou entre os dois primeiros, que têm vaga garantida. Acabou sendo recomendado pessoalmente por Satoru Nakajima, e entrou no programa.

A Honda deixou claro que, na temporada seguinte, ele teria que vencer o campeonato para continuar sendo apoiado. E ele o fez, o que resultou em um teste na Hungria, quando acabou ganhando mais um “fã”, justamente Marko. “Ali vimos que ele era o nosso cara”, contou o austríaco.

Dali em diante, Tsunoda passou a ser, ao mesmo tempo, um piloto Honda e Red Bull. E partiu para a Europa aos 18 anos.

Ele nunca tinha corrido de F3, não conhecia nenhum circuito, reconhece que teve problemas para se adaptar à dieta europeia e primeiro mudou-se para a parte francesa (língua que não conhecia) da Suíça, sem a família. Para completar, sua equipe era a Jenzer, uma das piores, ou talvez a pior, do campeonato. Sofreu com os pneus Pirelli no início, mas acabou tornando-se sensação no campeonato de 2019 e até venceu uma corrida, em Monza.

Apoio da Honda e da Red Bull recompensados com uma vitória em Monza pela Jenzer na F3 @Red Bull Content Pool

Foi o suficiente para Marko decidir subir o sarrafo, e Tsunoda foi promovido, logo em seu segundo ano na Europa, para a F2. Correndo pela Carlin, mudou-se para a Inglaterra, e passou a contar com um psicólogo, que o ajudou a canalizar melhor seu ímpeto – ele mesmo diz que (ainda) é bem menos comedido que seus conterrâneos. “Manter a calma é meu ponto mais fraco”, disse, com um sorriso no rosto, após aparecer na transmissão do segundo treino livre no Bahrein reclamando – com direito a palavrão – do trânsito.

“Não tenho medo de cometer erros”

Yuki Tsunoda.

De fato, durante a campanha que lhe deu o terceiro lugar  – agora correndo por uma boa equipe, mas não a melhor – no campeonato da F2, essas mensagens foram comuns. Mas isso não refletiu-se na pista. “Yuki aprendeu que as corridas não são vencidas na primeira curva ou na primeira volta. Ele tem uma velocidade incrível, e é ao mesmo tempo um piloto esperto”, disse Marko.

Na F2, foram três vitórias e quatro pole positions. Diz muito o fato de que, se o campeonato da F2 fosse decidido apenas pelos pontos nas corridas mais longas, sem o grid invertido, ele teria sido o campeão. Rápido e preciso ao mesmo tempo, Tsunoda errou menos que Schumacher ou Ilott, mesmo sendo estreante.

Marko subiu o sarrafo de novo, e Tsunoda agora está na Fórmula 1. Na primeira corrida, chamou a atenção o fato de a AlphaTauri ter arriscado, com um estreante a bordo, passar para o Q3 com os pneus médios. Por um lado, Yuki errou e a tática não deu certo. Por outro, foi seu único erro do final de semana. Ok, um dos dois únicos, já que ele parou no lugar errado na largada que acabou sendo abortada, já que era o carro que sairia a sua frente, de Perez, que ficou pelo caminho. Mas até nisso ele foi impressionante: os engenheiros não podem passar instruções aos pilotos na volta de apresentação, então ele teve de encontrar a ré, que na F1 depende de algumas configurações no volante, e conseguiu sem grandes dramas. 

Em sua primeira corrida, ele teve cuidado no começo, perdeu três posições na primeira volta, e depois foi certeiro nas ultrapassagens – até a última volta, quando superou Stroll – e, no final chegou em nono, onde a AlphaTauri parece estar, como quinta força.

É possível que Gasly, sem o toque na primeira volta, tivesse feito mais? É claro que sim, uma vez que o francês não errou no Q2, passou para o Q3 com médios, e ainda por cima largava em quinto, tendo sido o nome da classificação. Mas a performance de Tsunoda mais uma vez impressionou os durões Marko e (seu novo chefe) Tost, que chamou seu trabalho na estreia de “fantástico”. Hora de subir o sarrafo mais uma vez?

2 comentários Adicione o seu

  1. Ótimo post.
    Tomara que ele continue superando o sarrafo.
    E a Red Bull não tem ummpiloto a altura do Verstappen.

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  2. Paulo Moreira disse:

    Vamos ver agora em Imola como o japonês se vai portar. Já tivemos alguns pilotos japoneses que também prometeram muito no inicio, mas que depois acabaram por não dar nada. Claro que é preciso estar no local certo na hora certa e pelo menos isso, Tsunoda, parece que está no sitio certo porque a Alpha Tauri, neste momento, é uma das melhores equipas.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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